
As cinco pessoas que voc encontra no cu

Mitch Albom


   "TODOS OS FINS SO TAMBM COMEOS, APENAS NO SABEMOS DISSO
NA HORA"

    Eddie  um veterano de guerra de cabelos grisalhos, prisioneiro de uma
vida inexpressiva de mecnico de brinquedos em um parque de diverses 
beira-mar.
    Assim como o parque passou por transformaes ao longo dos anos --
do Trem Fantasma ao Tobogua -, a vida de Eddie tambm mudou, de uma
juventude otimista a uma velhice amargurada. Seus dias so feitos de uma
montona rotina de trabalho, solido e arrependimento.
    At que, no seu aniversrio de 83 anos, Eddie morre num acidente
trgico, tentando salvar uma menina de um carro que despenca da torre. Em
seu suspiro final, ele sente duas mozinhas nas suas - e nada mais. Acorda j
na outra vida, onde aprende que o cu no  um Jardim das Delcias, mas um
lugar onde nossa vida na Terra nos  explicada por cinco pessoas que dela
fizeram parte.
    Entes queridos, conhecidos ou estranhos, cada um desses personagens
est, de alguma forma, ligado a acontecimentos que a influenciaram para
sempre.
    Uma a uma, as cinco pessoas vo esclarecendo as conexes ocultas da
vida de Eddie.  medida que a histria evolui para a sua surpreendente con-
cluso, Eddie busca desesperadamente a redeno no ltimo ato de sua vida,
cujo resultado ele ainda desconhece: ter sido um sucesso herico ou um
retumbante fracasso?
    A resposta, surgida da mais improvvel das fontes, , tanto quanto o
prprio cu, um vislumbre de inspirao divina.


            As cinco pessoas que voc
                     encontra no cu
   Pelo mesmo autor de A LTIMA GRANDE LIO

    Profundo, intenso, escrito com a serena eloqncia de um contador de
histrias que se atreve a penetrar no mais encantado de todos os mundos.
Um livro potico, cheio de lies e de esperanas.
    James McBride, autor de A cor da gua

   Aps seis anos de espera, Mitch Albom, o consagrado autor de A ltima
grande lio, fenmeno editorial que j vendeu dez milhes de exemplares
em todo o mundo, nos presenteia com As cinco pessoas que voc encontra no
cu.
    Com o mesmo estilo sensvel e profundo do livro anterior, Mitch criou
agora uma fbula para nos fazer refletir sobre o significado de nossa
existncia.
    As cinco pessoas que voc encontra no cu conta a histria de Eddie,
mecnico de um parque de diverses, que morre no dia de seu aniversrio
de 83 anos. Imerso numa rotina de trabalho e solido, ele passou a vida se
considerando um fracassado. Ao acordar no cu, encontra cinco pessoas
que lhe mostram o verdadeiro valor de sua vida.
    Este livro foi escrito para cada um de ns, pois freqentemente nos
sentimos frustrados e inteis -- assim como Eddie -- por no termos
realizado nossos sonhos. Ele nos faz lembrar que vivemos numa ampla teia
de ligaes e que temos o poder de mudar o destino dos outros com
pequenos gestos.
    Mitch Albom nos d mais uma vez uma grande lio sobre a importncia
da lealdade e do amor.




                        MITCH ALBOM
       As cinco     pessoas que voc
                 Encontra no cu
                                  SEXTANTE
     Este livro  dedicado ao meu querido tio Edward Beitchman, que me
transmitiu a primeira idia do cu. Todo ano,  mesa do Dia de Ao de
Graas, ele falava da noite em que acordou no hospital e viu as almas dos
seus entes queridos j falecidos sentadas na beira da cama, esperando por
ele. Eu nunca esqueci esta histria. E nunca o esqueci.
     Todo mundo, assim como a maioria das religies, tem uma idia do que
 o cu, e todas merecem respeito. A verso aqui apresentada  apenas uma
hiptese, um desejo, de certa forma, de que meu tio e outros como ele --
pessoas que se consideravam insignificantes na Terra -- percebam,
finalmente, o quanto foram importantes e queridas.

                                   Fim




     ESTA  A HISTRIA de um homem chamado Eddie. Ela
comea pelo fim, com Eddie morrendo sob o sol. Pode parecer
estranho uma histria comear pelo fim. Mas todos os fins so
tambm comeos. Embora, quando acontecem, no saibamos disso.
     A HORA FINAL da vida de Eddie foi passada, como a maioria
das outras, no Ruby Pier, um parque de diverses situado s margens
de um grande oceano cinzento. O parque tinha as atraes de costume:
deque  beira-mar, montanha-russa, carrinhos de bate-bate, quiosque
de bala puxa-puxa e um fliperama onde se podia jogar gua na boca
do palhao. Tinha tambm um brinquedo novo e grande chamado
Cabum do Freddy, e era por causa dele que Eddie ia morrer, num
acidente que seria notcia em todo o estado.
     NA POCA em que morreu, Eddie era um velho atarracado de
cabelos brancos, pescoo curto, peito estufado, braos vigorosos e
uma tatuagem do exrcito desbotada no ombro direito. Suas pernas
agora eram finas e cheias de veias, e seu joelho esquerdo, ferido na
guerra, estava destrudo pela artrite. Usava uma bengala para
caminhar. Tinha uma cara larga, queimada de sol, suas de
marinheiro e uma queixada ligeiramente proeminente que lhe dava um
aspecto mais orgulhoso do que ele prprio se sentia. Levava sempre
um cigarro atrs da orelha direita e uma corrente com um molho de
chaves enganchada no cinto. Usava sapatos de sola de borracha. E um
velho bon de pano. Seu uniforme marrom-claro sugeria que era um
trabalhador, e trabalhador ele era.
     O TRABALHO DE EDDIE consistia em fazer a manuteno dos
brinquedos do parque, o que na verdade significava mant-los
seguros. Toda tarde ele percorria o parque verificando cada uma das
atraes, da Rumba ao Tobogua. Procurava tbuas quebradas, travas
frouxas, ferragens desgastadas. s vezes parava, com os olhos
vidrados, e as pessoas que passavam tinham a impresso de que havia
algo errado. Mas ele s estava ouvindo. Depois de todos aqueles anos,
era capaz de ouvir um problema, ele dizia, nas cuspidas, gagueiras e
zumbidos dos equipamentos.
    COM CINQENTA MINUTOS ainda por viver na terra, Eddie
comeou sua ltima caminhada pelo Ruby Pier. Passou por um casal
de velhos.
    -- Ol, pessoal - murmurou, tocando no bon.
    Educadamente, eles responderam com um movimento de cabea.
Os fregueses conheciam Eddie. Pelo menos os freqentadores. Vero
aps vero, eles  viam ali, era uma dessas caras que a gente associa a
um lugar. Seu uniforme de trabalho levava um distintivo no peito na
qual se lia EDDIE logo acima da palavra MANUTENO, razo pela
qual as pessoas s vezes diziam: "L vai o Eddie Manuteno",
embora ele no achasse a menor graa nisso.
    Hoje, por acaso, era aniversrio de Eddie. Oitenta e trs anos. Na
semana anterior, o mdico lhe dissera que ele sofria de herpes-zster.
Herpes-zster? Eddie no fazia idia do que fosse isso. Antes ele era
to forte que conseguia levantar um cavalo do carrossel em cada
brao. Muito tempo atrs.
     -- EDDIE!... ME LEVA, Eddie!... Me leva!
    Quarenta minutos para a sua morte. Eddie caminhou at a frente da
fila da montanha-russa. Ele andava em todos os brinquedos pelo
menos uma vez por semana para ter certeza de que os freios e
comandos funcionavam perfeitamente. Hoje era o dia da montanha-
russa -- Montanha Fantasma era come esta se chamava --, e os
garotos que conheciam Eddie berravam pedindo para ir no carro com
ele.
    As crianas gostavam de Eddie. Os adolescentes, no. Os
adolescentes lhe davam dor de cabea. Depois de tantos anos, Eddie
imaginava j ter visto todo tipo de adolescente vadio e desaforado que
existia no mundo. Mas as crianas eram diferentes. As crianas
olhavam para Eddie -- que com sua mandbula proeminente parecia
estar sempre sorrindo, como um golfinho -- e confiavam nele.
Sentiam-se atradas por ele. como mos frias pelo fogo. Abraavam
suas pernas. Brincavam com suas chaves. Eddie s grunhia, sem dizer
quase nada. Imaginava que era porque no falava muito que as
crianas gostavam dele.
    Eddie bateu nos ombros de dois garotinhos com bons de beisebol
virados para trs. Eles correram at o carrinho e se atiraram dentro
dele. Eddie entregou sua bengala ao operador do brinquedo e se
acomodou vagarosamente entre os dois.
    -- L vamos ns... L vamos ns!... -- guinchou um dos garotos,
enquanto o outro colocava o brao de Eddie em torno do seu ombro.
Eddie baixou a barra de segurana e clec-clec-clec, l se foram eles.
    HAVIA UMA HISTRIA a respeito de Eddie. Quando menino,
nesse mesmo per, ele se envolvera numa briga de rua. Cinco garotos
da avenida Pitkin tinham encurralado seu irmo, Joe, e se preparavam
para lhe dar uma surra. Eddie estava a uma quadra de distncia,
sentado na escada que dava entrada a uma casa, comendo um
sanduche, quando ouviu o irmo gritar. Correu at o beco, apanhou a
tampa de uma lata de lixo e mandou dois garotos para o hospital.
    -- A GENTE PODE IR outra vez, Eddie? Por favor!
    Trinta e quatro minutos de vida. Eddie levantou a barra de
segurana, deu a cada um dos garotos uma bala, pegou de volta a sua
bengala e saiu coxeando em direo  oficina de manuteno para se
refrescar do calor do vero. Se soubesse que sua morte era iminente,
talvez tivesse ido a outro lugar. Em vez disso, fez o que todos ns
fazemos. Seguiu sua rotina montona como se tivesse todos os dias do
mundo  sua disposio.
    Um dos trabalhadores da oficina, um rapaz desengonado de rosto
ossudo chamado Dominguez, estava na pia de solventes, removendo a
graxa de uma roda.
    -- Ol, Eddie -- disse ele.
    -- Dom -- respondeu Eddie.
    A oficina cheirava a serragem. Era escura e apertada, com teto
baixo e paredes cobertas por chapas perfuradas onde ficavam
penduradas as brocas, serras e martelos. Havia peas e partes de
brinquedos espalhadas por toda parte: compressores, motores, cintos,
lmpadas, o alto da cabea de um pirata. Junto a uma parede havia
uma pilha de latas de caf cheias de pregos e parafusos, e junto a
outra, uma infinidade de potes de graxa.
    Para lubrificar um trilho, dizia Eddie, no era preciso ter mais
crebro do que para lavar a loua; a diferena era que, em vez de
limpar, deixava mais sujo. Era este o tipo de servio que Eddie fazia:
colocar graxa, ajustar freios, afivelar cintos, verificar painis
eletrnicos. Muitas vezes ele teve vontade de sair daquele lugar,
encontrar outro trabalho, construir um outro tipo de vida. Mas a veio
a guerra. Seus planos deram em nada. Quando caiu em si, j estava
grisalho, usando calas largas, e, por causa do cansao, compelido a
aceitar quem ele era e sempre seria, um homem com areia nos sapatos,
num mundo de risadas mecnicas e salsichas grelhadas. Tal como seu
pai, tal como a insgnia na sua camisa, Eddie era a manuteno -- o
chefe da manuteno - ou, como os garotos s vezes o chamavam, "o
homem dos brinquedos do Ruby Pier".
    TRINTA MINUTOS DEVIDA.
    -- Ei, feliz aniversrio, eu j soube -- disse Dominguez. Eddie
grunhiu.
    --Vai ter festa, alguma coisa?
    Eddie o olhou como se ele estivesse maluco. Por um momento
pensou como era estranho estar envelhecendo num lugar que cheirava
a algodo-doce.
    -- Eddie, no esquea que eu vou estar fora na semana que vem, a
partir de segunda-feira. Vou ao Mxico.
    Eddie assentiu movendo a cabea, e Dominguez fez uns passos de
dana.
    -- Eu e Thereza.Vamos ver a famlia inteira.Vai ser um festo.
Parou de danar ao perceber que Eddie olhava para ele. -Voc j
esteve l? - perguntou Dominguez.
    -- L onde?
    -- No Mxico. Eddie suspirou.
    -- Eu nunca estive em nenhum lugar onde no tenha sido
desembarcado com um fuzil na mo, rapaz.
    Observou Dominguez voltar  pia. Pensou um momento. A,
pegou no bolso uma pequena carteira, tirou duas notas de vinte, as
nicas que tinha, e lhe ofereceu.
    -- Compre alguma coisa bem bonita para a sua mulher -- disse
Eddie.
    Dominguez olhou o dinheiro e abriu um grande sorriso:
    -- O que  isso, cara. Tem certeza?
    Eddie ps o dinheiro na mo de Dominguez. Depois saiu
caminhando para a rea de despejo. Um pequeno "buraco de pescar"
fora feito nas pranchas do passeio anos antes. Eddie levantou a tampa
de plstico e puxou uma linha de nilon que descia 25 metros at
atingir o mar. Ainda tinha presa nela um pedao de salsicha.
    -- Pegamos alguma coisa? - berrou Dominguez. - Diz pra mim
que ns pegamos alguma coisa!
    Eddie se perguntou como aquele sujeito podia ser to otimista.
Nunca havia nada naquela linha.
    -- Um dia -- berrou Dominguez -- a gente vai pegar um linguado
gigante!
    --Vai, sim -- resmungou Eddie, sabendo que era impossvel
puxar um peixe daquele tamanho por um buraco to pequeno.
    VINTE E SEIS MINUTOS de vida. Eddie atravessou c deque at a
extremidade sul. O movimento estava fraco. A garota atrs do balco
de puxa-puxa estava apoiada nos cotovelos, fazendo bolas com seu
chiclete.
    No passado, o Ruby Pier era o lugar para se ir no vero. Tinha
elefantes, queima de fogos e maratonas de dana. Mas as pessoas no
vinham mais aos peres ocenicos; iam aos parques temticos de 75
dlares, onde podiam tirar fotos fantasiadas de personagens de
desenhos animados.
    Eddie passou coxeando pelo carrinho de bate-bate e fixou os olhos
num grupo de adolescentes encostados na grade de proteo. "Que
timo", disse a si mesmo. "Era tudo o que eu precisava."
    -- Saiam da -- disse Eddie, batendo na grade com a bengala. -
Vo embora. Este lugar no  seguro.
    Os adolescentes o olharam desafiantes. Os mastros dos carros
chiavam ao contato com a corrente eltrica, zzzzap zzzzap.
    -- No  seguro -- repetiu Eddie.
    Os adolescentes se entreolharam. Um garoto com uma mecha de
cabelo alaranjado lhe dirigiu um sorrisinho desdenhoso e subiu na
barra do meio da grade.
    -- Como , caras, acertem em mim! -- ele berrava, acenando para
os jovens motoristas. -- Me acert...
    Eddie deu uma bengalada to forte na grade que quase a partiu em
dois.
    -- SAIAM DA!
    Os adolescentes saram correndo.
     CONTAVA-SE UMA OUTRA HISTRIA sobre Eddie. Quando
soldado, ele entrara em combate diversas vezes. Tinha lutado com
bravura. Ganhara at uma medalha. Mas no fim do seu tempo de
servio teve uma briga com um de seus companheiros. Desse jeito
Eddie foi ferido. Ningum sabia o que tinha acontecido com o outro
sujeito. Ningum perguntava.
    COM DEZENOVE MINUTOS DE VIDA restantes, Eddie sentou-
se pela ltima vez numa velha cadeira de praia de alumnio. Seus
braos curtos e musculosos estavam dobrados sobre o peito como
nadadeiras de foca. Tinha as pernas vermelhas de sol e o joelho
esquerdo marcado por cicatrizes. Na verdade, muita coisa no corpo de
Eddie sugeria que se tratava de um sobrevivente. Seus dedos se
dobravam em ngulos estranhos, graas a numerosas fraturas causadas
por mquinas diversas. Tivera o nariz quebrado vrias vezes no que
chamava de "brigas de salo". Seu rosto, com aquela queixada larga,
talvez tivesse sido bonito um dia, quem sabe como o de um pugilista
profissional antes da luta.
    Agora Eddie parecia apenas cansado. Este era o lugar onde
costumava ficar no deque do Ruby Pier, atrs do Ligeirinho, que na
dcada de 1980 era o Mexicano, que nos anos 1970 era o Pirulito, que
nos anos 1950 era o Trem Fantasma e que antes disso era a Concha
Acstica Cho de Estrelas.
    Foi onde Eddie conheceu Marguerite.
    TODA VIDA TEM seu instantneo de verdadeiro amor. O de
Eddie aconteceu numa noite quente de setembro, depois de um
temporal, em que o deque estava encharcado de gua da chuva. Ela
usava um vestido de algodo amarelo e um prende-dor de cabelo cor-
de-rosa. Eddie no disse muita coisa. Estava to nervoso que sua
lngua parecia colada nos dentes. Danaram ao som de uma grande
orquestra, a Long Legs Delaney and His Everglades. Ele a convidou
para tomar uma soda limonada. Ela disse que tinha de ir embora
porque, se no fosse, seus pais iam ficar zangados. Mas, enquanto se
afastava, virou-se e acenou.
    Foi este o instantneo. Pelo resto da vida, sempre que Eddie
pensava em Marguerite, via esse momento, ela acenando por cima do
ombro, com o cabelo escuro caindo sobre um dos olhos. E sentia o
mesmo transbordamento de amor.
    Naquela noite, ele voltou para casa e acordou seu irmo mais
velho para lhe dizer que tinha conhecido a mulher com quem ia se
casar.
    --Vai dormir, Eddie -- gemeu o irmo.
    Rrrrrruasssh. Uma onda quebrou na praia. Eddie tossiu alguma
coisa que no quis ver. Cuspiu fora.
    Rrrrrruasssh. Ele pensava um bocado em Marguerite. Agora nem
tanto. Ela era como uma ferida debaixo de um curativo velho, e ele j
se acostumara com o curativo.
    Rrrrrruasssh.
    O que era herpes-zster?
    Rrrrrruasssh.
    Dezesseis minutos de vida.
    NENHUMA HISTRIA existe isoladamente. As histrias s
vezes se justapem como azulejos numa parede, s vezes se
superpem umas s outras como pedras no leito de um rio.
    O final da histria de Eddie foi determinado por uma outra histria
aparentemente inocente quando, meses antes, numa noite nublada, um
rapaz chegou ao Ruby Pier com trs amigos.
    O rapaz, que se chamava Nicky, acabara de aprender a dirigir.
Como no gostava de carregar o chaveiro, tirou a chave do carro,
colocou-a no bolso da jaqueta e amarrou a jaqueta em volta da cintura.
    Durante as poucas horas seguintes, Nicky e seus amigos andaram
em todos os brinquedos radicais: o Falco Voador, a Corredeira, o
Cabum e a Montanha-Russa.
    -- Mos para cima! -- gritava um deles.
    E todos levantavam as mos.
    J estava escuro quando retornaram ao estacionamento, exaustos e
alegres, bebendo cerveja em copos de papel. Nicky ps a mo no
bolso da jaqueta. Vasculhou-o. E praguejou.
    A chave no estava l.
     CATORZE MINUTOS de vida. Eddie passou um leno na testa e
ficou observando o alegre movimento dos raios de sol danando na
superfcie da gua, no meio no oceano. Desde a guerra, ele nunca mais
conseguiu andar equilibrado sobre os prprios ps.
    Mas na poca em que ficou na Concha Acstica Cho de Estrelas
com Marguerite, Eddie ainda se movia com elegncia. Fechou os
olhos e se permitiu recordar a cano que os unira, aquela que Judy
Garland cantava naquele filme. Ela agora se mistura em sua cabea
com a cacofonia das ondas se quebrando e das crianas gritando nos
brinquedos.
    "Voc me fez amar voc..."
    Uoshhhh.
    "...assim, eu no queria que fosse assim..."
    Splleshh.
    "...amar voc..."
    Aaaiiiiii!
    "...voc sabia o tempo todo, e todos os..."
    Chiuishh.
    "...voc sabia..."
    Eddie sentiu as mos dela nos seus ombros. Fechou os olhos bem
apertado para trazer a lembrana mais para perto.
    DOZE MINUTOS de vida.
    -- D licena?
    Uma garotinha, de uns oito anos talvez, parou na frente dele,
tapando o sol.Tinha cabelos louros cacheados, calava sandlias
havaianas e vestia shorts jeans curtinhos e uma camiseta verde-limo
com um pato de gibi estampado na frente. Amy era o nome dela, se
Eddie no estava enganado. Amy ou Annie. Ela viera muitas vezes
nesse vero, embora Eddie nunca tivesse visto seu pai ou sua me.
    -- D liceeeeena -- ela repetiu. -- Senhor Eddie da
Manuteno?
    -- Eu mesmo -- disse Eddie, suspirando.
    -- Eddie? -- Hum?
    -- O senhor pode fazer pra mim... Ela juntou as mos como se
rezasse.
    -- Anda, menina. Eu no tenho o dia inteiro.
    -- O senhor faz um bichinho pra mim? Faz?
    Eddie olhou para o alto, como se tivesse de pensar na resposta.
Ento, tirou do bolso da camisa trs limpadores de cachimbo
amarelos, que levava consigo justamente para essas ocasies.
    -- Iiiissso! -- disse a garotinha, batendo palmas. Eddie comeou a
torcer os limpadores.
    -- Onde esto os seus pais?
    -- Andando nos brinquedos.
    -- Sem voc?
    A garota deu de ombros.
    -- Minha me est com o namorado dela.
    -- Ah -- disse Eddie, olhando para cima.
    Fez vrios lacinhos com os limpadores de cachimbo, depois torceu
os lacinhos uns em volta dos outros. Suas mos agora tremiam, de
modo que levou mais tempo do que costumava levar, mas logo os
limpadores de cachimbo se transformaram em uma cabea, duas
orelhas, corpo e rabo.
    -- E um coelho? - perguntou a garotinha. Eddie deu uma
piscadela.
    -- Muuuito obrigada!
    Ela se virou e foi embora, perdida em seus pensamentos. Eddie
passou a mo na testa outra vez, fechou os olhos, afundou na cadeira
de praia e tentou trazer de volta  lembrana a antiga cano.
    Uma gaivota grasnou no cu.
    COMO  QUE AS PESSOAS escolhem suas ltimas palavras?
Ser que elas se do conta da sua gravidade? Sero necessariamente
palavras sbias?
    Em seu 83 aniversrio, Eddie j perdera quase todas as pessoas de
que gostava. Algumas morreram cedo, outras tiveram chance de
envelhecer at serem levadas por uma doena ou um acidente. Em
seus enterros, Eddie sempre ouvia os presentes lembrarem o ltimo
dilogo do morto. " como se ele soubesse que ia morrer...", algum
dizia.
    Eddie nunca acreditou nisso. At onde sabia, quando a hora de
algum chega, ela chega e est acabado. Voc podia dizer alguma
coisa inteligente na hora de ir, mas podia muito bem dizer uma
bobagem tambm.
    Registre-se, ento, que as ltimas palavras de Eddie foram: "Para
trs!"
     SO ESTES OS SONS dos ltimos minutos de Eddie na Terra.
Ondas se quebrando. A batida distante de uma cano de rock. O
zumbido do motor de um pequeno biplano arrastando um anncio pela
cauda. E isto:
    "AI, MEU DEUS! OLHA L!"
    Eddie sentiu seus olhos girarem rapidamente embaixo das
plpebras. Com os anos, ele passara a conhecer todos os rudos do
Ruby Pier. Era capaz de dormir ouvindo-os, como se fosse um
acalanto.
    Mas esta voz no era um acalanto.
    "AI, MEU DEUS! OLHA L!"
    Eddie levantou-se de um salto. Uma mulher de braos gordos e
cheios de dobras segurava uma bolsa de compras e apontava para o
alto, aos gritos. Uma pequena multido se reuniu em volta dela, com
os olhos voltados para o cu.
    Eddie os viu imediatamente. No alto do Cabum do Freddy, a
"queda livre da torre", que era a nova atrao do parque, um dos
carros se inclinara como se fosse despejar a sua carga. Quatro
passageiros, dois homens e duas mulheres, presos apenas por uma
barra de segurana, tentavam freneticamente se agarrar a qualquer
coisa que estivesse  mo.
    --AI, MEU DEUS! - gritava a mulher gorda. - OLHA L
AQUELAS PESSOAS! ELAS VO CAIR!
    Uma voz guinchou no rdio preso  cintura de Eddie.
    -- Eddie! Eddie!
    Ele apertou o boto.
    -- Estou vendo! Chame a segurana!
    As pessoas que estavam na praia vieram correndo, apontando para
o alto como se tivessem treinados para aquela situao. "Olha! L em
cima! Elas vo cair!" Eddie pegou sua bengala e saiu coxeando at o
gradil de segurana que cercava a plataforma, com o molho de chaves
chacoalhando no quadril. Seu corao batia acelerado.
    O Cabum do Freddy soltava dois carros de cada vez, uma queda de
revirar o estmago, detida no ltimo instante por um freio hidrulico.
Como  que um dos carros tinha se soltado daquele jeito? Estava
pendurado uns poucos centmetros abaixo da plataforma superior,
como se tivesse comeado a descida e mudado de idia.
    Eddie chegou ao porto e respirou fundo. Dominguez veio
correndo e quase lhe deu um encontro.
    -- Me escute - disse Eddie, agarrando Dominguez pelos ombros.
Agarrou com tanta fora que Dominguez fez uma cara de dor. - Me
escute! Quem est l em cima?
    --Willie.
    -- Tudo bem. Ele deve ter acionado a parada de emergncia.  por
isso que o carro est pendurado. Ponha a escada e diga a Willie para
soltar manualmente a trava da barra de segurana para as pessoas
poderem sair. Est certo? Fica na parte de trs do carro, de modo que
voc vai ter que segur-lo para ele poder alcan-la. Entendeu? A...
a, vocs dois - os dois, no um s, entendeu bem? -, vocs dois tiram
as pessoas de l. Um segura o outro. Entendeu?... Entendeu?
    Dominguez assentiu fazendo um gesto rpido com a cabea.
    -- Depois manda esse maldito carro c pra baixo pra gente
descobrir o que foi que aconteceu!
    A cabea de Eddie latejava.
    Embora nunca tivesse acontecido nenhum grande acidente no seu
parque, ele conhecia as histrias de horror do ramo. Uma vez, em
Brighton, a trava da gndola se soltara e duas pessoas morreram na
queda. Uma outra vez, no Wonderland Park, um homem tentara
atravessar os trilhos da montanha-russa; no conseguiu e ficou
pendurado pelas axilas. Ele gritava sem conseguir sair, quando os
carros vieram a toda velocidade na sua direo e... bem, aconteceu o
pior.
    Eddie tratou de tirar aquilo da cabea. Havia muita gente ao seu
redor agora, com as mos na boca, vendo Dominguez subir a escada.
Eddie ficou pensando nas entranhas do Cabum do Freddy. Motor.
Cilindros. Sistema hidrulico. Vedaes. Cabos... Como  que um
carro se solta? Visualizou todo o percurso das quatro pessoas
aterrorizadas l em cima, descendo pela torre at a base. Motor.
Cilindros. Sistema hidrulico. Vedaes. Cabos...
    Dominguez chegou  plataforma superior. Fez o que Eddie lhe
ordenara: ficou segurando Willie enquanto este se debruava para
soltar a trava na traseira do carro. Uma das mulheres se atirou em
cima de Willie e quase o puxou para fora da plataforma. A multido
arquejou.
    -- Espera a... -- Eddie disse a si mesmo.
    Willie tentou novamente. Desta vez conseguiu soltar a trava.
    -- O cabo... -- Eddie murmurou.
    A barra se ergueu e a multido fez "Ahhhhh". As quatro pessoas
foram ento rapidamente puxadas para a plataforma.
    -- O cabo est esgarado...
    Eddie estava certo. Dentro da base do Cabum do Freddy, sem que
ningum visse, o cabo que suspendia o segundo carro ficara durante os
ltimos meses roando numa polia emperrada. Por estar emperrada, a
polia esgarara pouco a pouco os fios do cabo de ao - como se
descascasse uma espiga de milho -at eles quase se romperem.
Ningum percebera. Como poderiam perceber? S se arrastando por
dentro do mecanismo algum poderia ter visto a improvvel causa do
problema.
    A polia tinha sido emperrada por um pequeno objeto que cara pela
abertura num instante preciso. A chave de um carro.
    -- NO SOLTE O CARRO - gritou Eddie, agitando os braos. -
EI! EEEIII!  O CABO! NO SOLTE O CARRO! O CABO VAI
ARREBENTAR!
    Sua voz foi abafada pela multido que aplaudia delirantemente,
enquanto Dominguez e Willie resgatavam a ltima pessoa. A salvo, os
quatro se abraaram no alto da plataforma.
    -- DOM! WILLIE! -- gritava Eddie. Algum esbarrou na sua
cintura, jogando o walkie-talkie no cho. Eddie se abaixou para peg-
lo. Willie foi at os controles e colocou o dedo no boto verde. Eddie
olhou para cima.
    -- NO, NO, NO, NO FAA ISSO!
    Alguma coisa na voz de Eddie deve ter chamado a ateno das
pessoas; elas pararam de aplaudir e comearam a se espalhar. Abriu-se
uma clareira em volta da base do Cabum do Freddy.
    E Eddie viu o ltimo rosto de sua vida.
    Ela estava encolhida na base metlica do brinquedo, como se
algum a tivesse atirado ali, com o nariz escorrendo e lgrimas nos
olhos. A garotinha com o bichinho de limpador de cachimbo. Amy?
Annie?
    -- Minha... Me... Mame... -- ela arfava quase ritmicamente, o
corpo paralisado como o de toda criana que chora.
    -- Ma... Me... Ma... Me...
    Os olhos de Eddie passaram da menina para os carros. Ser que
dava tempo? Da menina para os carros... Uoump. Tarde demais. Os
carros estavam caindo.
    -- Meu Deus, ele soltou o freio! - e para Eddie tudo entrou em
cmera lenta. Deixou cair a bengala e deu um impulso com a perna
defeituosa, sentindo um espasmo de dor que quase o derrubou no
cho. Um grande passo. Um outro passo. Dentro da torre do Cabum
do Freddy, o ltimo fio do cabo de ao arrebentou e rasgou a
tubulao hidrulica. O segundo carro estava agora em queda livre,
sem nada que pudesse det-lo, como um pedregulho que se solta de
um penhasco.
    Nesses momentos finais, Eddie teve a impresso de estar ouvindo
os sons do mundo inteiro: gritos distantes, ondas, msica, uma rajada
de vento, um som baixo, forte e cavernoso que percebeu ser sua
prpria voz roncando no peito.
    -- Para trs!
    A garotinha levantou os braos. Eddie se atirou. Sua perna
defeituosa vergou. Ele saiu meio voando, meio tropeando na direo
dela, e aterrissou na plataforma de metal que rasgou sua camisa e
dilacerou sua pele bem abaixo do aplique onde se Ha EDDIE
MANUTENO. Sentiu duas mos na sua, duas mozinhas
pequenas.
    Um impacto ensurdecedor.
    Um raio de luz cegante.
    Depois, nada.

                    Hoje  aniversrio de Eddie
    Estamos na dcada de 1920, num movimentado hospital de um dos
bairros mais pobres da cidade. O pai de Eddie fuma cigarros na sala de
espera, onde outros pais tambm esto fumando. A enfermeira entra com
uma prancheta. Chama o nome dele, com a pronncia errada. Os outros
homens expelem fumaa. Quem ?
    Ele levanta a mo.
    -- Parabns -- diz a enfermeira.
    Ele a segue pelo corredor at o berrio. Seus sapatos estalam no cho.
    -- Espere aqui -- diz ela.
    Pelo vidro, ele a v conferir os nmeros dos bercinhos de madeira.
Passa por um, no  o dele, por outro, este no, outro, tambm no, outro
mais, este no.
    Ela pra. Aqui. Embaixo do cobertor. Uma cabecinha minscula
coberta com um gorro azul. Ela verifica novamente a prancheta e o aponta.
    O pai respira aliviado e faz um gesto de aprovao com a cabea. Por
um momento, seu rosto parece desmoronar, como uma ponte desabando
num rio. Al ele sorri.
    O dele.


                            A jornada


   EDDIE NO VIU NADA DO SEU LTIMO momento na Terra:
nem o per, nem a multido, nem o carro de fibra de vidro espatifado.
    Nas histrias que falam da vida aps a morte, a alma costuma
pairar sobre o momento do adeus, flutua sobre os carros da polcia nos
acidentes rodovirios e se agarra como uma aranha nos tetos dos
hospitais. So almas de pessoas que ganham uma segunda chance,
pessoas que de alguma forma, por algum motivo, reassumem o seu
lugar no mundo.
    Eddie, ao que parece, no ia ter uma segunda chance.
    ONDE...?
    Onde...?
    Onde...?
    A cor do cu era um abbora enevoado, depois um azul-turquesa
profundo, depois um verde-limo brilhante. Eddie flutuava, com os
braos ainda estendidos.
    Onde...?
    O carro estava caindo da torre. Ele se lembrava disso. A garotinha
- Amy? Annie? - chorava. Lembrava-se disso tambm. E se lembrava
de ter se atirado. Lembrava-se de ter se chocado com a plataforma. E
de ter sentido as mozinhas dela na sua.
   E a?
   Eu a salvei?
    Tudo o que Eddie conseguia imaginar ficava muito distante, como
tivesse se passado havia muitos anos. E o mais estranho, no sentia
nenhuma emoo associada ao que acontecera. Tudo o que sentia era
calma, como uma criana aninhada nos braos da me.
    Onde...?
    O cu ao seu redor mudou outra vez de cor, ficou amarelo-
alaranjado, depois verde-folha, depois um cor-de-rosa que Eddie por
um momento associou, vejam s, a algodo-doce.
    Eu a salvei?
    Ela est viva?
    Onde...
    ...est a minha aflio?
    Onde est a minha dor?
    Era isso o que faltava. Todas as feridas que sofrer, todas as dores
que suportara - tudo desaparecera como um sopro. No sentia
nenhuma agonia. No sentia nenhuma tristeza. Sua conscincia
parecia esfumaada, fraca, incapaz de sentir qualquer coisa, exceto
calma. Embaixo dele as cores mudaram outra vez. Algo parecia estar
girando. gua. Um oceano. Ele flutuava sobre um vasto mar amarelo.
Agora amarelo-claro.
    Agora safira. E ele comeou a cair velozmente em direo 
superfcie. Era mais rpido do que qualquer coisa que ele jamais
imaginara, e no entanto havia apenas uma brisa em seu rosto, e no
sentia nenhum medo. Viu as areias de uma praia dourada.
    Logo estava debaixo d'gua.
    Logo tudo era silncio
    Onde est a minha aflio?
    Onde est a minha dor?

                     Hoje  aniversrio de Eddie
    Ele faz cinco anos de idade.  uma tarde de domingo no Ruby Pier.
Mesas de piquenique esto arrumadas no deque que sobranceia a longa
praia branca. H um bolo de baunilha com velinhas azuis. Uma jarra de
suco de laranja. Os trabalhadores do per esto por ali: apresentadores,
artistas, treinadores de animais, alguns pescadores. O pai de Eddie, como
sempre, joga cartas. Eddie brinca aos seus ps. Seu irmo mais velho, Joe,
faz flexes na frente de um grupo de senhoras que fingem interesse e
aplaudem educadamente.
    Eddie est vestido com o seu presente de aniversrio, um chapu
vermelho de caubi e um coldre de brinquedo. Ele se levanta e corre de um
grupo para o outro, sacando o revlver de brinquedo e dizendo: "Bang,
bang!"
    -- Vem aqui, garoto - acena Mickey Shea, sentado num banco.
    -- Bang, bang! -- diz Eddie.
    Mickey Shea trabalha com o pai de Eddie, consertando os brinquedos.
Ele  gordo, usa suspensrios e est sempre cantando canes irlandesas.
Para Eddie ele tem um cheiro engraado, que parece de remdio para tosse.
    -- Vem c. Me deixa dar as suas cabeadas de aniversrio - ele diz. --
Como a gente faz na Irlanda.
    De repente, Eddie  pego por debaixo dos braos pelas mos grandes de
Mickey, suspenso no ar, virado de cabea para baixo e balanado pelos ps.
O chapu de Eddie cai no cho.
    -- Tome cuidado, Mickey! -- grita a me de Eddie. O pai ergue os
olhos, d um sorriso e retorna ao seu jogo de cartas.
   -- Ho, ho. Peguei ele - diz Mickey. - Agora. Uma cabeada para cada
ano.
    Mickey abaixa Eddie com cuidado, at a cabea dele roar no cho.
    --Um!
    Mickey levanta Eddie novamente. Os outros se juntam, rindo. E gritam:
    -- Dois!... Trs!
    De cabea para baixo, Eddie no sabe mais quem  quem. Sua cabea
fica pesada.
    -- Quatro!... -- eles gritam. -- Cinco!
    Eddie  virado para a direita e colocado no cho. Todos aplaudem.
Eddie estende a mo para pegar seu chapu e tropea. Levanta-se,
cambaleia at Mickey Shea e lhe d um soco no brao.
    -- Ho, ho! Para que isso, homenzinho? -- diz Mickey. Todos riem.
Eddie se vira e sai correndo, trs passos, at se ver colhido pelos braos de
sua me.
    -- Tudo bem com voc, meu aniversariantezinho querido? -- Ela est a
centmetros de seu rosto. Ele v o batom muito vermelho da me, suas faces
carnudas e macias e a ondulao de seu cabelo castanho-avermelhado.
    -- Eu estava de cabea pra baixo - ele lhe diz.
    -- Eu vi -- ela responde.
    A me lhe coloca o chapu de volta na cabea. Mais tarde ir passear
com ele no per, talvez lev-lo para um passeio no elefante, ou ver os
pescadores puxarem suas redes noturnas, os peixes se sacudindo como
moedinhas molhadas e lustrosas. Ir pegar a mo dele e dizer que Deus est
orgulhoso por ele ser um bom menino no seu aniversrio. Tudo isso far o
mundo voltar a ficar de cabea para cima.


                            A chegada


   EDDIE ACORDOU NUMA XCARA DE CH.
    Fazia parte de algum velho brinquedo do parque de diverses --
uma grande xcara de ch de madeira escura e polida com assento
estofado e porta com dobradias metlicas. Os braos e pernas de
Eddie pendiam sobre as bordas. O cu continuava mudando de cor, de
marrom couro-de-sapato para escarlate profundo.
    Seu instinto foi procurar a bengala. Ele a conservara ao lado da
cama nos ltimos anos, porque havia manhs em que no tinha mais
fora para se levantar sem ela. Isso o deixava embaraado, ele que
costumava cumprimentar os homens com socos nos ombros. Mas
agora no havia mais bengala, de modo que Eddie respirou e tentou se
levantar. Para sua surpresa, as costas no doeram. Sua perna no
latejou. Com um puxo mais forte, ele se ergueu com facilidade sobre
a borda da xcara de ch, aterrissando desajeitadamente no cho, onde
foi assaltado por trs breves pensamentos.
    Primeiro, sentia-se timo.
    Segundo, estava absolutamente s.
    Terceiro, ainda estava no Ruby Pier.
    Mas agora era um Ruby Pier diferente. Havia tendas de lona, reas
livres ajardinadas e to poucos obstculos que dava para ver o quebra-
mar coberto de musgo. As cores dos brinquedos eram vermelho-
corpo-de-bombeiros e branco-creme-de-leite -- no havia azuis-
esverdeados nem castanho-avermelhados - e cada brinquedo tinha a
sua prpria bilheteria feita de madeira. A xcara de ch dentro da qual
ele acordara fazia parte de uma antiga atrao chamada Gira-Mundo.
Seu letreiro era de madeira compensada, como todos os demais,
letreiros baixos, pendurados sobre as frentes dos quiosques alinhados
no passeio.
    Charutos El Tiempo! Isto Sim  que  Fumar
    Sopa de Peixe, 50 centavos
    Ande no Chicotinho -A Sensao do Momento!
    Eddie pestanejou com fora. Era o mesmo Ruby Per da sua
infncia, havia uns 65 anos, s que todo novo e recm-lavado. Aqui
estava o Loop que fora desmontado 20 anos antes, e l as cabines de
banho e as piscinas de gua salgada demolidas na dcada de 1950.
Mais adiante, destacando-se contra o cu, a primeira roda-gigante --
com sua pintura branca original -- e, alm dela, as ruas do seu antigo
bairro e os telhados dos edifcios de tijolos, com seus varais
pendurados nas janelas.
    Eddie tentou gritar, mas sua voz era como ar rascante. Fez meno
de dizer "Ei!", mas nenhum som lhe saiu da garganta.
    Concentrou-se em seus braos e pernas. A no ser pela falta de
voz, sentia-se incrivelmente bem. Andava em crculos. Pulava.
Nenhuma dor. Nos ltimos 10 anos, ele se esquecera de como era
caminhar sem se encolher de dor, ou sentar sem ter de arranjar uma
posio que aliviasse sua lombar. Por fora, parecia o mesmo daquela
manh: um velho atarracado, de peito estufado, usando um bon,
bermuda e a camisa marrom da manuteno. Mas estava lpido. To
lpido que era capaz de tocar a parte de trs do tornozelo e levantar a
perna at a barriga. Explorava o prprio corpo como um beb,
fascinado por sua nova mecnica, um homem de borracha se
alongando na direo que queria.
    Ento ele correu.
    Ha-ha! Correr! Eddie no corria de verdade havia mais de 60 anos,
desde a guerra, mas estava correndo agora, inicialmente com passos
cautelosos, depois em marcha acelerada, cada vez mais rpido, como o
garoto corredor de sua juventude. Correu pelo deque do Ruby Pier,
passou em frente a um estande de materiais para pescadores (cinco
dlares) e outro de aluguel de roupas de banho (trs dlares). Passou
correndo por um tubo de brinquedo chamado Labirinto em Alto-Mar.
Correu pela Esplanada do Ruby Pier, embaixo de imponentes edifcios
em estilo mourisco, com agulhas, minaretes e domos em forma de
cebola. Passou correndo pelo Carrossel Parisiense, com seus cavalos
entalhados em madeira, seus espelhos e seu rgo Wurlitzer, tudo
brilhando de novo. Era como se, h no mais de uma hora, ele no
estivesse tirando ferrugem das suas peas na oficina.
    Desceu ao corao do antigo passeio central, onde no passado
trabalhavam os adivinhadores de peso, os videntes e os danarinos
ciganos. Abaixou o queixo e abriu os braos como planador, dando
saltos a cada poucos passos, do modo mo fazem as crianas, na
esperana de ver o salto se transformar em vo. Talvez parecesse
ridculo para quem estivesse olhando, um trabalhador de manuteno
grisalho brincando de aviozinho. Mas o menino corredor est dentro
de todo homem, independentemente da idade que tenha.
     E ENTO EDDIE parou de correr. Ouviu alguma coisa. Uma
voz, metlica, como que vinda de um megafone.
   "E o que dizer deste aqui, senhoras e senhores? Vocs alguma vez j viram
coisa to horrenda?..."
   Eddie estava em p ao lado de uma bilheteria vazia, em frente a
um grande teatro. Em cima, o cartaz dizia:

                       Os Cidados Mais Curiosos do Mundo.
                              O Espetculo do Ruby Pier!
                    Fantstico! Eles So Gordos! Eles So Magros!
                              Vejam o Homem Selvagem!

   O espetculo. A casa dos horrores. O salo de promoes. Eddie
lembrou que eles tinham parado de funcionar havia pelo menos 50
anos, na poca em que a televiso se popularizara e as pessoas
deixaram de procurar nmeros circences para excitar a imaginao.
    "Olhem bem para este selvagem, nascido com um peculiarssimo defeito..."
    Eddie examinou atentamente a entrada. Ele topara com algumas
pessoas realmente esquisitas neste lugar. Uma delas era Jolly Jane,
uma mulher que pesava mais de 200 quilos e precisava de dois
homens para empurr-la escada acima. Havia tambm as gmeas
siamesas que compartilhavam a espinha dorsal e tocavam
instrumentos musicais. Havia os engolidores de espadas, as mulheres
barbadas e uma dupla de irmos ndios cujas peles, de tanto serem
esticadas e embebidas em leos, ficaram elsticas e caam em grandes
pregas de seus braos e pernas.
    Quando criana, Eddie sentia pena desses artistas mambembes,
obrigados a ficar sentados nas tendas e nos palcos, s vezes atrs de
gradis,  disposio dos dedos apontados e dos olhares perversos dos
fregueses que passavam. Um apresentador promovia a extravagncia.
E era a voz de um apresentador que Eddie escutava agora.
     "S um terrvel golpe do destino poderia deixar um homem em estado to
lastimvel! Do rinco mais longnquo do planeta, ns o trouxemos para ser visto
por vocs..."
    Eddie entrou na sala escura. A voz ficou mais alta.
    "Esta alma trgica vem suportando uma perverso da natureza..."
    Vinha do outro lado do palco.
    "S aqui, no Cidados Mais Curiosos do Mundo, voc pode ver de perto..."
    Eddie puxou a cortina para o lado.
    "Regalem os seus olhos com o mais extraordin..."
    A voz do apresentador sumiu. Eddie deu um passo para trs, sem
acreditar no que via.
    Sozinho no palco, sentado numa cadeira, havia um homem de
meia-idade, de ombros estreitos e curvados, despido da cintura para
cima. Sua barriga fazia uma dobra sobre o cinto. O cabelo era cortado
rente. Tinha lbios finos e um rosto comprido, aparentando cansao.
Eddie j o esquecera havia muito, a no ser por um aspecto
caracterstico.
    Sua pele era azul.
    -- Ol, Edward - o homem disse. - Eu estava esperando por voc.


         A primeira pessoa que Eddie
              encontra no cu


    -- NO TENHA MEDO... - disse o Homem Azul levantando-se
vagarosamente da cadeira. - No tenha medo...
    Sua voz era reconfortante, mas Eddie apenas olhava fixamente. Ele
mal conhecera esse homem. Por que o estava vendo agora? Era um
desses rostos que quando aparecem nos sonhos, na manh seguinte a
gente diz: "Voc no vai adivinhar com quem eu sonhei esta noite."
    -- Seu corpo parece o de uma criana, no ? Eddie disse que sim
acenando com a cabea
    -- E porque voc era criana quando me conheceu. Voc comea
com o mesmo sentimento que tinha na poca.
    Comea o qu?, pensou Eddie.
    O Homem Azul ergueu o queixo. A sua pele tinha uma
estranhssima cor azul-acinzentada. Seus dedos eram enrugados. Ele
saiu. Eddie o seguiu. O per estava vazio. Ser que o planeta inteiro
estava vazio?
    -- Diga-me uma coisa -- falou o Homem Azul. E apontou para
uma montanha-russa de madeira, de duas corcovas, ao longe. O
Chicotinho. Fora construda em 1920, antes da inveno das rodas que
correm debaixo dos trilhos, o que significava que os carros no
podiam fazer as curvas muito depressa -- a menos que se quisesse v-
los saltar dos trilhos. -- O Chicotinho. Ainda  o "passeio mais rpido
da Terra"?
    Eddie olhou para aquela geringona barulhenta, desmontada havia
muitos anos. Balanou a cabea, acenando com um no.
    -- Ah -- disse o Homem Azul. -- Eu j imaginava. As coisas aqui
no mudam. E tambm receio que no tenha esse negcio de ficar nas
nuvens, olhando l para baixo.
    Aqui?, pensou Eddie.
    O Homem Azul sorriu como se tivesse escutado a pergunta. Tocou
no ombro de Eddie, que sentiu uma onda de calor diferente de tudo o
que jamais sentira. Seus pensamentos comearam a se derramar em
frases.
    Como foi que eu morri?
    -- Um acidente - disse o Homem Azul. H quanto tempo estou
morto?
    -- Um minuto. Uma hora. Mil anos. Onde estou?
    O Homem Azul contraiu os lbios e repetiu a pergunta, pensativo.
    -- Onde voc est? --Virou-se e ergueu os braos. De repente, os
brinquedos do velho Ruby Pier comearam a funcionar: a roda-
gigante girou, os carrinhos de bate-bate saram trombando uns nos
outros, o Chicotinho matraqueou montanha acima e os cavalos do
Carrossel Parisiense menearam sobre suas hastes de bronze ao som da
msica alegre do rgo Wurlitzer.  frente deles estava o oceano. O
cu era verde-limo.
    -- Onde voc acha que est? -- perguntou o Homem Azul. -- No
cu.
     -NO! - EDDIE SACUDIU a cabea violentamente. -- NO! --
O Homem Azul parecia divertir-se.
    -- No? No pode ser o cu? -- ele disse. -- Por qu? Porque foi
aqui que voc cresceu?
    Eddie balbuciou a palavra Sim.
    -- Ah -- assentiu o Homem Azul, movendo a cabea. - Bem, as
pessoas costumam dar pouca importncia ao lugar onde nasceram.
Mas o cu pode ser encontrado nos recantos mais improvveis. E o
prprio cu tem muitos degraus. Este, para mim,  o segundo. Para
voc, o primeiro.
    Ele andou com Eddie pelo parque, pelas charutarias, pelos
quiosques de salsichas e as mquinas caa-nqueis.
    O cu?, pensou Eddie. Ridculo. Ele passara a maior parte da sua
vida adulta tentando sair do Ruby Pier. Isto aqui era um parque de
diverses, nada mais, um lugar onde as pessoas berram, se molham e
trocam seus dlares por bonecas. A idia de que pudesse ser um
abenoado lugar de descanso estava alm da sua imaginao.
    Tentou falar novamente, e desta vez ouviu um pequeno grunhido
saindo do peito. O Homem Azul se virou.
    -- A sua voz vir. Acontece com todo mundo. A gente no
consegue falar assim que chega. - Ele sorriu. - Pelo menos isso nos
ajuda a ouvir.
    -- VOC ENCONTRA CINCO PESSOAS no cu -- disse de
repente o Homem Azul. -- Cada um de ns passou pela sua vida por
um motivo. Talvez voc no se desse conta na poca, e  para isso que
serve o cu. Para entender a sua vida na Terra.
    Eddie pareceu confuso.
    -- As pessoas pensam no cu como um jardim paradisaco, um
lugar onde se fica flutuando nas nuvens e se divertindo pelos rios e
montanhas. Mas paisagem sem consolo no significa nada. Este  o
maior presente que Deus pode lhe dar: entender o que aconteceu na
sua vida. Ter explicaes para ela.  a paz que voc buscava.
    Eddie tossiu, para ver se sua voz aparecia. Estava cansado de ficar
calado.
    -- Eu sou a sua primeira pessoa, Edward. Quando morri, minha
vida me foi esclarecida por cinco outras pessoas, e depois eu vim para
c esperar por voc, ficar na sua fila, para lhe contar a minha histria,
que faz parte da sua. Depois viro outras pessoas. Algumas voc
conheceu, outras talvez no. Mas todas cruzaram o seu caminho antes
de morrer. E o transformaram para sempre.
    Eddie empurrou um som para fora do peito, o mais forte que pde.
    -- O que... -- ele grasnou finalmente.
    Sua voz parecia estar rompendo uma casca, como um pintinho.
    -- O que... matou...
   O Homem Azul esperava pacientemente.
   -- O que... matou... voc?
   O Homem Azul pareceu um pouco surpreso. Ele sorriu para Eddie.
   -- Foi voc.

                     Hoje  aniversrio de Eddie
    Eddie faz sete anos de idade e seu presente  uma bola de beisebol. Ele a
aperta nas mos, sentindo uma onda de energia subir por seus braos.
Imagina que  um de seus heris da coleo de figurinhas do Cracker Jack,
o grande arremessador Walter Johnson, por exemplo.
    -- Aqui, arremesse -- diz seu irmo Joe.
    Eles correm pelo passeio central, na frente do estande das garrafas --
quem derruba trs das verdes ganha um coco e um brinde.
    -- Vamos l, Eddie -- diz Joe. --Jogue.
    Eddie pra e se imagina num estdio. Ele atira a bola. Seu irmo
encolhe os cotovelos e se esquiva.
    -- Forte demais! -- grita Joe.
    Eddie observa a bola cair pesadamente no deque e ir parar num
pequeno espao aberto atrs das tendas dos artistas. Corre atrs dela. Joe o
acompanha. Eles se jogam no cho.
    -- Est vendo a bola? -- diz Eddie.
    -- H-h.
    O som da porta de uma tenda se abrindo os interrompe. Eddie e Joe
erguem os olhos. Vem uma mulher tremendamente gorda e um homem sem
camisa com um cabelo avermelhado que lhe cobre todo o corpo.
Personagens do show de aberraes.
    As crianas ficam paralisadas de medo.
    -- O que  que esses dois espertinhos esto fazendo por
    -- Procurando encrenca?
    O lbio de Joe treme. Ele comea a chorar. Levanta-se de um salto e sai
correndo, sacudindo os braos freneticamente. Eddie se levanta tambm, e
ento v a sua bola encostada num cavalete. Com os olhos pregados no
homem sem camisa, ele caminha lentamente na direo dela.
    -- Ela  minha -- murmura. Com um movimento rpido, apanha a bola
e sai atrs do irmo.
    -- ESCUTE AQUI, SENHOR -- disse Eddie com uma voz spera
--, eu no o matei, est certo? Eu nem sequer o conheo.
    O Homem Azul sentou num banco. Sorriu como se quisesse deixar
um convidado  vontade. Eddie continuou em p, numa postura
defensiva.
    -- Deixe-me comear com meu verdadeiro nome -- disse o
Homem Azul. -- Meu nome de batismo  Joseph Corvelzchik, filho
do alfaiate de um pequeno povoado polons. Viemos para a Amrica
em 1894. Eu era menino. A lembrana mais antiga da minha infncia
 minha me me segurando sobre a amurada do navio, me balanando
nas brisas de um mundo novo. Como a maioria dos imigrantes, no
tnhamos dinheiro algum. Dormamos num colcho na cozinha da casa
do meu tio. Meu pai teve de aceitar um emprego de pregador de
botes numa alfaiataria por um salrio de fome. Quando fiz 10 anos,
ele me tirou da escola e me levou para trabalhar com ele.
    Eddie examinou o rosto bexiguento do Homem Azul, seus lbios
finos, seu peito arqueado. Por que ele est me contando isso?, pensou.
    -- Eu era uma criana nervosa por natureza, e o barulho da loja s
tornava as coisas piores. Eu era pequeno demais para estar ali, entre
aqueles homens praguejando e reclamando. Toda vez que o
encarregado chegava perto, meu pai me dizia:
    Olhe para baixo. No se deixe notar." Uma vez, porm, eu tropecei
e derrubei um saco de botes, que se espalharam pelo cho. O
encarregado gritou que eu era um intil, uma criana imprestvel, que
eu tinha de ir embora dali. Ainda posso ver aquele momento, meu pai
lhe implorando como um mendigo, e o encarregado escarnecendo e
limpando o nariz com as costas da mo. Meu estmago retorceu de
dor. Em seguida senti alguma coisa molhada em minhas pernas. Olhei
para baixo. O encarregado apontou para a minha cala suja e riu, e os
outros trabalhadores riram tambm. Depois disso, meu pai no quis
mais falar comigo. Eu sabia que o envergonhara, e imagino que, em
seu mundo, eu tinha mesmo. Mas os pais so capazes de destroar
seus filhos, e eu fui, de certa maneira, destroado depois disso. Eu era
uma criana nervosa e me tornei um homem nervoso. Pior de tudo,
ainda mijava na cama  noite. De manh, eu saa escondido com os
lenis sujos para lavar no tanque. Certa manh, quando levantei os
olhos, meu pai estava l. Ele viu os lenis molhados e me olhou de
um jeito feroz que eu jamais vou esquecer, como se desejasse poder
cortar a corda da vida que existia entre ns.
    O Homem Azul parou. Sua pele, que parecia embebida num
lquido azul, se dobrava sobre o cinto em pequenas camadas
gordurosas. Eddie no conseguia deixar de olhar.
    -- Eu no fui uma aberrao a vida inteira, Edward -- ele disse.
-- Mas naquela poca a medicina era muito primitiva. A procura de
alguma coisa para os meus nervos, fui a um farmacutico. Ele me deu
um vidro de nitrato de prata e me disse para misturar com gua e
tomar um pouco toda noite. Nitrato de prata. Mais tarde passou a ser
considerado veneno. Mas era tudo o que eu tinha, e, como no fazia
efeito, s pude supor que no estava tomando o suficiente. Passei
ento a tomar mais. Tomava dois goles, s vezes trs, sem gua
nenhuma. As pessoas logo comearam a me olhar de modo estranho.
Minha pele estava ficando cinzenta. Envergonhado e agitado, passei a
tomar ainda mais nitrato de prata, at a minha pele passar de cinza a
azul, um efeito colateral do veneno. O Homem Azul fez uma pausa.
Sua voz baixou.
    -- Fui despedido da fbrica. O encarregado disse que eu assustava
os outros trabalhadores. E, sem trabalho, como  que eu ia comer?
Onde  que eu ia morar? Fui trabalhar num bar, um lugar sombrio
onde eu podia me esconder atrs de um capote e um chapu. Uma
noite, um grupo de artistas de circo mambembe ocupou uma mesa no
fundo do bar. Fumavam charutos. Riam. Um deles, um sujeito
baixinho com uma perna de pau, comeou a me olhar. E acabou me
abordando. No fim da noite, concordei em me juntar ao circo deles. E
assim comeou a minha vida como mercadoria.
    Eddie notou o olhar resignado no rosto do Homem Azul. Muitas
vezes ele se perguntara de onde vinha o elenco dos circos. Acreditava
haver uma histria triste por trs de cada um deles.
    -- A trupe ia criando nomes para mim, Edward. s vezes eu era o
Homem Azul do Plo Norte, s vezes o Homem Azul da Arglia,
outras, o Homem Azul da Nova Zelndia. Eu nunca tinha estado em
nenhum desses lugares,  claro, mas era divertido ser considerado
extico, pelo menos num letreiro pintado  mo. O show era simples.
Eu ficava sentado no palco, seminu, enquanto o apresentador dizia s
pessoas que passavam como eu era pattico. Com isso, eu conseguia
ganhar um dinheirinho. Uma vez o gerente me chamou de "a melhor
aberrao" do seu espetculo e, por mais triste que parea, eu acabei
me orgulhando disso. Para um pria, uma pedrada pode ser uma
carcia. Um inverno, eu vim a este per. Ruby Pier. Estavam
comeando um espetculo chamado Os Cidados Curiosos. Eu gostei
da idia de ficar num lugar s, deixar para trs os solavancos das
carroas puxadas a cavalo do circo mambembe. Este passou a ser o
meu lar. Eu morava num quarto em cima de uma salsicharia.  noite
jogava cartas com os outros artistas do espetculo, com os funileiros,
s vezes at com o seu pai. De manh bem cedinho, vestido com
cales compridos e com a cabea enrolada numa toalha, eu podia at
andar pela praia sem assustar as pessoas. Pode no parecer grande
coisa, mas para mim era a liberdade de que pouqussimas vezes eu
tive oportunidade de desfrutar.
    Ele parou. Olhou para Eddie.
    --Voc entende? Entende por que est aqui? Este no  o seu cu.
 o meu.
     VAMOS VER A HISTRIA de dois ngulos diferentes.
    Imagine uma manh chuvosa de um domingo de vero da dcada
de 1920, em que Eddie e seus amigos esto brincando com uma bola
de beisebol que ele ganhou de aniversrio quase um ano antes.
Imagine o momento em que a bola passa sobre a cabea de Eddie e vai
direto para a rua. Com suas calas castanho-avermelhadas e seu bon
de l, Eddie sai correndo atrs da bola e passa na frente de um carro,
um Ford Modelo A. O carro d uma freada estridente, uma guinada, e
quase o atropela. Ele se arrepia todo, respira fundo, pega a bola e volta
correndo para perto dos amigos. Logo termina o jogo e as crianas
correm at o fliperama para brincar na Escavadeira do Lago Erie, um
caa-nqueis com garras que pegam pequenos brinquedos.
    Veja agora a mesma histria de um ngulo diferente. Um homem
est ao volante do Ford Modelo A, que pegou emprestado com um
amigo para praticar direo. A estrada est molhada por causa da
chuva da manh. De repente, uma bola de beisebol passa quicando,
com um menino correndo atrs dela. O motorista pisa no freio e trava
as rodas. O carro derrapa, os pneus cantam.
    O motorista consegue recuperar o controle do Modelo A, que
segue adiante. A imagem da criana desapareceu no espelho
retrovisor, mas o homem ainda tem o corpo afetado, ao pensar como
esteve perto de uma tragdia. A descarga de adrenalina obrigou seu
corao, que no  particularmente forte, a trabalhar furiosamente.
Aquilo o exaure. O homem fica tonto e sua cabea tomba
momentaneamente. O carro quase colide com outro. O segundo
motorista buzina, o homem d outra guinada no carro, girando o
volante e apertando o pedal do freio. Ele sai deslizando por uma
alameda e depois entra num beco. O veculo roda at colidir com a
traseira de um caminho estacionado. A batida faz um pequeno
estrondo. Os faris se quebram. Com o impacto, o homem  lanado
contra o volante do carro. Sua testa sangra. Ele sai do Modelo A, v o
estrago e cai na calada. Seu brao lateja. Seu peito di.  domingo de
manh. O beco est vazio. Ele fica l, cado, sem ningum saber,
encostado na lateral do carro. O sangue das coronrias no flui mais
para o seu corao. Passa-se uma hora. Um policial o encontra. Um
mdico o declara morto. A causa da morte  registrada como "ataque
cardaco". No h parentes conhecidos.
    Pegue uma nica histria, vista de dois ngulos diferentes.  o
mesmo dia, o mesmo momento, mas um dos lados acaba bem, num
fliperama, com o garotinho de cala castanho-avermelhada colocando
moedas na Escavadeira do Lago Erie, e o outro acaba mal, no
necrotrio da cidade, onde um funcionrio chama a ateno de outro
funcionrio para a pele azul do recm-chegado.
    -- Est vendo s, menino? -- sussurrou o Homem Azul depois de
terminar a histria contada do seu ponto de vista.
    Eddie sentiu um arrepio.
    -- Oh, no -- sussurrou.

                    Hoje  aniversrio de Eddie
   Eddie faz oito anos de idade. Est sentado na borda de um sof xadrez,
com os braos cruzados de raiva. A me est aos seus ps, amarrando seus
sapatos. O pai est na frente do espelho, dando n na gravata.
   -- Eu no QUERO ir -- afirma Eddie.
   -- Eu sei -- diz sua me, sem erguer os olhos --, mas ns temos de ir.
s vezes a gente tem de fazer coisas chatas quando algo ruim acontece.
    -- Mas hoje  meu ANIVERSRIO.
    Eddie olha pesaroso para o "pequeno construtor" no canto, do outro
lado da sala, uma estrutura de vigas metlicas de brinquedo com trs
rodinhas de borracha. Estivem construindo um caminho. Eddie tinha jeito
para montar as coisas. Queria mostr-lo aos amigos durante a sua festa de
aniversrio. Em vez disso, tem de se vestir para ir a algum lugar. No 
justo, ele pensa.
    Seu irmo Joe, vestido com calas de l e gravata-borboleta, entra com
uma luva de beisebol na mo esquerda. Bate nela com fora. Faz uma
careta para Eddie.
    -- Esses sapatos eram meus -- diz Joe. -- Os meus novos so melhores.
    Eddie se retrai. Detesta ter de usar as roupas que foram de Joe.
    -- Pare de se mexer -- diz sua me.
    -- Eles MACHUCAM -- Eddie se lamria.
    -- Chegai -- grita o pai, olhando para Eddie com irritao. Eddie fica
quieto.
    No cemitrio, Eddie mal reconhece as pessoas do per. Os homens, que
normalmente se vestem de lam dourado e usam turbantes vermelhos, esto
agora de terno preto, como o seu pai. As mulheres parecem estar com seus
vestidos pretos de sempre; algumas cobrem os rostos com vus.
    Eddie observa um homem com uma p, jogando terra dentro de um
buraco. Ele diz qualquer coisa sobre cinzas. Eddie segura a mo de sua me
e aperta os olhos para proteg-los do sol. Devia estar triste, ele sabe, mas
secretamente conta nmeros, a comear do um, na esperana de que, ao
chegar ao mil, ter o seu aniversrio de volta.


                       A primeira lio


   -- POR    FAVOR, SENHOR... -- IMPLOROU EDDIE. -- Eu
no sabia. Acredite-me. Deus me ajude, eu no sabia. O Homem Azul
fez um gesto de assentimento.
    -- E nem tinha como saber. Voc era muito jovem.
    Eddie deu um passo atrs. Endireitou o corpo como que se
preparando para uma luta.
    -- Mas agora eu tenho de pagar -- disse.
    -- Pagar?
    -- Pelo meu pecado.  por isso que eu estou aqui, no ? Justia?
    O Homem Azul sorriu.
    -- No, Edward. Voc est aqui para eu poder lhe ensinar uma
coisa. Todas as pessoas que voc encontra aqui tm algo para lhe
ensinar.
    Eddie estava ctico. Permanecia com os punhos cerrados.
    -- O qu, por exemplo? -- perguntou.
    -- Que no existe nada por acaso. Que estamos todos ligados. Que
no se pode separar uma vida da outra, assim como no se separa a
brisa do vento.
    Eddie balanou a cabea.
    -- Ns estvamos arremessando uma bola. A estupidez foi minha,
sair correndo atrs dela daquele jeito. Por que  que voc tinha de
morrer em vez de mim? No  justo.
    O Homem Azul estendeu a mo.
    -- A justia -- disse ele -- no governa a vida e a morte. Se
governasse, nenhuma pessoa boa morreria jovem.
    Ele virou a palma da mo para cima, e de repente estavam em p
num cemitrio, atrs de um pequeno grupo de pessoas. Ao lado da
cova, um padre lia uma passagem da Bblia. Eddie no conseguia ver
os rostos, s as costas dos vestidos, palets e chapus.
    -- Meu enterro -- disse o Homem Azul. -- Veja as pessoas.
Algumas nem me conheciam direito, mas vieram mesmo assim. Por
qu? Voc j pensou nisto alguma vez? Por que as pessoas se renem
quando outra morre? Por que elas sentem que devem faz-lo? 
porque o esprito humano sabe, l no fundo, que todas as vidas se
entrecruzam. Que a morte no leva uma pessoa simplesmente, ela
tambm deixa de levar uma outra, e na pequena distncia que h entre
ser levado e ser deixado as vidas se modificam. Voc diz que devia ter
morrido no meu lugar. Mas, durante o meu tempo na Terra, outras
pessoas morreram em meu lugar. Acontece todo dia. Quando cai um
raio minutos depois que voc saiu de um certo lugar, ou quando
despenca um avio em que voc poderia estar viajando. Quando seu
colega cai doente e voc no. Ns achamos que essas coisas
acontecem ao acaso. Mas existe um equilbrio em tudo isso. Um
murcha, outro floresce. Nascimento e morte fazem parte de um todo.
 por isso que nos sentimos atrados por bebs... -- Ele se virou na
direo das pessoas presentes ao funeral. -- E por enterros.
    Eddie olhou de novo para a reunio ao p da cova. E se perguntou
se tivera um funeral. Se algum tinha vindo ao seu enterro. Viu o
padre lendo a Bblia e as pessoas abaixando a cabea. Era o dia do
enterro do Homem Azul, tantos anos antes. Eddie estivera ali,
garotinho, impaciente durante toda a cerimnia, sem fazer idia do
papel que desempenhara nela.
    -- Ainda no entendo uma coisa -- sussurrou Eddie. -- Que bem
fez a sua morte?
    --Voc viveu -- respondeu o Homem Azul.
    -- Mas ns mal nos conhecamos. Podia tambm ter sido um
estranho.
    O Homem Azul ps o brao no ombro de Eddie, que foi invadido
por uma sensao de calor humano.
    -- Voc chama de estranhos -- disse o Homem Azul -- as
pessoas que ainda vai conhecer.
     DITO ISSO, o Homem Azul puxou Eddie para perto de si.
Instantaneamente, Eddie sentiu tudo o que o Homem Azul sentira na
vida entrar no seu prprio corpo e nadar dentro dele -- a solido, a
vergonha, o nervosismo, o ataque cardaco. Tudo isso deslizou para
dentro de Eddie como uma gaveta sendo fechada.
    -- Estou indo embora -- sussurrou em seu ouvido o Homem Azul.
-- Esta etapa do cu terminou para mim. Mas voc ainda vai
encontrar outras pessoas.
    -- Espere -- disse Eddie se afastando. -- Diga-me s uma coisa.
Eu salvei a garotinha? No per. Eu a salvei?
    O Homem Azul no respondeu. Eddie desanimou.
    -- Ento a minha morte foi um desperdcio, igualzinho  minha
vida.
    -- Nenhuma vida  um desperdcio -- disse o Homem Azul. -- O
nico tempo que desperdiamos  aquele que passamos achando que
somos sozinhos.
   Ele deu um passo atrs em direo ao tmulo e sorriu. E, com isso,
sua pele adquiriu o mais lindo tom de caramelo -- puro e acetinado. A
pele mais perfeita que ele jamais vira, pensou Eddie.
   -- Espere! -- gritou Eddie, mas foi repentinamente levado pelo ar,
para longe do cemitrio, sobre o grande oceano escuro. L embaixo,
viu os telhados do velho Ruby Pier, as agulhas, os torrees e as
flmulas tremulando na brisa.
   Ai tudo se foi.

                   DOMINGO, TRS DA TARDE

    No per, a multido se aglomerava ao redor dos destroos do
Cabum do Freddy.As velhas levavam a mo  garganta. As mes
puxavam os filhos para longe. Homens robustos, de camiseta,
tentavam passar  frente da roda, na esperana de que se tratasse de
algo em que pudessem ajudar, mas, assim que chegavam l, tambm
ficavam apenas olhando, impotentes. O sol forte projetava sombras de
contornos precisos e obrigava as pessoas a protegerem os olhos, como
se prestassem continncia.
    Foi muito grave?, sussurravam. De trs da multido, Dominguez
irrompeu, com o rosto afogueado e o uniforme de servio encharcado
de suor. Viu a tragdia.
    "Aiii, no, no, Eddie", ele gemeu, segurando-lhe a cabea. Os
homens da segurana chegaram e foram logo empurrando as pessoas
para trs. Mas eles, tambm impotentes diante da cena, acabaram com
as mos nos quadris,  espera da ambulncia. Era como se todos --
mes, pais e filhos com copos de refrigerante tamanho gigante --
estivessem chocados demais para ir embora. A morte jazia aos seus
ps, enquanto uma msica circense tocava nos alto-falantes do parque.
    Foi muito grave? Soaram as sirenes. Homens uniformizados
chegaram e estenderam uma fita amarela ao redor da rea. Os
quiosques do fliperama abaixaram suas grades. Os brinquedos foram
fechados indefinidamente. A notcia do desastre se espalhou por toda
a praia. Ao pr-do-sol, o Ruby Pier estava vazio.
                      Hoje  aniversrio de Eddie
    De seu quarto, mesmo com a porta fechada, Eddie sente o cheiro da
carne grelhada que sua me est preparando, com pimento verde e cebola,
um cheiro forte e picante que ele adora.
    -- Eddd-diiee! -- ela grita da cozinha. -- Onde est voc? Est todo
mundo aqui!
    Ele rola para fora da cama e pe de lado o almanaque de histrias em
quadrinhos. Eddie faz 17 anos hoje, est velho demais para essas coisas,
mas ainda gosta do tema -- heris vibrantes, como o Fantasma, lutando
contra os homens maus e salvando o mundo. Ele deu sua coleo para os
primos mais moos que vieram da Romnia para os Estados Unidos alguns
meses antes. A famlia foi busc-los no porto, e os instalaram no quarto de
dormir que Eddie dividia com seu irmo Joe. Os primos no sabem falar
ingls, mas gostam de histrias em quadrinhos. De toda forma, com isso
Eddie tem um pretexto para conserv-las.
    -- Finalmente, o aniversariante -- sua me comemora quando ele
aparece na sala, vestido com um camisa branca de colarinho abotoado
arrematada por uma gravata azul que belisca apele do seu pescoo. Um
coro de grunhidos, cumprimentos e brindes com copos de cerveja se ergue
entre as visitas -- familiares, amigos e trabalhadores do per. O pai de
Eddie joga cartas na canto da sala, em meio a uma nuvem de fumaa de
charuto.
    -- Ei, me, sabe o que aconteceu? -- grita Joe. -- Eddie saiu com uma
garota a noite passada.
    -- Ooohhh. Verdade?
    Eddie sente o sangue subir em seu rosto.
    -- . Ele disse que vai casar com ela.
    -- Cala a boca -- Eddie diz a Joe. Joe o ignora.
    -- , ele entrou no quarto revirando os olhos e disse: 'Joe, conheci a
garota com quem vou me casar!"
    Eddie fica irado.
    -- Eu disse para voc calar a boca!
    -- Qual  o nome dela, Eddie? -- algum pergunta.
    -- Ela freqenta a igreja?
    Eddie vai at o irmo e lhe d um soco do brao.
    -- Aauuu! -- Eddie!
    -- Eu disse pra voc calar a boca. Joe deixa escapar:
    -- E ele danou com ela no Cho de...! Pancada.
    -- Aauuu! -CALA A BOCA!
    -- Eddie, pra com isso!!
     Agora, at os primos romenos olhavam -- de briga eles entendem -- os
dois irmos se atracarem e se estapearem, empurrando o sof, at o pai
tirar o charuto da boca e gritar:
     -- Acabem com isso antes que eu d uns tabefes em vocs dois.
     Os irmos se separam, ofegantes e se olhando com raiva. Alguns
parentes mais velhos sorriem. Uma das tias sussurra:
     -- Ele deve gostar muito mesmo dessa garota.
     Mais tarde, depois da carne grelhada ter sido comida, das velas de
aniversrio terem sido apagadas e de quase todos os convidados j terem
ido embora, a me de Eddie liga o rdio. Ouvem-se notcias sobre a guerra
na Europa, e o pai de Eddie diz qualquer coisa sobre a dificuldade que vai
ser arranjar madeira e fios de cobre se as coisas piorarem. Pode tornar
invivel a manuteno do parque.
     -- Que notcias horrveis -- diz a me de Eddie. -- No num dia de -
aniversrio.
     Ela gira o boto at que saia msica da caixinha, uma orquestra
tocando um suingue, que a me comea a acompanhar, danando
sorridente. Vem at Eddie, que est esparramado em sua cadeira, catando
os ltimos pedaos de bolo. Tira o avental, deixa-o dobrado sobre uma
cadeira e levanta Eddie com as mos.
     -- Agora me mostra como foi que voc danou com sua nova amiga --
ela diz.
     -- Ah, me.
     -- Vamos l.
     Eddie se levanta como se estivesse sendo levado para a forca. O irmo
sorri maliciosamente. Mas a me, com seu rosto redondo e bonito, continua
cantando e danando de um lado para o outro, at que Eddie acerta o passo
com ela.
     -- Daaa, doa, diiii... -- ela canta junto com a msica. -- Quando voc
est comiiiigo... da.... da... as estrelas, a lua... o da... da... da... em junho...
     Eles giram pela sala de estar at Eddie se soltar e comear a rir. Ele j
 mais alto que a me uns 15 centmetros, mas ela rodopia facilmente com
ele.
     -- Ento -- ela sussurra -- quer dizer que voc gosta dessa garota?
     Eddie perde o passo.
     -- Tudo bem -- ela diz. -- Fico feliz por voc.
     Eles rodopiam at a mesa, e a me de Eddie pega Joe e o levanta.
   -- Agora dancem vocs dois -- diz ela.
   -- Com ele?
   -- Me!
    Mas ela insiste e eles cedem, e logo Joe e Eddie esto rindo e
tropeando um no outro. Juntam as mos e se movem de um lado para o
outro em crculos exagerados. Do voltas e mais voltas em torno da mesa,
para encanto da me, enquanto os clarinetes conduzem a melodia no rdio,
os primos romenos batem palmas e as ltimas fascas de carne grelhada
evaporam na atmosfera da festa.


         A segunda pessoa que Eddie
              encontra no cu



   -- EDDIE SENTIU SEU P TOCAR NO CHO.
    O cu estava mudando outra vez, de azul-cobalto para cinza, e ele
se viu cercado de rvores cadas e destroos enegrecidos. Agarrou os
prprios braos, ombros, coxas e panturrilhas. Sentia-se mais forte do
que antes, mas quando tentou tocar nos dedos dos ps, constatou que
no conseguia mais. Sua flexibilidade fora embora. No tinha mais
aquela sensao infantil de ser feito de borracha. Todos os seus
msculos estavam retesados como cordas de piano.
    Eddie olhou o cho sem vida ao seu redor. Numa colina prxima,
viu uma carroa quebrada e os ossos apodrecidos de um animal. Uma
rajada de vento quente aoitou seu rosto. O cu explodiu num
amarelo-fogo.
    E mais uma vez Eddie correu.
    Correu de um modo diferente, com os passos bem calculados de
um soldado. Ouviu um trovo -- ou algo parecido com trovo, com
exploses ou bombardeios -- e jogou-se instintivamente no cho,
deitando-se sobre o estmago, apoiado nos braos O cu se abriu de
repente e a chuva caiu, uma precipitao pesada. Eddie abaixou a
cabea e se arrastou na lama, cuspindo a gua imunda que se juntava
ao redor da sua boca. Finalmente, sentiu a cabea roar em alguma
coisa slida. Ergueu os olhos e viu um fuzil cravado no cho, com um
capacete em cima e placas de identidade militar penduradas na ala.
Com a chuva lhe atrapalhando a viso, Eddie manuseou as identidades
e recuou imediatamente, arrastando-se feito louco para dentro de uma
moita de trepadeiras fibrosas que pendiam de uma enorme figueira-
brava. Mergulhou na escurido. Agachou-se em posio de tocaia.
Tentou tomar flego. O medo o tinha encontrado, mesmo no cu. O
nome nas placas de identidade era o dele.
    OS JOVENS VO para a guerra. s vezes porque so obrigados,
s vezes porque querem ir. E sempre acham que devem. Isso provm
de camadas e camadas de histrias muito tristes que ao longo dos
sculos identificam coragem com pegar em armas e covardia com
dep-las. Quando seu pas entrou na guerra, Eddie acordou numa
manh de chuva, fez a barba, penteou o cabelo e foi se alistar. Outros
estavam lutando. Ele lutaria tambm.
    Sua me no queria que ele fosse. Seu pai, quando soube da
notcia, acendeu um cigarro e soprou a fumaa lentamente.
    -- Quando? -- foi tudo o que perguntou.
    Como nunca havia atirado com um fuzil de verdade, Eddie
comeou a praticar no estande de tiro do Ruby Pier. Punha-se uma
moeda, a mquina zumbia e apertava-se o gatilho para atirar com
balas de metal em imagens de animais selvagens -- lees e girafas.
Eddie ia l todas as noites, depois que acabava de operar as alavancas
de freio do Trenzinho de Li'l Folks. O Ruby Pier incorporara algumas
atraes menores, porque depois da Depresso as montanhas-russas
tinham se tornado caras demais. O Trenzinho era uma atrao menor,
com seus vages pouco mais altos do que a coxa de um adulto.
    Antes de se alistar, Eddie trabalhara procurando juntar dinheiro
para estudar engenharia. Era este o seu objetivo -- queria construir
coisas, mesmo que seu irmo Joe continuasse dizendo: "Ora, Eddie,
voc no tem inteligncia para isso."
    Mas quando a guerra comeou, o negcio do per caiu. Os
fregueses de Eddie, em sua maioria, eram agora mulheres sozinhas
com seus filhos, porque os pais tinham ido lutar. s vezes as crianas
pediam a Eddie para levant-las sobre a cabea, o que lhe permitia
observar os sorrisos tristes das mes: ele tinha a sensao de ser a
brincadeira certa, mas com os braos errados. Eddie logo se deu conta
de que acabaria se juntando a esses homens distantes e que sua vida de
lubrificar trilhos e operar alavancas de freio estaria terminada. A
guerra era o seu chamado para se tornar um homem adulto. Talvez
algum sentisse falta dele, tambm.
    Numa de suas ltimas noites no per, Eddie estava no estande,
curvado sobre o pequeno rifle, atirando com grande concentrao.
Bang! Bang! Tentava se imaginar atirando de verdade no inimigo.
Bang! Ser que emitiriam algum som quando ele os acertasse --
bang! -- ou simplesmente cairiam, como os lees e as girafas?
    Bang! Bang!
    -- Aprendendo a matar, companheiro?
    Mickey Shea estava em p atrs de Eddie. Seu cabelo, molhado de
suor, era da cor de sorvete de baunilha, e seu rosto, vermelho de
alguma coisa que andara bebendo. Eddie deu de ombros e voltou aos
seus tiros. Bang! Acertou outro. Bang! Outro mais.
    -- Huumpf -- grunhiu Mickey.
    Eddie queria que Mickey fosse embora e o deixasse treinar a
pontaria sossegado. Podia sentir o velho bbado atrs de si. Podia
ouvir sua respirao pesada, o silvo do ar entrando e saindo de seu
nariz, como uma bomba enchendo um pneu de bicicleta.
    Continuou atirando. De repente, sentiu um doloroso agarro no
ombro.
    -- Escuta aqui, companheiro. -- A voz de Mickey era um rosnado
profundo. -- Guerra no  brinquedo. Se tiver de dar um tiro, d, est
me ouvindo? Sem culpa. Sem vacilao. Apenas atire, sem pensar em
quem est do outro lado, em quem voc est matando e nem por que,
est me ouvindo? Se voc quer voltar para casa, no pense,
simplesmente atire.
    Apertou o ombro de Eddie com mais fora ainda.
    -- Pensar  que faz voc morrer.
    Eddie se virou e ficou olhando para Mickey. Ele lhe deu um tapa
com fora no rosto, e Eddie levantou o punho instintivamente para
revidar. Mas Mickey soltou um arroto e cambaleou para trs. Depois,
olhou para Eddie como se fosse chorar. A arma mecnica parou de
zumbir. A ficha de Eddie tinha acabado.
    Os jovens vo para a guerra s vezes porque so obrigados, as
vezes porque querem ir. Alguns dias depois, Eddie arrumou sua
mochila e deixou o per para trs.
     A CHUVA PAROU. Trmulo e molhado debaixo da figueira,
Eddie respirou longa e profundamente. Afastou as plantas e viu o fuzil
e o capacete ainda fincados no cho.
    Lembrou-se do motivo pelo qual os soldados faziam isso: marcar
os tmulos de seus mortos.
    Arrastou-se de joelhos. A distncia, ao p de uma pequena colina,
viu as runas de um povoado bombardeado e incendiado at se
transformar em pouco mais do que um monte de destroos. Por um
momento, Eddie ficou olhando, a boca ligeiramente aberta e os olhos
tentando focalizar a cena com mais preciso. Ento, seu peito se
apertou como o de um homem que acabasse de receber uma notcia
m. Este lugar. Ele o conhecia. Ele assombrara os seus sonhos.
    --Varola -- disse de repente uma voz.
    Eddie se virou.
    -- Varola. Tifo. Ttano. Febre amarela.
    A voz vinha do alto, de algum lugar em cima da rvore.
    -- Nunca consegui descobrir o que  febre amarela. Droga. Nunca
conheci ningum que teve.
    Era uma voz forte, com um leve sotaque sulista e uma certa
aspereza, como a voz de um homem que estivesse gritando h muitas
horas.
    -- Fui vacinado contra cada uma dessas doenas e acabei
morrendo aqui, saudvel como um cavalo.
    A rvore balanou. Algumas frutas caram na frente de Eddie.
    -- Que tal estas mas? -- disse a voz. Eddie se levantou e
pigarreou.
    -- Saia da -- ele disse.
    -- Suba -- disse a voz.
    E logo Eddie estava em cima da rvore, perto do topo, to alto
quanto um prdio, com as pernas enganchadas num galho enorme. A
terra l embaixo parecia muito distante. Por entre os galhos menores e
a espessa folhagem, Eddie pde divisar a figura sombria de um
homem em uniforme de combate, recostado no tronco. Seu rosto
estava coberto por uma substncia preta como piche. Seus olhos
vermelhos brilhavam como duas pequenas lmpadas. Eddie engoliu
em seco.
    -- Capito? -- ele sussurrou. --  o senhor?
    TINHAM SERVIDO o exrcito juntos. O capito era o oficial
comandante de Eddie. Lutaram nas Filipinas, se separaram nas
Filipinas, e Eddie nunca mais voltara a v-lo. Tinha ouvido dizer que
ele morrera em combate. Um filete de fumaa de cigarro apareceu.
    -- Eles lhe explicaram as regras, soldado?
    Eddie olhou para baixo. Viu a terra l embaixo, mas sabia que no
poderia cair.
    -- Eu estou morto -- ele disse.
    -- At aqui voc acertou.
    -- E o senhor est morto.
    -- Acertou essa tambm.
    -- E o senhor ... a minha segunda pessoa?
    O capito ergueu o cigarro. E sorriu como se dissesse: "Voc
acredita que d para fumar aqui em cima?" Deu uma longa tragada e
expeliu uma pequena nuvem branca.
    -- Aposto que voc no me esperava, hein?
     EDDIE APRENDEU MUITAS coisas durante a guerra. Aprendeu
a andar em cima de um tanque. Aprendeu a barbear-se com gua fria
no capacete. Aprendeu a ter cuidado ao atirar de uma trincheira, para
no acertar uma rvore e se ferir com os estilhaos.
    Aprendeu a fumar. Aprendeu a marchar. Aprendeu a atravessar
uma ponte de cordas carregando ao mesmo tempo capote, um rdio,
um fuzil, uma mscara de gs, um trip d metralhadora, uma mochila
e vrios talabartes a tiracolo Aprendeu a beber o pior caf que jamais
pusera na boca.
    Aprendeu algumas palavras de algumas lnguas estrangeiras
Aprendeu a cuspir a grande distncia. Aprendeu a exultao nervosa
do primeiro combate a que sobrevive um soldado quando os homens
trocam tapas e sorriem como se tudo tivesse acabado -- Agora
podemos ir para casa! -- e aprendeu a terrvel depresso do segundo
combate, quando o soldado se d conta de que a luta no acaba com
uma batalha e que depois desta haver muitas outras mais.
    Aprendeu a assobiar por entre os dentes. Aprendeu a dormir no
cho rochoso. Aprendeu que a sarna  uma coceira causada por caros
minsculos que se alojam dentro da pele, principalmente quando a
pessoa veste a mesma roupa imunda a semana inteira. Aprendeu que
os ossos humanos so realmente brancos quando irrompem atravs da
pele.
    Aprendeu a rezar depressa. Aprendeu em que bolso guardar as
cartas  famlia e a Marguerite, para o caso de ser achado morto por
seus camaradas soldados. Aprendeu que  possvel estar num abrigo
subterrneo ao lado de um companheiro, sussurrando-lhe qualquer
coisa sobre o imenso vazio do seu estmago, e no momento seguinte
ouvir um pequeno wuush, o seu companheiro tombar e a fome dele j
no ser mais problema.
    Aprendeu,  medida que um ano se transformava em dois, e dois
em trs, que at os homens mais fortes e robustos vomitam nas
prprias botas quando o avio de transporte est prestes a descarreg-
los e que mesmo os oficiais falam durante o sono na noite anterior ao
combate.
    Aprendeu como fazer um prisioneiro, mas no como tornar-se um.
Certa noite, numa ilha das Filipinas, o seu grupo ficou sob fogo
cerrado e se dispersou em busca de abrigo, enquanto o cu se
iluminava. Eddie ouviu um de seus companheiros chorando como uma
criana no fundo de uma vala e gritou para ele:"Cala essa boca!"
Ento descobriu que o cara a chorando porque havia um soldado
inimigo de p, em ima dele, com um fuzil apontado para a sua cabea.
E naquele momento Eddie sentiu uma coisa fria encostar em sua nuca
e viu que atrs dele tambm havia um inimigo.
    O CAPITO JOGOU FORA a guimba do cigarro. Ele era mais
velho do que os homens da tropa de Eddie, um militar de carreira
magro, desengonado e fanfarro, com um queixo proeminente que o
tornava muito parecido com um ator de cinema da poca. A maioria
dos soldados gostava muito dele, apesar de seu temperamento
explosivo e do seu costume de gritar a centmetros do rosto do outro,
deixando  mostra os dentes amarelados de tabaco. Contudo, o capito
prometera "no deixar ningum para trs", independentemente do que
acontecesse, o que era motivo de conforto para os seus homens.
    -- Capito -- disse Eddie outra vez, ainda atnito.
    -- Afirmativo.
    -- Senhor.
    -- No  necessrio me chamar de senhor. Mas muito obrigado, de
todo modo.
    -- E que... voc parece...
    -- Como da ltima vez em que voc me viu? -- ele sorriu, depois
cuspiu por cima do galho da rvore. Notou a expresso confusa de
Eddie. -- Voc est certo. No h nenhuma razo Para cuspir aqui.
Tambm no se fica doente. A respirao  sempre igual. E o rancho 
incrvel.
    Rancho? Eddie no estava entendendo nada.
    -- Olha, capito. Deve haver algum engano. Eu ainda no sei por
que estou aqui. A minha vida era insignificante, sabe? Eu trabalhava
na manuteno. Morei durante anos no mesmo apartamento. Tomava
conta dos brinquedos -- rodas-gigantes, montanhas-russas, uns
foguetinhos idiotas. Nada de que me orgulhar. Eu fui levando, s isso.
O que estou querendo dizer ... -- Eddie engoliu em seco. -- O que 
que estou fazendo aqui?
    O capito o olhou com aqueles olhos vermelhos chame-jantes, e
Eddie hesitou em fazer a pergunta que fazia a si mesmo depois do
encontro com o Homem Azul: ele tambm matara o capito?
    -- Sabe, eu estive pensando -- disse o capito, esfregando o
queixo. -- Os homens da sua unidade -- vocs mantiveram contato?
Willingham? Morton? Smitty? Voc voltou a ver esses caras?
    Eddie se lembrava dos nomes. Na verdade eles no mantiveram
qualquer contato. A guerra podia atrair as pessoas como um m, mas
como um m podia repeli-las tambm. As coisas que viram, as coisas
que fizeram. s vezes eles s queriam esquecer.
    -- Para ser honesto, senhor, ns meio que debandamos. -- Eddie
deu de ombros. -- Sinto muito.
    O capito fez um gesto de assentimento como se estivesse
esperando aquilo mesmo.
    -- E voc? Voltou para aquele parque de diverses onde ns todos
prometemos ir se sobrevivssemos? Passeios de graa para todos os
praas? Duas garotas para cada um no Tnel do Amor? No era isso o
que voc dizia?
    Eddie quase sorriu. Era isso mesmo o que ele dizia. O que todos
diziam. Mas, quando a guerra terminou, ningum apareceu.
    -- Sim, voltei -- disse Eddie.
    -- E a?
    -- E a... nunca mais sa de l. Eu bem que tentei. Fiz planos... mas
esta maldita perna. Eu no sei. Nada deu certo.
    Eddie deu de ombros. O capito estudou-lhe o rosto. Comprimiu
os olhos e falou com uma voz baixinha:
    --Voc ainda faz malabarismos? -- ele perguntou.
     -- VAI!... ANDANDO!... ANDANDO! Os soldados inimigos
berravam, empurrando-os com as baionetas. Eddie, Smitty, Morton,
Rabozzo e o capito foram conduzidos colina abaixo por uma encosta
ngreme, com as mos na cabea. As bombas explodiam  sua volta.
Eddie viu uma figura correr por entre as rvores, depois cair em meio
ao estrondo das balas.
    Eddie tentava fotografar mentalmente tudo o que via enquanto
marchava na escurido -- choupanas, estradas, qualquer coisa que
conseguisse distinguir -- na certeza de que eram informaes
preciosas para uma fuga. Ao ouvir o ronco distante do motor de um
avio, foi invadido por uma onda repentina de desespero.  a tortura
interior de todo soldado capturado, a curta distncia entre a liberdade e
a captura. Bastava poder saltar, se agarrar  asa daquele avio e voar
para bem longe daquele equvoco.
    Em vez disso, ele e os outros foram atados pelos pulsos e
tornozelos e atirados num barraco de bambu, construdo sobre
estacas no terreno lamacento. L ficaram dias, semanas, meses,
obrigados a dormir sobre sacos de estopa acolchoados com palha. Um
pote de barro servia de privada.  noite, os guardas inimigos se
arrastavam por debaixo do barraco para escutar suas conversas. Com
o passar do tempo, eles falavam cada vez menos.
    Ficaram magros e fracos, as costelas cada vez mais visveis -
inclusive Rabozzo, que era um garoto parrudo quando se alistou. A
comida consistia em bolas de arroz muito salgadas e uma vez por dia,
um caldo marrom com um pouco de capim boiando. Uma noite, Eddie
achou um marimbondo morto na tigela. Sem as asas. Os outros
pararam de comer.
    SEUS CAPTORES PARECIAM no saber muito bem o que fazer
com eles. A noite, eles entravam com as baionetas e brandiam suas
lminas nos narizes dos americanos, gritando numa lngua
desconhecida,  espera de respostas. Nunca dava em nada.
    Eram apenas quatro, at onde Eddie conseguia perceber, e o
capito achava que eles tambm estavam desgarrados de uma unidade
maior e, como acontece tantas vezes na guerra, resolvendo as coisas
um dia depois do outro. Seus rostos eram macilentos e ossudos, com
tufos de cabelo escuro. Um deles parecia jovem demais para ser
soldado. Outro tinha os dentes mais tortos que Eddie j vira. O capito
os chamava de Maluco Um, Maluco Dois, Maluco Trs e Maluco
Quatro.
    -- No queremos saber os nomes deles -- disse. -- E no que-
remos que eles saibam os nossos.
    Os homens se adaptam ao cativeiro, alguns melhor do que outros.
Morton, um rapaz magro e conversador de Chicago, toda vez que
ouvia rudos do lado de fora esfregava o queixo e murmurava,
inquieto: "Que droga, que droga, que droga...", at os outros o
mandarem calar a boca. Smitty, filho de um soldado do corpo de
bombeiros do Brooklin, ficava calado a maior parte do tempo, mas
com o pomo-de-ado se movimentado para cima e para baixo, parecia
estar sempre engolindo alguma coisa; mais tarde, Eddie ficou sabendo
que mastigava a prpria lngua. Rabozzo, o garoto ruivo de Portland,
Oregon, mantinha uma expresso impassvel durante horas de viglia,
mas  noite costumava acordar berrando "Eu no! Eu no!".
    Eddie se agitava o tempo todo. Cerrava o punho e socava a palma
da mo horas a fio, os ns dos dedos contra a pele, como o ansioso
jogador de beisebol que fora na juventude. A noite, sonhava estar de
volta ao per, no carrossel Corrida de Cavalos, onde cinco pessoas
ficavam dando voltas at tocar a cigarra. Levava seus amigos, seu
irmo e Marguerite. A o sonho mudava, e apareciam os Quatro
Malucos montados nos cavalinhos, rindo e zombando dele.
    Os anos que passara no per esperando -- uma volta terminar, as
ondas reflurem, o pai falar com ele -- tinham treinado Eddie na arte
da pacincia. Mas ele queria fugir, e queria vingana. Rangia os
dentes, socava a palma da mo, pensava em todas as brigas em que se
metera no bairro e no dia em que mandara dois garotos para o hospital
com uma tampa de lata de lixo. Imaginava o que faria com esses
guardas se eles no estivessem armados.
    Ento, uma certa manh, os prisioneiros foram acordados com
gritos e brilho de baionetas pelos Quatro Malucos que os amarraram e
os fizeram descer pelo poo de uma mina. No havia luz. O cho era
frio. Havia ps, picaretas e caambas de ferro.
    -- Isto aqui  uma maldita mina de carvo -- disse Morton.
     DESSE DIA EM DIANTE, Eddie e os outros foram obrigados a
extrair carvo das paredes para ajudar no esforo de guerra inimigo.
Uns escavavam, outros raspavam, outros ainda carregavam placas de
ardsia e construam tringulos para sustentar o teto. Havia outros
prisioneiros l, estrangeiros que no sabiam ingls e que olhavam para
Eddie com os olhos vazios. Era proibido falar. Recebiam um copo de
gua a cada poucas horas. No fim do dia, os rostos dos prisioneiros
estavam irremediavelmente negros, e seus pescoos e ombros,
latejantes devido ao esforo.
    Durante os primeiros meses de cativeiro, Eddie ia dormir com o
retrato de Marguerite encostado no capacete  sua frente. Ele no era
muito de rezar, mas rezava assim mesmo, inventando as palavras e
computando o tempo a cada noite: "Senhor, eu lhe darei esses seis dias
se o senhor me der seis dias com ela... eu lhe darei esses nove dias se
puder ter nove dias com ela... Eu lhe darei esses dezesseis dias se
puder ter dezesseis dias com ela..."
    Ento, durante o quarto ms, uma coisa aconteceu. Rabozzo teve
uma violenta erupo cutnea e diarria grave. No conseguiu comer
nada. A noite suou, at a sua roupa imunda ficar completamente
encharcada. Como no havia roupa limpa para trocar, dormiu nu em
cima da prpria estopa, e o capito ps a sua sobre ele, como cobertor.
    No dia seguinte, na mina, Rabozzo mal conseguia ficar em p. Os
Quatro Malucos no tiveram piedade. Quando diminua o ritmo, eles o
cutucavam com paus para que continuasse a raspar.
    -- Deixem ele -- Eddie rosnou.
    Maluco Dois, o mais brutal dos seus captores, atacou Eddie com o
cabo da baioneta. Eddie caiu no cho, com uma dor lancinante se
espalhando entre as espduas. Rabozzo extraiu mais uns pedaos de
carvo e desabou. Maluco Dois gritou para que ele se levantasse.
    -- Ele est doente! -- gritou Eddie, tentando se pr de p. Maluco
Dois o derrubou outra vez.
    -- Cala a boca, Eddie -- sussurrou Morton. -- Para o seu prprio
bem.
    Maluco Dois inclinou-se sobre Rabozzo. Levantou-lhe as
plpebras. Rabozzo gemeu. Maluco Dois deu um sorriso exagerado e
arrulhou, como se estivesse falando com um beb. Disse um "Ahh" e
riu. Riu olhando para todos, olhos nos olhos, assegurando-se de que
eles tambm o estavam olhando. A sacou a pistola, enfiou-a no
ouvido de Rabozzo e deu-lhe um tiro na cabea.
    Eddie sentiu o seu corpo se rasgar em dois. Seus olhos se
anuviaram e seu crebro se entorpeceu. O disparo ecoou na mina
enquanto o rosto de Rabozzo mergulhava numa poa de sangue.
Morton levou a mo  boca. O capito baixou os olhos. Ningum se
moveu.
    Maluco Dois chutou lama negra em cima do corpo de Rabozzo,
lanou um olhar colrico para Eddie e cuspiu aos seus ps. Gritou
qualquer coisa para Maluco Trs e Maluco Quatro, que pareciam to
atnitos quanto os prisioneiros. Por um instante, Maluco Trs
balanou a cabea e comeou a murmurar, os lbios se movendo
freneticamente e as plpebras abaixadas, como se estivesse rezando.
Maluco Dois brandiu a arma e gritou outra vez, e ento Maluco Trs e
Maluco Quatro ergueram lentamente o corpo de Rabozzo pelos ps e
o arrastaram pelo cho da mina, deixando uma trilha de sangue que,
na escurido, parecia leo derramado. Largaram-no encostado a uma
parede, ao lado de uma picareta.
    Depois disso, Eddie parou de rezar. Parou de contar os dias. Ele o
capito s falavam em fugir antes que todos tivessem o mesmo
destino. O capito imaginava que o esforo de guerra inimigo era
desesperado, e que por isso eles precisavam pr todos os prisioneiros,
ainda que meio mortos, para extrair carvo. A cada dia que passava
havia menos gente na mina.  noite, Eddie ouvia os bombardeios;
parecia que iam ficando mais prximos. Se as coisas ficassem muito
ruins, imaginava o capito, seus captores abandonariam a mina e
destruiriam tudo. Ele observara a existncia de trincheiras alm das
barracas de prisioneiros e grandes barris de combustvel posicionados
no alto da encosta.
    -- O combustvel  para queimar as provas -- sussurrou o capito.
-- Eles esto cavando os nossos tmulos.
    TRS SEMANAS DEPOIS, numa noite de lua e ar enevoado,
Maluco Trs montava guarda dentro das barracas. Tinha nas mos
duas pedras grandes, quase do tamanho de tijolos, com as quais
tentava fazer malabarismos para espantar o tdio. Deixava cair,
pegava, jogava para o alto e deixava cair outra vez. Coberto de
fuligem negra, Eddie ergueu os olhos, aborrecido com aquele baticum.
Estivera tentando dormir, mas agora se levantou vagarosamente. Sua
viso clareou. Sentiu os nervos formigarem.
    -- Capito... -- sussurrou. -- Pronto para entrar em ao? O
capito levantou a cabea.
    -- Em que voc est pensando?
    -- As pedras -- Eddie fez um gesto com a cabea indicando o
guarda.
    -- O que tm as pedras? -- perguntou o capito.
    -- Eu sei fazer malabarismo -- Eddie sussurrou. O capito revirou
os olhos.
    -- O qu?
    Mas Eddie j estava gritando para o guarda:
    -- Ei! Voc! Est fazendo errado!
    Fez um movimento circular com as palmas das mos.
    -- Assim!  assim que se faz! Me d aqui! Estendeu as mos.
    -- Eu sei fazer. Me d aqui.
    Maluco Trs olhou para ele com cautela. Dentre todos os guardas,
Eddie sentia que sua melhor chance era com este. s escondidas,
Maluco Trs passava ocasionais pedaos de po aos prisioneiros,
jogando-os pelo pequeno buraco da cabana que servia de janela. Eddie
fez novamente um movimento circular com as mos e sorriu. Maluco
Trs se aproximou, parou, foi buscar sua baioneta e voltou para
entregar as duas pedras a Eddie.
    --  assim -- disse Eddie, e comeou a fazer malabarismos com
as pedras, sem a menor dificuldade. Aprendera, quando tinha sete
anos de idade, com um artista italiano que jogava seis pratos ao
mesmo tempo. Eddie passara horas sem fim praticando no deque, com
seixos, bolas de borracha, tudo o que encontrava. No era nada de
extraordinrio. A maioria dos garotos do per sabia fazer
malabarismos.
    Mas agora ele movia as duas pedras freneticamente, cada vez mais
rpido, impressionando o guarda. A parou, devolveu as pedras e
disse:
    -- Me d outra. Maluco Trs grunhiu.
    -- Trs pedras, certo? -- Eddie levantou trs dedos. -- Trs.
    A esta altura, Morton e Smitty estavam sentados. O capito se
aproximou.
    -- O que est havendo aqui? -- Smitty murmurou.
    -- Se eu conseguir uma pedra mais... -- Eddie murmurou em
resposta.
    Maluco Trs abriu a porta de bambu e fez o que Eddie queria que
ele fizesse: chamou os outros. Maluco Um apareceu com uma pedra
grande, e Maluco Dois entrou com ele Maluco Trs entregou a pedra a
Eddie e gritou qualquer coisa Deu um passo atrs, sorriu para os
outros e fez um gesto para eles se sentarem, como que dizendo
"Vejam s isto".
    Cada pedra era do tamanho da palma da sua mo. Cantando uma
melodia circense, Eddie brincava com elas num movimento ritmado...
"Da, da-da daaaaaa..." Os guardas riam. Eddie ria. O capito ria. Riso
forado, para ganhar tempo.
    "Chega mais perto"', Eddie cantava, fingindo que as palavras
faziam parte da cano. Morton e Smitty se aproximaram
vagarosamente, simulando interesse.
    Os guardas estavam gostando da diverso. Sua postura afrouxou.
Eddie tentou prender a respirao. S um pouco mais. Jogou uma
pedra bem alto, moveu as duas mais baixas, pegou a terceira, depois
repetiu tudo de novo.
    -- Ahhh -- disse Maluco Trs, involuntariamente.
    -- Que tal, hein? -- disse Eddie. Movimentava as pedras mais
rpido agora. Jogou uma delas mais alto para observar os olhos de
seus captores enquanto eles a seguiam no ar. Cantou "Da, da-da-da
daaaa...", depois "Quando eu contar at trs", depois "Da, da-da-da daaa...",
depois "Capito, o cara da esqueeerda...".
    Maluco Dois fez uma cara de suspeita, mas Eddie sorriu do jeito
como faziam os malabaristas do Ruby Pier quando sentiam que
estavam perdendo a ateno do pblico.
    --Vejam s isto, vejam s isto, vejam s isto! -- Eddie arrulhava.
-- O maior espetculo da Terra, meus amiguinhos!
    Eddie acelerou e comeou a contar: -- Um... dois... -- e jogou
uma pedra muito mais alto do que antes. Os Malucos a acompanharam
com o olhar.
    -- Agora! -- gritou Eddie. Agarrou uma pedra no ar e, como bom
arremessador de beisebol que sempre fora, jogou-a com fora no rosto
de Maluco Dois, quebrando-lhe o nariz. Pegou segunda pedra e atirou-
a com a mo esquerda bem no eixo de Maluco Um, que caiu para trs,
enquanto o capito saltava em cima dele, pegando sua baioneta.
Momentaneamente paralisado, Maluco Trs pegou a pistola e saiu
disparando a esmo, enquanto Morton e Smitty se atiravam em suas
pernas. A porta se abriu com violncia e Maluco Quatro entrou
correndo. Eddie atirou a ltima pedra, que passou a centmetros da
cabea do soldado. Ao se esquivar, porm, Maluco Quatro foi atacado
pelo capito, que o esperava encostado  parede, com a baioneta. O
capito a enfiou com tanta fora na caixa torcica de Maluco Quatro
que os dois saram pela porta aos trambolhes. Impelido pela
adrenalina, Eddie saltou sobre Maluco Dois e esmurrou seu rosto com
mais fora do que jamais esmurrara qualquer um na avenida Pitkin.
Agarrou uma pedra solta e bateu com toda fora em seu crnio
repetidas vezes, at olhar para as prprias mos e v-las cheias de uma
repugnante gosma arroxeada, que era sangue, pele e fuligem de carvo
misturados. A ouviu um tiro e levou as mos  cabea, lambuzando as
prprias tmporas com aquela gosma. Ergueu os olhos e viu Smitty
em p sobre ele, com uma pistola inimiga na mo. O corpo de Maluco
Dois cedeu. Seu peito sangrava.
    -- Por Rabozzo -- murmurou Smitty. Em minutos, todos os
quatro guardas estavam mortos.
     MAGROS, DESCALOS E COBERTOS de sangue, os
prisioneiros agora corriam para a montanha escarpada. Eddie esperara
disparos, mais guardas para enfrentar, mas no houve nenhum. As
outras choupanas estavam vazias. Na verdade, o campo todo estava
vazio. Eddie se perguntou durante quanto tempo foram apenas eles e
os Quatro Malucos.
    -- Os outros provavelmente fugiram ao ouvir o bombardeio --
sussurrou o capito. -- Somos o ltimo grupo restante.
    Os barris de leo estavam colocados no primeiro aclive da
montanha. A entrada da mina de carvo ficava a menos de 100 metros
de distncia. Havia nas imediaes uma cabana de suprimentos.
Depois de se certificar de que estava vazia, Morton entrou nela
correndo; saiu com os braos cheios de granadas, fuzis e dois lana-
chamas de aspecto primitivo.
    --Vamos pr fogo em tudo -- disse.

                    Hoje  aniversrio de Eddie
    Em cima do bolo est escrito "Boa Sorte! Lute com bravura!", e do lado,
junto  borda de glac, algum acrescentou, com anilina azul, as palavras
"Volte logo para casa".
    A me de Eddie j lavou e passou as roupas que ele ir vestir no dia
seguinte. Colocou-as em um cabide pendurado no puxador do guarda-roupa
e ps embaixo delas o nico par de sapatos destinado a ocasies formais.
    Eddie est na cozinha brincando com seus jovens primos romenos, as
mos atrs das costas, enquanto eles tentam socar seu estmago. Um deles
aponta pela janela da cozinha para o Carrossel Parisiense que est aceso
para os freqentadores noturnos.
    -- Cavalos! -- exclamam as crianas.
    Aporta da frente se abre e Eddie ouve uma voz que faz seu corao
disparar, mesmo agora. Ele se pergunta se no  uma fraqueza que no
deveria estar levando para a guerra.
    -- Oi, Eddie -- diz Marguerite.
    L est ela, na porta da cozinha, maravilhosa, e Eddie sente aquela
familiar comicho no peito. Marguerite tira umas gotas de gua da chuva
do cabelo e sorri. Traz uma caixinha nas mos.
    -- Eu trouxe uma coisa para voc. Pelo seu aniversrio, e, bem... pela
sua partida tambm.
    Ela sorri outra vez. Eddie sente uma vontade to forte de abra-la, que
acha que vai explodir. No se importa com o que tem dentro da caixa. S
quer se lembrar dela entregando-a para ele. Como sempre acontece quando
est com Marguerite, o que Eddie mais quer  fazer parar o tempo.
    --  fantstico -- diz ele. Ela ri.
    -- Voc nem abriu ainda.
    -- Escute. -- Ela chega mais perto. -- Voc...
    -- Eddie! -- Algum grita do outro cmodo. -- Venha apagar as velas.
    -- E sim! Estamos com fome!
    -- Ah, Sam, cala a boca!
    -- Estamos mesmo, ora.
    Tem bolo, cerveja, leite, charutos, um brinde ao sucesso de Eddie, e tem
o momento em que sua me comea a chorar e abraa o outro filho, Joe,
que no vai para a guerra porque tem os ps chatos.
    Mais tarde, naquela noite, Eddie sai para passear com Marguerite. Ele
sabe o nome de cada bilheteiro e vendedor de comida, e todos lhe desejam
sorte. Algumas das senhoras mais velhas tm os olhos marejados, e Eddie
imagina que  porque seus prprios filhos j foram para a guerra.
    Ele e Marguerite compram balas puxa-puxa, balas de melado, de
framboesa selvagem e de cereja. Escolhem dentro do saquinho branco,
brincando de brigar com os dedos um do outro. No fliperama, Eddie aperta
uma mo mecnica e o medidor vai passando de "fracote" a "inofensivo", a
"delicado", direto at "forto".
    -- Voc  forte mesmo, hein? -- diz Marguerite.
    -- Forto -- diz Eddie, exibindo os msculos.
    No fim da noite, eles esto em p no deque, de um jeito que j viram nos
filmes, de mos dadas, encostados na balaustrada. Na areia, um velho
catador fez uma pequena fogueira com gravetos e panos rasgados, e se
aconchega ao lado dela, preparando-se para a noite.
    -- No precisa me pedir para esperar -- diz Marguerite, de repente.
    Eddie engole em seco.
    -- No?
    Ela balana a cabea. Eddie sorri. Poupado da pergunta que ficara
presa em sua garganta a noite toda, ele sente como se uma corda tivesse
acabado de saltar do seu corao e enlaado os ombros dela, puxando-a
para perto dele, tornando-a sua. Ele a ama mais neste momento do que
jamais imaginou que fosse capaz de amar algum.
    Um pingo de chuva cai na testa de Eddie. Depois outro. Ele ergue os
olhos para as nuvens que se acumulam.
   -- Ei, Forto? -- diz Marguerite. Ela sorri, mas a o seu rosto se anuvia
e ela aperta os olhos para expulsar a gua, e Eddie no sabe dizer se so
gotas de chuva ou de lgrimas.
    -- No morre no, t? -- ela diz.
     UM SOLDADO LIBERTADO costuma ser furioso. Os dias e
noites que perdeu, as torturas e humilhaes que sofreu -- tudo isso
exige uma vingana feroz, um acerto de contas.
    Por isso, quando Morton, com os braos cheios de armas roubadas,
disse aos demais "Vamos pr fogo em tudo", houve uma rpida, seno
lgica, concordncia. Estimulados por sua nova sensao de controle,
os homens se espalharam levando consigo o poder de fogo do inimigo.
Smitty foi para a entrada do poo da mina, Morton e Eddie para os
barris de leo. O capito saiu  procura de um meio de transporte.
    -- Cinco minutos, depois quero todos aqui de volta! -- ele gritou.
-- Esse bombardeio vai comear logo e ns precisamos estar fora
daqui. Entenderam? Cinco minutos!
    Cinco minutos foi o tempo necessrio para destruir o que havia
sido o lar deles durante quase meio ano. Smitty jogou as granadas no
poo da mina e correu. Eddie e Morton rolaram dois barris para dentro
do conjunto de choupanas, abriram-nos com ps-de-cabra, acenderam,
um a um, os bicos de seus recm-conquistados lana-chamas e
ficaram olhando as choupanas comearem a pegar fogo.
    -- Queima! -- gritou Morton.
    -- Queima! -- gritou Eddie.
    O poo da mina explodiu desde o fundo, fazendo subir uma
fumaa negra at a entrada. Feito o trabalho, Smitty correu para o
ponto de encontro. Morton empurrou seu barril de leo para dentro de
uma cabana e fez cuspir uma longa labareda.
    Gozando a destruio, Eddie se ps a caminho da ltima
choupana, a maior delas, uma espcie de barraco. Apontou sua arma.
Agora acabou, disse a si mesmo. Acabou. Todas essas semanas e
meses nas mos desses desgraados, esses guardas subumanos com
seus dentes tortos, suas caras ossudas e sua sopa de marimbondos.
No sabia o que lhes aconteceria em seguida, mas no poderia ser pior
do que o que tinham passado naquele lugar.
    Eddie apertou o boto. Wuuush. O fogo se alastrou rapidamente. O
bambu estava seco, e em um minuto as paredes do barraco se
derretiam em chamas alaranjadas e amarelas. Eddie ouviu o ronco
distante de um motor -- o capito, ele supunha, encontrara alguma
coisa com que escapar dali -- e de repente, vindos do cu, os
primeiros sons de bombardeios, o mesmo bombardeio que ouviram
toda a noite. Como estavam mais prximos agora, Eddie pensou que,
quem quer que fossem, veriam imediatamente as chamas. Talvez eles
fossem resgatados. Talvez ele pudesse voltar para casa! Virou-se
ento para o barraco em chamas e...
    O que era aquilo?
    Ele apertou os olhos.
    O que era aquilo?
    Alguma coisa passou correndo atrs do vo da porta. Eddie tentou
concentrar a viso. O calor era intenso, por isso protegeu os olhos com
a mo livre. No tinha certeza, mas pensou ter visto uma pequeno
vulto correndo em meio s chamas.
    -- Ei! -- gritou Eddie, dando um passo  frente e baixando a
arma. -- EI! -- A cobertura do barraco comeou a ruir, espalhando
fascas e chamas.Talvez fosse apenas uma sombra.
    -- EDDIE! AGORA!
    Morton estava um pouco mais longe, acenando para que
    Eddie viesse. Eddie tinha os olhos injetados e a respirao ace-
lerada. Apontando para o barraco, ele gritou:
    -- Eu acho que tem algum l dentro! Morton levou uma das mos
ao ouvido.
    -- O qu?
    -- Algum... l dentro!
    Morton balanou a cabea. No conseguia escutar. Eddie se virou
e teve quase certeza de ter visto outra vez, arrastando-se dentro do
barraco em chamas, um vulto do tamanho de uma criana. J fazia
mais de dois anos que s via homens adultos, e aquela silhueta irreal o
fez pensar de repente em seus priminhos l no per, no Trenzinho de
Li'l Folks, na montanha-russa, nos meninos na praia, em Marguerite e
seu retrato e em tudo o que tirara da cabea durante tantos meses.
    -- Ei! SAIA DA! -- ele gritou, abaixando o lana-chamas e
chegando ainda mais perto. -- EU NO VOU ATI...
    Eddie sentiu a mo de algum agarr-lo pelo ombro e pux-lo com
fora para trs. Virou-se, com o punho cerrado. Era Morton, gritando:
    -- EDDIE! Ns temos de ir AGORA! Eddie balanou a cabea.
    -- No, no, espere. Espere, eu acho que tem algum na...
    -- No tem ningum a! VAMOS EMBORA!
    Desesperado, Eddie se virou outra vez para o barraco.
    Morton o agarrou de novo. Desta vez Eddie se livrou com um
safano que atingiu o companheiro no peito. Morton caiu de joelhos.
A cabea de Eddie latejava. Seu rosto se contorcia de dio.Virou-se
outra vez para as chamas, com os olhos quase fechados. Aquilo l. O que
era aquilo? Enroscado atrs da parede? L? Deu um passo  frente,
convencido de que algum inocente estava morrendo queimado diante
dele. Ento, o resto do telhado desabou com estrpito e fagulhas
comearam a cair sobre sua cabea como poeira eltrica.
    Neste instante, a guerra inteira comeou a sair de dentro dele como
blis. Estava enojado do cativeiro, enojado de assassinatos, enojado do
sangue e da gosma seca em suas tmporas, enojado dos bombardeios e
incndios, enojado da futilidade de tudo aquilo. O que mais desejava
naquele momento era salvar alguma coisa, um pedao de Rabozzo, um
pedao de si mesmo, qualquer coisa, por isso saiu cambaleando em
meio aos destroos do incndio, loucamente convencido de que havia
uma alma dentro de cada sombra. L em cima, os avies rugiam e os
disparos de suas metralhadoras soavam como o rufar de tambores.
    Eddie seguia em frente, como que em transe. Ao passar por uma
poa de leo em chamas, o fogo atingiu sua roupa. Uma chama
amarelada queimava-lhe a coxa e a panturrilha. Ele ergueu os braos e
comeou a gritar.
    -- EU VOU AJUD-LO! SAIA DA! EU NO VOU ATI...
    Uma dor lancinante atravessou a perna de Eddie. Aos berros, ele
proferiu uma terrvel blasfmia e desabou no cho. O sangue
esguichava abaixo do seu joelho. Os motores dos avies rugiam.
Clares azulados iluminavam os cus.
    Ele permaneceu deitado, sangrando e queimando, os olhos
fechados devido ao calor abrasador, e pela primeira vez em sua vida
Eddie se sentiu pronto para morrer. Foi quando algum o puxou para
trs e o rolou na lama para apagar as chamas. Atordoado e fraco
demais para resistir, ele se deixou arrastar como um saco de feijo.
Logo estava dentro de um veculo de transporte, com os demais  sua
volta dizendo-lhe para agentar o mais que pudesse. Com as costas
queimadas e o joelho insensvel, Eddie se sentiu tonto e cansado,
cansado demais.
     O CAPITO ASSENTIU com a cabea, lentamente, ao relembrar
aqueles ltimos momentos.
    -- Voc lembra alguma coisa sobre como saiu de l? -perguntou.
    -- Na verdade, no -- disse Eddie.
    -- Levamos dois dias. Voc ficou o tempo todo semiconsciente.
Perdeu muito sangue.
    -- Mas conseguimos -- disse Eddie
    -- ... -- O capito prolongou a palavra e pontuou-a com um
suspiro. -- Aquela bala pegou voc de jeito.
    Na verdade, a bala nunca fora totalmente removida. Rompera
vrios nervos e tendes e se espatifara contra um osso, fraturando-o
verticalmente. Eddie passou por duas cirurgias. Nenhuma resolveu
totalmente o problema. Os mdicos disseram que ele ficaria com um
defeito que tenderia a piorar com a idade,  medida que os ossos
malformados se deteriorassem. "Foi o melhor que pudemos fazer",
disseram-lhe. Era mesmo? Quem saberia dizer? Tudo o que Eddie
sabia era que acordara em uma unidade mdica, e sua vida nunca mais
fora a mesma. No podia mais correr. No podia mais danar. E o pior
de tudo  que por algum motivo no era mais capaz de sentir as coisas
da mesma forma. Retraiu-se. Tudo lhe parecia ftil e sem sentido. A
guerra se alojara dentro de Eddie, em sua perna e em sua alma. Ele
aprendera muitas coisas como soldado. Quando voltou para casa era
um homem diferente.
     -- VOC SABIA -- disse o capito -- que eu venho de trs
geraes de militares?
    Eddie deu de ombros.
    -- . Aprendi a atirar com pistola quando tinha seis anos. De
manh, meu pai inspecionava minha cama, ia ver se os lenis
estavam perfeitamente esticados. Na mesa de jantar s se falava "Sim,
senhor", "No, senhor". At entrar para o servio militar, tudo o que
eu fiz na vida foi receber ordens. A coisa seguinte que eu aprendi foi
dar ordens. Antes da guerra, as coisas eram de um jeito. Eu tinha um
bando de recrutas espertos. Mas a a guerra comeou e chegou um
monte de caras novas -- rapazes, como voc, todos me prestando
continncia, na expectativa de que eu lhes dissesse o que fazer. Eu
podia sentir o medo nos olhos deles. Agiam como se eu soubesse
coisas a respeito da guerra s quais eles no tinham acesso. Achavam
que eu tinha o poder de mant-los vivos. Voc tambm, lembra?
    Eddie teve de admitir que sim.
    O capito moveu o corpo para trs e cocou o pescoo.
    -- Eu no tinha esse poder,  claro. Tambm recebia ordens. Mas
eu achava que, se no tinha o dom de mant-los vivos, podia pelo
menos mant-los juntos. No meio de uma guerra imensa, a gente tem
que acreditar em alguma coisa e ir atrs dela. Quando encontra uma,
se agarra a ela como um soldado que reza numa trincheira se agarra ao
seu crucifixo. Eu me agarrei nessa pequena idia que eu repetia para
vocs todos os dias: ningum fica para trs.
    Eddie assentiu com um gesto.
    -- Isso significava muito -- disse. O capito olhou direto para ele.
    -- Assim eu espero.
    De dentro do bolso da camisa tirou outro cigarro e acendeu-o.
    -- Por que est me dizendo isso? -- perguntou Eddie.
    O capito soltou a fumaa e fez um gesto com a ponta do cigarro
em direo  perna de Eddie.
    -- Porque fui eu que atirei em voc.
    EDDIE OLHOU PARA sua perna balanando no galho da rvore.
As cicatrizes da operao tinham voltado. A dor tambm. Sentiu
brotar dentro de si uma coisa que no sentia desde antes de morrer,
que alis havia muitos anos no sentia: urna onda de raiva, um mpeto
de bater em alguma coisa. Apertou os olhos e encarou o capito que
apenas olhava para ele, impassvel, como se soubesse o que viria em
seguida. Deixou o cigarro cair de seus dedos.
    --V em frente -- sussurrou.
    Com um grito, Eddie investiu contra ele, sacudindo os braos, e os
dois caram do galho da rvore e rolaram por entre galhos e
trepadeiras, lutando ao longo de toda a queda.
    -- POR QU? SEU DESGRAADO! Desgraado.Voc, no!
POR QUE? -- Eles agora se atracavam na terra lamacenta. Montado
sobre o peito do capito, Eddie desferiu-lhe uma saraivada de golpes
no rosto. O capito no sangrou. Eddie o sacudiu pelo colarinho e
bateu com a cabea dele no cho de lama. O capito nem piscou. Ao
contrrio, rolava de um lado para o outro a cada golpe, dando espao
para a ira de Eddie. At que finalmente agarrou Eddie com um dos
braos e girou, invertendo a posio.
    -- Porque -- disse calmamente, com o cotovelo atravessado no
peito de Eddie -- ns o teramos perdido naquele incndio.Voc teria
morrido. E no era a sua hora.
    Eddie resfolegava.
    -- A minha... hora? O capito prosseguiu.
    -- Voc estava obcecado com a idia de entrar l. Quase
nocauteou Morton quando ele tentou det-lo. Ns tinha-mos um
minuto para ir embora e, droga, voc era muito forte. Com um mpeto
final de raiva, Eddie agarrou o capito pelo colarinho. Puxou-o para
junto de si. Viu seus dentes amarelos de tabaco.
    -- Minha... perrrnaaa! -- Eddie bufava. -- Minha vida!
    -- Eu atirei na sua perna -- disse o capito calmamente -- para
salvar-lhe a vida.
    Eddie o soltou e caiu para trs, exausto. Os braos lhe doam. A
cabea girava. Aquele momento o perseguira durante anos e anos,
aquele nico erro que mudara toda a sua vida.
    -- No tinha ningum naquela cabana. O que  que eu estava
pensando? Se eu simplesmente no tivesse ido at l... -- Sua voz foi
morrendo num sussurro. -- Por que  que eu no morri,
simplesmente?
    -- Ningum  deixado para trs, lembra? -- disse o capito. -- O
que aconteceu com voc eu j tinha visto outras vezes. Quando o
soldado atinge um determinado ponto, ele perde a noo das coisas.
As vezes acontece no meio da noite. O cara simplesmente abre a
barraca e sai andando, descalo, seminu, como se estivesse indo para
casa, como se morasse ali na esquina. s vezes acontece no meio da
batalha. O soldado abaixa a arma, com os olhos vazios. Acabou para
ele. No consegue mais lutar. Normalmente, leva um tiro. No seu
caso, foi simplesmente isso, voc saiu do ar na frente de um incndio
um minuto antes de a gente fugir daquele lugar. Eu no podia deixar
voc ser queimado vivo. Imaginei que uma ferida na perna acabaria
sarando. Tiramos voc de l e os outros o levaram a uma unidade
mdica.
    A respirao de Eddie martelava em seu peito. Sua cabea estava
coberta de lama e folhas. Passou-se um minuto at ele se dar conta da
ltima coisa que o capito dissera.
    -- Os outros? -- disse Eddie. -- O que voc quer dizer com os
outros?
    O capito se levantou. Tirou um graveto da perna.
    --Voc voltou a me ver? -- perguntou.
    Eddie no voltara a v-lo. Fora levado de helicptero ao hospital
militar e, finalmente, em razo da seqela em sua perna desligado do
servio e mandado de volta aos Estados Unidos. Ouviu dizer, meses
depois, que o capito tinha morrido, mas imaginou tratar-se de algum
combate com outra unidade. Um dia chegou uma carta com uma
medalha dentro, que Eddie deixou de lado, sem abrir. Passou os meses
seguintes soturno e ensimesmado, esquecido dos detalhes da guerra e
sem qualquer interesse em relembr-los. Tempos depois, mudou de
endereo.
    --  como eu lhe dizia -- falou o capito. -- Ttano? Febre
amarela? Aquela fuzilaria toda? S uma grande perda do meu tempo.
    E com um meneio de cabea, indicou um ponto atrs do ombro de
Eddie, que se virou para olhar.
    O QUE VIU, de repente, no eram mais as colinas desoladas, mas
a noite da sua fuga, o luar enevoado, os avies chegando e as cabanas
em chamas. O capito dirigia o veculo, acompanhado por Smitty,
Morton e Eddie. Eddie ia deitado no banco de trs, queimado, ferido,
semiconsciente, enquanto Morton fazia um torniquete em seu joelho.
O bombardeio se aproximava. Clares como os de um sol intermitente
iluminavam o cu negro a cada poucos segundos. Ao chegar ao alto da
colina, o veculo deu uma guinada e parou. Havia um porto
improvisado, de madeira e arame, que no podia ser contornado
porque o terreno descia abruptamente de ambos os lados da estrada. O
capito pegou um fuzil e saltou. Atirou no cadeado e abriu o porto.
Fez um sinal para que Morton assumisse o volante e apontou para os
prprios olhos, indicando que ia verificar o raminho  frente que
serpenteava at penetrar em uma mata cerrada.  medida que seus ps
descalos permitiam, ele correu at uns 50 metros adiante da curva da
estrada.
    O caminho estava livre. O capito acenou para os homens. Ouviu o
zunido de um avio e ergueu os olhos para ver de que lado era. Foi no
exato momento em que olhou para o cu que um clique soou embaixo
do seu p direito.
    A mina explodiu instantaneamente, uma lngua de fogo sada do
fundo da terra que jogou o capito a seis metros de altura e o reduziu a
uma massa disforme de ossos, cartilagens e centenas de pedaos de
carne carbonizada, alguns dos quais passaram voando sobre o lamaal
e foram parar entre os ramos das figueiras-bravas.


                    A segunda lio


   -- MEU DEUS -- DISSE EDDIE, FECHANDO OS olhos
e jogando a cabea para trs. -- Meu Deus! Eu no fazia a menor
idia, senhor. Que coisa terrvel. Que tragdia!
    O capito assentiu com a cabea e olhou ao longe. As colinas ti-
nham voltado  sua desolao, com os ossos de animais, o veculo
quebrado e os destroos fumegantes da aldeia. Eddie se deu conta de
que esta era a terra sepulcral do capito. Nenhum funeral. Nenhum
caixo. S o seu esqueleto despedaado e a terra lamacenta.
    -- O senhor esteve esperando aqui todo esse tempo? -- sussurrou
Eddie.
    -- O tempo -- disse o capito -- no  o que voc pensa. -- Ele
se sentou ao lado de Eddie. -- Morrer? No  o fim de tudo. Ns
achamos que . Mas o que acontece na Terra  s o comeo.
    Eddie parecia perdido.
    -- Eu imagino que  como na Bblia, Ado e Eva, entende? --
disse o capito. -- Sabe a primeira noite de Ado na Terra? Quando
ele se deita para dormir? Ele pensa que tudo acabou. Ele no sabe o
que  dormir. Seus olhos esto fechando e ele pensa que est deixando
este mundo, certo? S que no est. Ado acorda na manh seguinte e
v que tem um mundo inteiro, novinho, para cuidar, mas tem tambm
uma outra coisa. Ele tem um dia de ontem. O capito abriu um sorriso.
    -- No meu modo de entender,  isso o que a gente vem fazer aqui,
soldado. O cu  isso. A gente vem entender nossos dias de ontem. <
    Pegou o mao de cigarros e comeou a tamborilar nele.
    --Voc est me entendendo? Eu nunca fui muito bom para
ensinar.
    Eddie olhou atentamente para o capito. Sempre pensara nele
como um homem muito mais velho. Agora, porm, com um pouco
menos de fuligem a esconder-lhe o rosto, Eddie notou as poucas rugas
de sua pele e sua espessa cabeleira escura. Devia estar na casa dos 30
anos.
    --Voc est aqui desde que morreu -- disse Eddie --, mas isso 
o dobro do tempo que voc viveu.
    O capito fez que sim, movendo a cabea.
    -- Eu estava esperando voc. Eddie baixou os olhos.
    -- Foi o que disse o Homem Azul.
    -- Bem, ele tambm estava. Ele fazia parte da sua vida, parte do
sentido da sua vida e da maneira como voc viveu, parte da histria
que voc precisava conhecer, mas ele j lhe contou e agora est alm
daqui e em breve eu tambm vou estar. Portanto, me escute. Porque 
isso que voc precisa saber de mim.
    Eddie sentiu suas costas se aprumarem.
    -- SACRIFCIO -- DISSE O CAPITO. -- Voc fez um Eu fiz
um. Todos fazemos. Mas voc sentia raiva do seu. Ficou pensando no
que perdeu.Voc no entendeu. O sacrifcio faz parte da vida. Deve
fazer. A gente no pode se lamentar por isso. E uma coisa que deve
ser desejada. Pequenos sacrifcios. Grandes sacrifcios. A me que
trabalha para o filho poder ir  escola. Uma filha que volta para casa
para cuidar do pai doente. O homem que vai para a guerra...
    Parou um momento e olhou para o cu nublado e cinzento.
    -- Rabozzo no morreu em vo, sabe? Ele se sacrificou por seu
pas, e sua famlia sabia disso. Seu irmo mais novo acabou se
tornando um bom soldado e um grande homem, porque se inspirou em
seu exemplo. Eu tambm no morri inutilmente. Naquela noite, ns
poderamos ter passado juntos por cima daquela mina. A teramos
morrido os quatro.
    Eddie balanou a cabea.
    -- Mas voc... -- baixou a voz. --Voc perdeu a sua vida. O
capito estalou a lngua nos dentes.
    -- E isso. s vezes, quando a gente sacrifica algo de muito valor,
na verdade no est perdendo essa coisa. Est apenas transmitindo-a a
outra pessoa.
    O capito foi at onde estava o capacete, o fuzil e as placas de
identificao, o tmulo simblico ainda encravado no cho. Colocou o
capacete e as placas embaixo de um dos braos, tirou o fuzil da lama e
atirou-o como uma lana. Ele no caiu no cho. Simplesmente flutuou
no cu e desapareceu. O capito se virou.
    -- Eu atirei em voc,  verdade -- disse --, e voc perdeu algo,
mas ganhou algo tambm. S que voc ainda no sabe o que . Eu
tambm ganhei alguma coisa.
    -- O qu?
    -- Consegui manter minha promessa. No deixei voc para trs.
    Estendeu a mo aberta.
    -- Me perdoa por sua perna?
    Eddie pensou um momento. Pensou na amargura que sentira or
causa do ferimento, na raiva por tudo a que renunciara. Depois pensou
nas coisas a que o capito renunciara e se sentiu envergonhado.
Estendeu a mo. O capito apertou-a com fora.
    -- Era por isso que eu estava esperando.
    De repente, a espessa trepadeira caiu dos galhos da figueira-brava
e, com um silvo, desapareceu no cho. Ramos novos e saudveis se
espalharam por ela preguiosamente, cobertos de folhas fortes e
macias e cachos de figos. O capito deu uma rpida olhada, como seja
esperasse aquilo. Depois, com as palmas das mos abertas, tirou o
resto da fuligem que ainda tinha no rosto.
    -- Capito -- disse Eddie.
    --Sim?
    -- Por que aqui? O senhor podia escolher qualquer lugar para
esperar, no podia? Foi o que disse o Homem Azul. Ento por que
este lugar?
    O capito sorriu.
    -- Porque eu morri em combate. Tombei nestas montanhas. Deixei
o mundo sem conhecer quase nada alm da guerra -- assuntos de
guerra, planos de guerra, famlia de guerra. Meu desejo era ver como o
mundo se parecia sem guerra. Antes de comearmos a nos matar uns
aos outros.
    Eddie olhou ao redor.
    -- Mas isto aqui  guerra.
    -- Para voc. Mas seus olhos so diferentes -- disse o capito. --
O que voc v no  o que eu vejo.
    Ergueu uma das mos e a paisagem se transformou. Os destroos
se derreteram, as rvores cresceram e estenderam suas copas, a lama
do cho se transformou em uma luxuriante relva verde. As nuvens
escuras se abriram como cortinas, revelando um cu cor de safira.
Uma nvoa leve e branca desceu sobre o topo das rvores e um sol cor
de pssego maduro brilhou no horizonte, refletido no oceano cintilante
que agora rodeava a ilha. Beleza intocada, pura, imaculada.
    Eddie ergueu os olhos para seu comandante, que tinha agora o
rosto limpo e o uniforme perfeitamente passado.
    -- Isto -- disse o capito, erguendo os braos --  o que eu vejo.
Ficou em p por um momento, assimilando.
    -- Falando nisso, eu no fumo mais. Estava tudo nos seus olhos
tambm. -- Fez um muxoxo. -- Por que motivo eu haveria de fumar
no cu?
    E virou-se para ir embora.
    -- Espere -- gritou Eddie. -- Preciso saber uma coisa. Minha
morte. No per. Eu salvei a menina? Eu senti as mos dela, mas no
consigo lembrar...
    O capito se virou e Eddie engoliu as palavras, constrangido por
perguntar aquilo, ao lembrar da maneira horrvel como o capito
morrera.
    -- Eu s queria saber, nada mais -- murmurou.
    O capito cocou atrs da orelha. Olhou para Eddie com simpatia.
    -- No posso lhe dizer, soldado. Eddie baixou a cabea.
   -- Mas algum pode.
   O capito jogou o capacete e as placas.
   -- E tudo seu.
   Dentro da aba do capacete havia uma foto amarfanhada de mulher
que fez o seu corao doer de novo. Quando ergueu os olhos, o
capito tinha ido embora.
   SEGUNDA-FEIRA, 7:30 DA MANHA
    Na manh seguinte ao acidente, Domiguez chegou cedo na oficina,
fugindo da sua rotina de comer po com refrigerante no caf da
manh. O parque estava fechado, mas ele entrou assim mesmo e abriu
a torneira da pia. Deixou a gua escorrer em suas mos, pensando em
limpar alguma pea. A mudou de idia e fechou a torneira. Tudo
pareceu duas vezes mais silencioso do que um minuto atrs.
    --E a?
    Willie apareceu na porta da oficina. Vestia um pulver verde e
cala jeans larga. Trazia um jornal. A manchete dizia: "Tragdia no
Parque de Diverses".
    -- Nem consegui dormir direito -- disse Dominguez.
    -- ... -- Willie deixou-se cair sentado num tamborete de ferro.
-- Nem eu.
    Deu meia-volta no tamborete, olhando o jornal com um ar
perplexo.
    -- Quando voc acha que eles vo reabrir o parque? Dominguez
deu de ombros.
    -- Tem de perguntar  polcia.
    Ficaram alguns minutos sentados em silncio, mudando
alternadamente de posio. Dominguez suspirou. Willie levou a mo
ao bolso para pegar uma barra de chiclete. Era segunda-feira. De
manh. Estavam esperando o velho entrar para dar incio ao dia de
trabalho.


          A terceira pessoa que Eddie
               encontra no cu
    UM VENTO SBITO LEVANTOU EDDIE, que girou como um
relgio de bolso pendurado numa corrente. Uma exploso de fumaa o
envolveu e seu corpo foi engolido por uma torrente de cores. O cu
pareceu se contrair, a ponto de Eddie senti-lo tocar sua pele como um
cobertor franzido. Depois se expandiu, numa exploso verde-jade.
Surgiram estrelas, milhes de estrelas, como gros de sal espalhados
pelo firmamento esverdeado.
    Eddie fechou e abriu os olhos. Estava nas montanhas agora,
montanhas extraordinrias, uma cordilheira que no acabava nunca,
com picos nevados, rochas recortadas e encostas de puro prpura. Na
plancie, entre dois espinhaos, as guas de um grande lago negro
refletiam o claro da lua.
    Ao longe, Eddie viu uma vibrao de luzes coloridas que
mudavam ritmicamente a cada poucos segundos. Avanou nessa
direo -- e se deu conta de que estava com neve pelos tornozelos.
Levantou os ps e os sacudiu com fora. Os flocos se soltaram,
emitindo cintilaes douradas. Ao toc-los, percebeu que no eram
frios nem quentes.
    Onde estou agora?, pensou Eddie, e ps-se a examinar o prprio
corpo pressionando os ombros, o peito e o estmago. Os msculos do
brao permaneciam rgidos, mas a regio do estmago estava mais
solta e flcida. Aps um instante de hesitao, apertou o joelho
esquerdo. Uma pontada de dor o obrigou a se encolher. Esperara que a
ferida desaparecesse depois que o capito fora embora. Em vez disso,
estava mais parecido, com o homem que era na Terra, com cicatrizes,
gordura e tudo o mais. Por que o cu o faria reviver sua prpria
decadncia?
    Seguiu as luzes que vibravam ao longe na estreita cordilheira. Era
uma paisagem impressionante, nua e silenciosa como sempre
imaginara que fosse o cu. Por um momento se perguntou se j no
tinha terminado, se o capito no estava errado afinal, se no havia
mais ningum para encontrar. Depois de vencer a neve acumulada ao
redor de uma salincia rochosa, chegou  grande clareira de onde se
originavam as luzes. Fechou e abriu os olhos outra vez -- agora, de
perplexidade.
    No meio do campo nevado, surgida do nada, havia uma construo
em forma de continer, com fachada de ao inoxidvel e cobertura de
telhas vermelhas, em cima da qual piscava um letreiro com a palavra:
REFEIES.
    Um restaurante de beira de estrada.
    Eddie passara muitas horas em lugares como esse. Pareciam todos
iguais -- cubculos com bancos de encosto alto, balces reluzentes e
janelas de vidros pequenos ao longo da fachada que, do exterior,
faziam os fregueses parecerem viajantes num vago de trem. Atravs
delas, Eddie conseguia distinguir pessoas conversando e gesticulando.
Subiu os degraus cobertos de neve at a porta dupla e pela vidraa
examinou o interior.
     direita, um casal de idosos comia uma torta sem perceber sua
presena. Havia fregueses sentados nos bancos giratrios junto ao
balco de mrmore e outros nos cubculos com seus casacos
pendurados nos ganchos. Davam a impresso de pertencer a dcadas
diferentes: Eddie viu uma mulher com um vestido de gola alta da
dcada de 1930 e um rapaz de cabelos compridos com um smbolo da
paz tatuado no brao. Muitos clientes pareciam feridos de guerra. Um
negro com uniforme de trabalho no tinha um dos braos. Uma
adolescente ostentava um corte profundo no rosto. Nenhum deles
levantou os olhos quando Eddie bateu no vidro. Viu cozinheiros com
chapus brancos e pratos de comida fumegante sobre o balco prontos
para serem servidos -- comida com as cores mais suculentas: o
vermelho profundo dos molhos e o amarelo do creme de manteiga.
Seus olhos foram at o ltimo cubculo  direita. Ficou paralisado.
    No pde acreditar no que estava vendo.
    -- NO -- SUSSURROU PARA SI MESMO. Voltou atrs,
afastando-se da porta. Seu corao disparou. Respirou fundo vrias
vezes. Virou-se, olhou de novo e comeou a esmurrar furiosamente a
vidraa. -- No -- berrava Eddie. -- No! No! -- Bateu at ter
certeza de que o vidro ia se quebrar. -- No!
    Eddie continuou berrando at que a palavra que precisava dizer, a
palavra que havia dcadas no pronunciava, se formou finalmente em
sua garganta. Gritou ento essa palavra -- tantas vezes e com tanta
fora que sua cabea latejou de dor. Mas o personagem dentro do
cubculo permaneceu curvado, absorto, com uma das mos pousada
sobre a mesa e a outra segurando um cigarro, sem nunca erguer os
olhos para os terrveis gritos de Eddie, que repetia, sem parar:
    -- PAI! PAI! PAI!

                    Hoje  aniversrio de Eddie
    No saguo sombrio e esterilizado do Hospital dos Veteranos de Guerra,
a me de Eddie abre a caixa branca da confeitaria e rearruma as velas em
cima do bolo, colocando exatamente 12 de cada lado. Em p ao lado dela,
as outras pessoas -- o pai de Eddie, Joe, Marguerite e Mickey Shea --
observam.
    -- Algum tem um fsforo? -- ela sussurra.
    Todos verificam nos bolsos. Mickey pega uma caixa no bolso do palet,
deixando cair dois fsforos no cho. A me de Eddie acende as velas. O
sinal sonoro anuncia a chegada do elevador, de onde sai uma maa.
    -- Muito bem, vamos -- diz ela.
    As chamas das velas oscilam durante todo o trajeto. O grupo entra no
quarto de Eddie cantando suavemente: "Parabns pra voc, nesta data
querida... "
    O soldado da cama ao lado acorda gritando: "QUE DIABO  ISSO?"
A se d conta de onde est e se deita novamente, constrangido. Depois da
interrupo, o parabns parece ficar pesado demais, e s a voz trmula e
solitria da me de Eddie consegue prosseguir.
    -- Parabns, Eddie querido... -- diz ela, e encerra rapidamente: --
Parabns pra voc.
    Eddie se recosta no travesseiro. As queimaduras esto protegidas por
bandagens, e a perna, totalmente engessada. Duas muletas esto apoiadas
ao lado da cama. Ao olhar para aqueles rostos, ele  assaltado por um
desejo de fugir.
   Joe pigarreia.
   -- Ei, voc parece muito bem -- diz.
   Os outros concordam imediatamente. Bem. Sim. Muito bem.
   -- Sua me trouxe um bolo -- sussurra Marguerite.
   A me de Eddie d um passo  frente, como se fosse a sua vez, e o
presenteia com a caixa de papelo. Eddie murmura:
    -- Obrigado, me. Ela olha ao redor.
    -- Onde podemos colocar isto?
    Mickey pega uma cadeira. Joe limpa o tampo de uma pequena mesa.
Marguerite afasta as muletas. O pai de Eddie  o nico que no faz questo
de se mexer. Fica em p, encostado na parede do fundo, com um palet
pendurado no brao, olhando para a perna de Eddie envolvida no gesso da
coxa ao tornozelo.
    O olhar de Eddie cruza com o dele. O pai abaixa os olhos e passa a mo
no peitoril da janela. Eddie tensiona todos os msculos do corpo e tenta,
com todas as suas foras, empurrar as lgrimas de volta aos seus canais.
     TODOS OS PAIS CAUSAM DANOS aos filhos. E inevitvel. A
juventude, como o vidro novo, absorve as marcas de quem a
manipula. H pais que mancham, h pais que racham e h uns poucos
que esmigalham a infncia de seus filhos em pedacinhos rombudos,
sem nenhuma possibilidade de conserto.
    O primeiro dano causado pelo pai de Eddie foi o do descaso.
Quando Eddie era beb, ele raramente o segurava no colo, e quando
ele era criana, costumava peg-lo pelo brao com irritao muito
mais freqentemente do que com amor. A me de Eddie lhe dava
ternura; o pai s queria saber de disciplina.
    Aos sbados, o pai de Eddie o levava ao per. Eddie saa de casa
com carrossis e algodo-doce na cabea, mas depois de mais ou
menos uma hora, o pai encontrava um rosto conhecido e dizia: "Voc
pode dar uma olhada no garoto pra mim?" At ele voltar, geralmente
tarde da noite, quase sempre bbado, Eddie ficava aos cuidados de
algum acrobata ou de um treinador de animais.
    Apesar disso, Eddie passou um nmero incontvel de horas da sua
adolescncia esperando pela ateno do pai, sentado na balaustrada do
deque e na oficina, de bermuda, sentado em cima de alguma caixa de
ferramentas. Sempre dizia: "Eu posso ajudar, eu posso ajudar!", mas o
nico trabalho que lhe era confiado era se arrastar debaixo da roda-
gigante, de manh, antes do parque abrir, para recolher as moedas
cadas dos bolsos dos fregueses na noite anterior.
    Pelo menos quatro noites por semana, seu pai jogava cartas Na
mesa havia dinheiro, garrafas, cigarros e regras. A regra de Eddie era
simples: no perturbar. Uma vez ele tentou ficar do lado do pai
olhando suas cartas, mas o velho abaixou o charuto e explodiu em
fria, batendo no rosto de Eddie com as costas da mo. "Pra de
respirar em cima de mim", disse. Eddie comeou a chorar e sua me o
puxou para junto dela, olhando feio para o marido. Eddie nunca mais
chegou to perto.
    Havia noites em que as cartas no vinham boas. Depois que as
garrafas se esvaziavam e que a me de Eddie ia dormir, o pai
transportava a sua fria para o quarto de Eddie e Joe. Remexia nos
poucos brinquedos e os atirava contra a parede. Depois obrigava os
filhos a se deitarem com a cara contra o colcho, tirava o cinto e
surrava-lhes o traseiro, berrando que eles desperdiavam o seu
dinheiro com porcarias. Eddie rezava para que a me acordasse, mas,
quando isso acontecia, o pai a advertia para "ficar de fora". V-la na
porta do quarto, fechando o robe, totalmente impotente, tornava as
coisas ainda piores.
    As mos que deixaram marcas no vidro da infncia de Eddie eram
duras, calosas e vermelhas de raiva. Ele passou seus primeiros anos de
vida sendo criticado, espancado e surrado. Foi este o segundo dano
infligido, depois do descaso. O dano da violncia. Pelo barulho dos
passos do pai no corredor, Eddie j sabia o tamanho da violncia que
ia sofrer.
    Em meio a tudo isso, e a despeito de tudo isso, Eddie adorava o
pai, porque os filhos adoram seus pais, independentemente do mal que
eles lhes possam causar.  assim que aprendem a devoo. Antes de
se devotar a Deus ou a uma mulher, um menino se devotar ao seu
pai, por mais insensato e inexplicvel que isto possa ser.
     S VEZES, como para atiar as brasas menos vivas da fogueira, o
pai de Eddie deixava uma ponta de orgulho arranhar o verniz do seu
desinteresse. No campo de beisebol junto ao ptio da escola na
avenida 14, ele ficava em p ao lado da cerca, vendo Eddie jogar.
Quando Eddie tacava a bola fora do campo, seu pai aprovava
movendo a cabea, e a Eddie saa correndo para cobrir as bases.
Quando Eddie voltava para casa de uma briga de rua, o pai notava os
ns dos seus dedos escalavrados, ou o lbio partido, e perguntava: "O
que aconteceu com o outro cara?" Eddie dizia que o pegara de jeito e
isso, tambm, merecia a aprovao do pai. Quando Eddie atacou os
garotos que estavam importunando o seu irmo -- a me os chamava
de "arruaceiros" --, Joe foi se esconder no quarto, envergonhado, e o
pai de Eddie lhe disse: "No se preocupe com ele. Voc  o mais
forte.Tome conta do seu irmo. No deixe ningum tocar nele."
    Ao entrar para o ginsio, Eddie passou a copiar o horrio de
trabalho de seu pai no vero, levantando-se antes do amanhecer e
trabalhando no parque at o cair da noite. Comeou operando os
brinquedos mais simples, acionando, por exemplo, as alavancas de
freio que faziam o trenzinho parar suavemente. Nos anos seguintes foi
trabalhar na oficina. O pai de Eddie testava suas habilidades em
problemas de manuteno. Entregava-lhe um volante quebrado e
dizia: "Conserte isto." Apontava uma corrente embolada e dizia:
"Conserte isto." Trazia-lhe um pra-lama enferrujado e uma lixa e
dizia: "Conserte isto." Toda vez que terminava uma tarefa, Eddie
devolvia o objeto ao pai, dizendo: "Est consertado."
    A noite se reuniam em torno da mesa do jantar, a me no fogo,
cozinhando, rolia e suada, e o irmo Joe jogando conversa fora com o
cabelo e a pele cheirando a gua do mar. Joe se tornara um exmio
nadador, razo pela qual o seu trabalho de vero consistia em tomar
conta da piscina do Ruby Pier. Falava de todas as pessoas que via l,
de suas roupas de banho e do dinheiro que tinham. O pai de Eddie no
se deixava impressionar. Certa vez Eddie o escutou falar com sua me
sobre Joe. "Esse a", disse ele, "s serve para ficar dentro d'gua."
    Eddie, no entanto, invejava o aspecto que Joe apresentava  noite,
todo limpo e queimado de sol. As unhas de Eddie eram sujas de graxa
como as de seu pai. Durante o jantar, ele procurava limp-las com a
unha do polegar. Uma vez Eddie notou que seu pai o observava. Pego
de surpresa, o velho abriu um largo sorriso. "Sinal de que voc
trabalhou duro hoje", disse ele, exibindo as prprias unhas antes de
pegar o copo de cerveja.
    A esta altura j um robusto adolescente, Eddie respondia com um
simples aceno de cabea. Sem saber, ele havia desistido das palavras e
da afeio fsica e dado incio ao ritual da comunicao com seu pai
atravs de sinais. Tudo devia se passar internamente. Ele devia saber
disso, e ponto final. Recusa de afeio. O dano estava feito.
     AT QUE UMA NOITE o dilogo acabou por completo. Foi
depois da guerra, depois que Eddie teve alta do hospital, depois que o
gesso foi removido de sua perna e ele voltou para o apartamento da
famlia na avenida Beachwood. O pai, que estivera bebendo num bar
das redondezas, chegou em casa tarde e encontrou Eddie dormindo no
sof. As trevas do combate haviam operado uma mudana em Eddie.
Ele ficava o tempo todo dentro de casa. Raramente falava, mesmo
com Marguerite. Passava horas na janela da cozinha, olhando o
carrossel, esfregando o joelho machucado. A me sussurrava que ele
"s precisava de tempo", mas o pai ficava cada vez mais inquieto. No
fazia a menor idia do que fosse depresso. Para ele, o problema era
fraqueza, nada mais.
    -- Levanta -- ele gritou, atropelando as palavras -- e vai arranjar
um emprego.
    Eddie despertou. O pai gritou novamente.
    -- Levanta... e vai arranjar um emprego!
    Mesmo cambaleante, o velho foi na direo de Eddie e o
empurrou.
    -- Levanta e vai arranjar um emprego! Levanta e vai arranjar um
emprego! Levanta... e... VAI ARRANJAR UM EMPREGO!
    Eddie apoiou-se nos cotovelos.
    -- Levanta e vai arranjar um emprego! Levanta e...
    -- CHEGA! -- gritou Eddie, pondo-se de p sem se importar com
a pontada de dor no joelho. Olhou com raiva para o pai, cara a cara,
sentindo o cheiro de lcool e cigarro.
    O velho olhou de relance para a perna de Eddie e rosnou com uma
voz ameaadora.
    -- Est vendo s? Voc... no est... to... ferido.
    Inclinou-se para trs para desferir um soco, mas Eddie instin-
tivamente agarrou o brao do pai no meio do caminho. O velho
arregalou os olhos. Era a primeira vez na vida que Eddie se defendia, a
primeira vez que fazia outra coisa que no fosse aceitar pancadas
como se as merecesse. O pai olhou para o prprio punho cerrado a
pouca distncia do alvo e, com as narinas dilatadas e os dentes
rangendo, recuou um passo, libertando o brao com um repelo. Ficou
olhando para Eddie como quem v um trem partir.
    Nunca mais falou com o filho.
    Foi esta a ltima impresso deixada pelo pai no vidro de Eddie. O
silncio, que o perseguiu pelos anos que lhe restaram. O pai ficou
calado quando Eddie se mudou para seu prprio apartamento e ficou
calado quando Eddie arranjou um emprego de motorista de txi. Ficou
calado no casamento de Eddie e calado ficava quando Eddie vinha
visitar a me. Ela pedia, aos prantos, implorava ao marido para parar
com aquilo, para esquecer, mas o pai de Eddie repetia, entre dentes, o
mesmo que dizia a todas as pessoas que lhe faziam esse pedido: "Esse
garoto levantou a mo para mim." E assim encerrava a conversa.
    Os pais sempre causam danos aos filhos. A vida deles juntos foi
assim. Descaso. Violncia. Silncio. E agora, em algum lugar alm da
morte, Eddie desabava contra uma parede de ao inoxidvel e se
deixava afundar num banco de neve, aferroado uma vez mais pela
recusa de um homem cujo amor ele, quase inexplicavelmente, ainda
almejava, um homem que o ignorava, mesmo no cu. Seu pai. O dano
consumado.
     -- NO SE ZANGUE -- disse uma voz de mulher. -- Ele no
pode ouvi-lo.
    Eddie levantou a cabea. Uma senhora idosa estava em p, na
neve, ao seu lado. Tinha um rosto magro, com as bochechas cadas, e
usava batom cor-de-rosa. Os cabelos brancos eram firmemente
puxados para trs e finos o suficiente para deixar entrever, aqui e ali, o
rosado do couro cabeludo. Por trs dos culos de aro metlico se viam
uns olhinhos azuis.
    Eddie no se lembrava dela. Suas roupas eram de uma poca
anterior  sua, um vestido feito de seda e gaze, com um corpete tipo
avental alinhavado com contas brancas e arrematado com uma laada
de veludo logo abaixo do pescoo. A saia tinha uma fivela em forma
de diamante, presilhas e colchetes em toda a lateral. Sua postura era
elegante, segurando a sombrinha com as duas mos. Eddie deduziu
que ela fora uma mulher rica.
    -- Nem sempre rica -- disse ela, com um sorriso largo, como se o
tivesse escutado. -- Eu cresci mais ou menos como voc, na periferia
da cidade, e tive de deixar a escola quando fiz 14 anos. Eu era
trabalhadora. Assim como minhas irms. Cada tosto que ganhvamos
ia para a famlia...
    Eddie a interrompeu. No queria ouvir mais uma histria.
    -- Por que o meu pai no pode me ouvir? -- quis saber. Ela sorriu.
    -- Porque o esprito dele -- so e salvo --  parte da minha
eternidade. Mas ele no est aqui, na verdade. Voc, sim.
    -- Por que o meu pai tem de estar so e salvo para voc? Ela fez
uma pausa.
    --Venha.
    SUBITAMENTE, ELES CHEGARAM ao sop de uma
montanha. A luz do restaurante era agora apenas um pontinho, como
uma estrela cada dentro de uma fenda.
    -- Bonito, no? -- disse a velha senhora. Eddie acompanhou seu
olhar. Havia nela qualquer coisa familiar, como se ele j tivesse visto
sua fotografia em algum lugar.
    -- A senhora ... a minha terceira pessoa?
    -- Estou aqui para isso -- ela disse.
    Eddie cocou a cabea. Quem era essa mulher? O Homem Azul, o
capito, pelo menos ele se lembrava do lugar que tinham ocupado em
sua vida. Mas por que uma estranha? Por que neste momento? Um dia
Eddie desejara que a morte significasse reunir-se s pessoas que
tinham morrido antes dele. Comparecera a tantos enterros, tantas
vezes engraxara os sapatos pretos, procurara o chapu, e ficara em p
no cemitrio com a mesma desesperante pergunta: "Por que eles se
foram e eu ainda estou aqui?" Sua me. Seu irmo. Seus tios e tias.
Seu companheiro Noel. Marguerite. "Um dia", afirmava o padre,
"estaremos todos juntos no Reino dos Cus."
    Onde estavam eles, ento, se isto aqui era o cu? Eddie examinou
atentamente essa estranha mulher. Sentiu-se mais sozinho do que
nunca.
    -- Posso ver a Terra? -- ele sussurrou. Ela disse que no,
balanando a cabea.
    -- Posso falar com Deus?
    -- Isto voc pode fazer sempre que quiser. Ele hesitou antes de
fazer a pergunta seguinte.
    -- Posso voltar?
    Ela semicerrou os olhos.
    --Voltar?
    -- , voltar -- disse Eddie. -- A minha vida. Ao ltimo dia. H
alguma coisa que eu possa fazer? Posso prometer ser bom? Posso
prometer ir sempre  igreja? Qualquer coisa?
    -- Por qu?
    -- Por qu? -- repetiu Eddie. E bateu com fora na neve, que no
era fria, com a mo desnuda que no sentia umidade. -- Por qu?
Porque este lugar no faz nenhum sentido para mim. Porque eu no
me sinto como um anjo, se  que era assim que eu devia me sentir.
Porque no me sinto absolutamente como se j tivesse entendido tudo.
No consigo me lembrar da minha morte nem do acidente. Tudo o que
eu lembro so aquelas duas mozinhas -- uma garotinha que eu
estava tentando salvar, sabe? Eu tentei empurr-la para fora do
caminho e devo ter agarrado as mos dela e foi ento que eu...
    Ergueu os ombros.
    -- Que voc morreu? -- disse a velha senhora, sorrindo. --
Faleceu? Partiu? Foi falar com Deus?
    -- Morri -- ele disse, suspirando. -- E isso  tudo o que eu lem-
bro. Depois a senhora, os outros, tudo isso. A gente no devia ter paz
quando morre?
    --Temos paz -- disse a mulher -- quando estamos em paz com
ns mesmos.
    -- Nada disso -- falou Eddie, balanando a cabea. -- Nada
disso. -- E pensou em contar para ela a agitao que sentira todos os
dias desde a guerra, os pesadelos, a incapacidade de se interessar pelas
coisas, s vezes em que foi sozinho at as docas para ver os peixes
sendo puxados pelas grandes redes de corda, incomodado por se ver
naquelas criaturas que se agitavam, impotentes, inapelavelmente
prisioneiras.
    Mas no lhe disse nada. Em vez disso, falou:
    -- Sem querer ofend-la, minha senhora, o fato  que eu nem a
conheo.
    -- Mas eu conheo voc -- ela disse. Eddie suspirou.
    -- E mesmo? De onde?
    -- Bem -- disse ela --, se voc tiver um momento.
     ELES ENTO SE SENTARAM, embora no houvesse onde se
sentar. Ela simplesmente descansou no ar e cruzou as pernas, de um
modo muito distinto, mantendo as costas eretas. A longa saia se
dobrou elegantemente em torno de suas pernas. Soprava uma brisa, e
Eddie sentiu um suave odor de perfume.
    -- Como j disse, eu era uma jovem trabalhadora. Era garonete
num lugar chamado Cavalo-Marinho. Ficava perto do oceano, onde
voc cresceu.Voc se lembra dele, no?
    Ela acenou com a cabea na direo do restaurante, e tudo retornou
para Eddie. E claro. Aquele lugar. Ele costumava tomar caf da manh
ali. Um p-sujo, como costumavam cham-lo Fora demolido h
muitos anos.
    -- A senhora? -- disse Eddie, quase rindo. -- A senhora foi
garonete no Cavalo-Marinho?
    -- Eu mesma -- disse ela, com orgulho. -- Servia caf e bolinhos
de siri com bacon aos estivadores e trabalhadores do porto. Eu era
uma garota atraente naquela poca, devo acrescentar. Recusei muitos
pedidos de casamento. Minhas irms me censuravam. "Quem voc
pensa que  para ser to exigente?", diziam. "Arranje um homem
enquanto  tempo." A, numa manh, o cavalheiro mais elegante que
eu j vira em toda a minha vida entrou pela porta. Vestia um terno
risca-de-giz e chapu-coco, tinha cabelos escuros perfeitamente corta-
dos e um bigode que lhe cobria o sorriso permanente. Fez um aceno
aprovador com a cabea quando o servi, e eu tentei no ficar olhando.
Mas quando ele falou com seu colega, pude ouvir sua risada forte e
confiante. Peguei-o duas vezes olhando em minha direo. Ao pagar a
conta, ele disse que se chamava Emile e perguntou se podia ir me
visitar. Naquele exato momento eu soube que minhas irms no
teriam mais de ficar me chateando para eu tomar uma deciso. Nosso
namoro foi divertidssimo, pois Emile era um homem de posses. Ele
me levou a lugares onde eu nunca tinha estado, comprou-me roupas
que eu nunca imaginara usar, convidou-me para jantares que eu jamais
experimentara em minha vida pobre e sem graa. Emile ganhara
dinheiro rapidamente, investindo em madeira e ao. Era um
perdulrio, um homem que gostava de arriscar -- quando tinha uma
idia, passava por cima de qualquer obstculo. Eu acho que foi por
isso que se sentiu atrado por uma garota pobre como eu. Ele detestava
pessoas nascidas na riqueza, preferia fazer coisas que "gente
sofisticada" nunca faria. Uma delas era ir aos balnerios ocenicos.
Ele adorava os brinquedos, a comida picante, os ciganos, os videntes,
os adivinhadores de peso e as mergulhadoras. E ns dois adorvamos
o mar. Um dia, quando estvamos sentados na areia com a gua
batendo suavemente nos nossos ps, ele me pediu em casamento.
Fiquei exultante. Disse a ele que sim e ficamos ouvindo o som das
crianas brincando na gua. Emile ento jurou que ia construir um
parque de diverses s para mim, custasse o que custasse, para
eternizar a felicidade daquele momento -- para permanecer
eternamente jovem. A velha senhora sorriu.
    -- Emile cumpriu sua promessa. Alguns anos mais tarde, fez um
acordo com a companhia ferroviria que procurava uma forma de
aumentar o movimento de passageiros nos fins de semana. Foi assim
que muitos parques de diverso foram construdos, voc sabe.
    Eddie concordou com a cabea. Ele sabia. A maioria das pessoas,
no. Elas achavam que os parques de diverso eram construdos por
elfos, usando varas de condo. Na verdade, os parques eram meras
oportunidades de negcio para as companhias ferrovirias, que os
erguiam nos pontos finais de suas linhas para que os usurios dos dias
teis tivessem um bom motivo para tomar o trem nos fins de
semana.Voc sabe onde eu trabalho?, Eddie costumava dizer. No fim
da linha.  l que eu trabalho.
    -- Emile -- prosseguiu a mulher -- construiu um lugar mara-
vilhoso, um per imenso usando a madeira e o ao que j possua. A
vieram as atraes mgicas -- fliperamas, brinquedos, trenzinhos e
passeios de barco. Importou-se um carrossel da Frana e uma roda-
gigante de uma das feiras internacionais da Alemanha. Tinha torres,
agulhas e milhares de lmpadas incandescentes, to brilhantes que 
noite dava para ver o parque do convs de um navio no mar. Emile
contratou centenas de trabalhadores, gente do local, artistas itinerantes
e estrangeiros. Trouxe animais, acrobatas e palhaos. A entrada foi a
ltima coisa a ficar pronta, e era realmente grandiosa. Todo mundo
dizia. Ele me levou l, com os olhos vendados. Quando tirou a venda
foi que eu vi.
    A velha senhora deu um passo atrs, afastando-se de Eddie. Olhou
para ele com curiosidade, como se estivesse decepcionada.
    --A entrada -- ela disse. -Voc no se lembra dela? Nunca se
perguntou por que o parque tinha aquele nome? O lugar onde voc
trabalhou? Onde seu pai trabalhou?
    Ela tocou o prprio peito delicadamente com os dedos cobertos
por uma luva branca. E se abaixou, como que se apresentando
formalmente.
    -- Eu -- disse ela -- sou Ruby.

                    Hoje  aniversrio de Eddie
    Eddie faz 33 anos. Acorda sobressaltado, com o peito arfando. Seu
cabelo negro est empapado de suor. Abre e fecha os olhos com fora para
vencer a escurido, tentando desesperadamente enxergar o prprio brao,
os ns dos dedos, qualquer coisa que diga que ele est ali, no apartamento
em cima da padaria, e no de volta  guerra, na aldeia, no meio do fogo.
Aquele sonho. Ser que vai parar um dia?
    Falta pouco para as quatro da madrugada. No adianta tentar dormir
de novo. Espera a respirao voltar ao normal e sai lentamente da cama,
procurando no acordar sua mulher. Baixa primeiro a perna direita, por
hbito, tentando evitar a permanente rigidez da esquerda. Eddie comea
todas as manhs da mesma maneira. Um passo, uma coxeada.
    No banheiro, ele v seus olhos injetados e joga gua no rosto. E sempre
o mesmo sonho: Eddie vagando por entre as chamas, nas Filipinas, em sua
ltima noite na guerra. As cabanas da aldeia esto em chamas e se ouve um
som agudo, um guincho, constante. Alguma coisa invisvel atinge as pernas
de Eddie, ele tenta espant-la com um tapa, mas no consegue. D outro
tapa e novamente no consegue. As chamas se intensificam, rugem como um
motor, e ento aparece Smitty chamando Eddie, gritando "Vamos embora!
Vamos embora!". Eddie tenta falar, mas quando abre a boca  um guincho
agudo que sai da sua garganta. Ento alguma coisa agarra as suas pernas,
puxando-o para debaixo da terra lamacenta.
    A ele acorda. Suando. Ofegante. Sempre a mesma coisa. O pior no  a
insnia. O pior  a escurido absoluta que o sonho deixa sobre ele, uma
pelcula cinzenta que nubla todo o seu dia. At os seus momentos felizes
parecem encapsulados, como buracos abertos numa camada de gelo duro.
    Veste-se silenciosamente e desce as escadas. O txi est estacionado na
esquina, seu lugar de costume. Eddie tira o orvalho do pra-brisa. Nunca
fala da escurido a Marguerite. Ela lhe alisa o cabelo e pergunta "Algum
problema?", e ele responde "Nada, s estou cansado", e fica por isso. Como
ele pode explicar toda essa tristeza quando devia estar feliz com ela? A
verdade  que ele mesmo no sabe explicar. Tudo o que sabe  que algo se
colocou na sua frente, bloqueando seu caminho, at que com o tempo ele foi
desistindo das coisas, desistiu de estudar engenharia e desistiu da idia de
viajar. Estacionou na vida. E a ficou.
    Esta noite, de volta do trabalho, Eddie pra o txi na esquina. Sobe
lentamente as escadas. De seu apartamento vem uma msica, uma cano
conhecida.
    "Voc me fez amar voc Eu no queria fazer isso, Eu no queria fazer
isso... "
    Abre aporta e v sobre a mesa um bolo e uma pequena sacola branca,
amarrada com uma fita.
    -- Querido? -- grita Marguerite do quarto. --  voc? Ele ergue a
sacola branca. Bala puxa-puxa. Do per.
    -- Parabns pra voc... -- Marguerite aparece, cantando com sua voz
doce e suave. Est linda, com o vestido estampado preferido de Eddie, a
boca pintada e o cabelo feito. Eddie sente que precisa respirar, como se no
merecesse este momento. Luta contra a escurido dentro de si: "Me deixa
em paz", diz. "Me deixa sentir isto do jeito que devo sentir." Marguerite
termina a cano e beija-o nos lbios.
    -- Quer lutar comigo pelo puxa-puxa? -- ela sussurra. Ele faz meno
de beij-la outra vez. Algum bate na porta.
    -- Eddie! Voc est a? Eddie?
    E o senhor Nathanson, o padeiro, que mora no trreo, atrs da loja. Ele
tem telefone. Quando Eddie abre aporta, Nathanson est em p na soleira,
vestido com um roupo. Parece preocupado.
    -- Eddie -- ele diz. -- Desce aqui. Tem um telefonema para voc. Eu
acho que aconteceu alguma coisa com seu pai.
    "EU SOU RUBY."
    De repente, ficou claro para Eddie o motivo pelo qual essa mulher
lhe parecera familiar. Ele a vira numa fotografia, em algum lugar nos
fundos da oficina, entre os velhos manuais e documentos do
proprietrio original do parque.
    -- A entrada antiga... -- disse Eddie.
    Ela meneou a cabea, satisfeita. A entrada original do Ruby Per
fora um verdadeiro marco, uma grande arcada inspirada num famoso
templo francs, com colunas esfriadas e uma cpula em abbada. Bem
embaixo da cpula, sob a qual passava todo o pblico, havia uma
pintura, o rosto de uma linda mulher. Esta mulher. Ruby.
    -- Mas aquilo foi destrudo h muito tempo -- disse Eddie. -
Houve um grande...
    Ele parou.
    -- Incndio -- disse a mulher. -- Sim. Um incndio enorme. -Ela
deixou cair o queixo e olhou para baixo, por trs dos culos, como se
estivesse lendo alguma coisa em seu colo.
    -- Era o Dia da Independncia, 4 de julho -- um feriado. Emile
adorava feriados. "Bom para os negcios", ele costumava dizer. Se o
Dia da Independncia fosse bom, o vero inteiro seria bom. Emile
preparou uma queima de fogos. Trouxe uma banda marcial. Chegou a
contratar trabalhadores extras, braais em sua maioria, s para aquele
fim de semana. Mas houve um acidente na noite anterior ao feriado.
Fazia calor, mesmo depois do pr-do-sol, e alguns dos operrios que
resolveram dormir do lado de fora, atrs dos barraces, improvisaram
um fogo num barril metlico para preparar a comida. Durante a noite,
os trabalhadores beberam e farrearam. Pegaram alguns fogos de
artifcio menores e os acenderam. O vento soprava. Voaram fascas.
Naquele tempo tudo era feito de material inflamvel...
    Ela balanou a cabea.
    -- O resto aconteceu rapidamente. O fogo se espalhou para o
passeio central, para os quiosques de comida e as jaulas dos animais.
Os operrios fugiram. Quando vieram nos avisar em casa, o Ruby Pier
j estava em chamas. Da nossa janela dava para ver as imensas
labaredas alaranjadas. Ouvimos o som das patas dos cavalos e das
mquinas a vapor do corpo de bombeiros. Havia gente nas ruas. Eu
implorei a Emile para que no fosse l, mas era intil.  claro que ele
iria. Ele se meteu no meio do incndio, hipnotizado pela raiva e pelo
medo, para tentar salvar seus anos de trabalho, e quando a entrada
pegou fogo, a entrada com o meu nome e o meu retrato, perdeu
completamente a noo de onde estava. Tentava apagar o fogo com
baldes de gua quando uma coluna caiu em cima dele.
    Ela juntou os dedos e os levou aos lbios.
    -- Em uma nica noite, nossa vida mudou para sempre. O
audacioso Emile tinha feito um seguro irrisrio para o parque. Perdeu
toda a sua fortuna. O magnfico presente que ele me dera se fora.
Desesperado, ele vendeu o terreno para um empresrio da Pensilvnia
por muito menos do que valia. O empresrio manteve o nome, Ruby
Pier, e tempos depois reabriu o parque. Mas no era mais o nosso
parque. O esprito de Emile ficou to quebrado quanto seu corpo. Ele
levou trs anos para voltar a andar sozinho. Ns nos mudamos para
fora da cidade, um pequeno apartamento onde levamos a vida mo-
destamente, eu cuidando de meu marido ferido enquanto remoia
silenciosamente um nico desejo.
    Ela parou.
    -- Qual? -- perguntou Eddie.
    -- O de que ele no tivesse jamais construdo aquele lugar.
     A VELHA SENHORA SENTOU-SE, calada. Eddie contemplou o
vasto cu verde-jade. Pensou em quantas vezes desejara a mesma
coisa -- que quem construra o Ruby Pier tivesse feito outra coisa
com o seu dinheiro.
    -- Sinto muito pelo seu marido -- disse Eddie, principalmente por
no saber que outra coisa dizer.
    A mulher sorriu.
    -- Obrigada, meu caro. Mas ns ainda vivemos muitos anos
depois daquele incndio. Tivemos trs filhos. Emile sempre doente,
entrando e saindo do hospital. Deixou-me viva aos 50 anos.Voc est
vendo este rosto, estas rugas? -- ela virou o rosto para cima. -- Eu
mereci cada uma delas.
    Eddie franziu o cenho.
    -- No compreendo. Ns j... nos encontramos? A senhora veio
alguma vez ao per?
    -- No -- ela disse. -- Eu nunca mais quis ver o per. Meus filhos
iam l, e os filhos deles, e os netos tambm. Mas eu, no. Minha idia
de cu estava o mais longe possvel do mar, estava nos meus dias de
simplicidade, em que o restaurante vivia cheio e Emile me cortejava.
    Eddie esfregou as tmporas. Sua respirao formava uma nvoa.
    -- Ento por que  que eu estou aqui? -- ele perguntou. -- Quero
dizer, a sua histria, o incndio, tudo isso aconteceu antes de eu
nascer.
    -- Coisas que aconteceram antes de voc nascer ainda afetam sua
vida -- ela disse. -- E pessoas que vieram antes de voc o afetam
tambm. Todos os dias vamos a lugares que nunca teriam existido se
no fossem aqueles que vieram antes de ns. Costumamos muitas
vezes achar que os lugares onde trabalhamos, onde passamos boa
parte do nosso tempo, surgiram com a nossa chegada. Isto no 
verdade. Ela tamborilava com as pontas dos dedos.
    -- Se no fosse Emile, eu no teria casado. Se no fosse o nosso
casamento, no haveria per. Se no houvesse o per, voc no teria
acabado indo trabalhar l.
    Eddie cocou a cabea.
    -- Ento a senhora veio aqui para me falar de trabalho?
    -- No, meu caro -- respondeu Ruby, amaciando a voz. -- Eu
vim aqui para lhe falar da morte do seu pai.
    ERA A ME DE EDDIE ao telefone. O pai tivera um colapso
naquela tarde, na extremidade leste do deque, perto do Foguetinho.
Estava ardendo em febre.
    -- Eddie, eu estou com medo -- disse sua me com a voz trmula.
E lhe falou da madrugada, naquela mesma semana, em que seu pai
chegara em casa completamente encharcado. Com as roupas cheias de
areia. E sem um p de sapato. Disse que ele estava com cheiro de mar.
Eddie apostou que cheirava a bebida, tambm. -- Ele estava tossindo
-- explicou sua me. -- E agora piorou. Devamos ter chamado um
mdico imediatamente... -- Suas palavras no faziam sentido. Disse
que ele sara para trabalhar naquele dia, doente daquele jeito, com seu
cinto de ferramentas e seu martelo-bola -- como sempre -, mas  noite
no quis comer e na cama teve uma tosse danada, uma chiadeira no
pulmo, e suou toda a camiseta. O dia seguinte foi pior. E agora, esta
tarde, ele desabou. -- O mdico disse que  pneumonia. Ai, meu
Deus, eu devia ter feito alguma coisa. Eu devia ter feito alguma
coisa...
    -- E o que  que voc devia ter feito? -- perguntou Eddie. Ele
ficou com raiva por ela assumir a responsabilidade. A culpa era da
bebedeira do seu pai.
    Pelo telefone, ele a ouviu chorar.
    O PAI DE EDDIE COSTUMAVA DIZER que passara tantos anos
junto ao mar que respirava gua salgada. Agora, longe desse mar,
confinado numa cama de hospital, seu corpo comeou a secar como
um peixe encalhado na areia. Surgiram complicaes.A congesto no
peito piorou. Seu estado passou de estvel a mau e de mau a grave. Os
amigos trocaram a previso "Ele vai voltar para casa em um dia" por
"Ele vai voltar para casa em uma semana". Na ausncia do pai, Eddie
dava uma ajuda no per, trabalhava  noite depois de largar o txi,
lubrificando os trilhos, verificando as lonas de freio, testando as
alavancas e at consertando peas quebradas de brinquedos na oficina.
    O que na verdade ele estava fazendo era proteger o emprego do
pai. Os proprietrios reconheceram o seu esforo pagando-lhe a
metade do que o pai ganhava. Ele deu o dinheiro  me, que ia ao
hospital todos os dias e dormia l a maioria das noites. Eddie e
Marguerite cuidavam do apartamento e compravam comida para ela.
    Quando Eddie era adolescente, sempre que se queixava ou parecia
entediado com o per, seu pai fuzilava: "O qu? Isto aqui no  bom o
suficiente para voc?" Mais tarde, quando sugeriu que ele fosse
trabalhar l quando terminasse o segundo grau e Eddie quase riu, seu
pai lhe disse outra vez: "O qu? Isto aqui no  bom o suficiente para
voc?" E quando, antes de ir para a guerra, Eddie falou em se casar
com Marguerite e se tornar engenheiro, o pai disse: "O qu? Isto aqui
no  bom o suficiente para voc?"
    E agora, apesar de tudo isso, ali estava ele, no per, fazendo o
trabalho do pai.
    At que uma noite, a pedido de sua me, Eddie foi ao hospital.
Entrou no quarto devagar. O pai, que durante anos se recusara a falar
com ele, agora no tinha foras nem para tentar. Olhou para o filho
com as plpebras pesadas. Tentando achar alguma frase para dizer,
Eddie fez a nica coisa que lhe ocorreu: ergueu as mos e mostrou ao
pai as pontas dos dedos sujas de graxa.
    -- No esquenta no, rapaz -- diziam-lhe os demais trabalhadores
da manuteno. -- O seu pai vai sair dessa. Ele  o cara mais duro
que a gente j viu.
    OS PAIS RARAMENTE libertam os filhos, os filhos  que se
libertam dos pais. Se mudam.Vo embora. As foras que os definiam
-- a aprovao da me, o aceno de cabea do pai -- so compensadas
pela fora dos seus prprios talentos.  muito mais tarde, quando a
pele fica flcida e o corao enfraquece, que os filhos compreendem:
suas histrias, assim como todas as suas realizaes, se assentam
sobre as histrias e realizaes de suas mes e de seus pais, pedra a
pedra, sob as guas de suas vidas.
    Quando recebeu a notcia de que seu pai morrera -- "ele se foi",
disse a enfermeira, como se ele tivesse sado para comprar leite -,
Eddie sentiu a mais intensa das raivas vazias, daquele tipo que fica
dando voltas na prpria jaula. Como a maioria dos filhos de
trabalhadores, Eddie imaginara para seu pai uma morte herica que
fizesse contraponto  mediocridade da sua vida. No havia nada de
herico num coma alcolico na praia.
    No dia seguinte, ele foi ao apartamento dos pais, entrou no quarto
deles e abriu todas as gavetas, como se dentro de alguma delas
pudesse achar um pedao do seu pai. S encontrou moedas, um
alfinete de gravata, uma garrafinha de conhaque, elsticos, contas de
luz, canetas e um isqueiro com uma sereia gravada. At que deu com
um baralho. Colocou-o no bolso.
     O ENTERRO FOI PEQUENO E RPIDO. A me de Eddie
passou as semanas seguintes completamente fora do ar. Falava com o
marido como se ele ainda estivesse ali. Gritava para ele abaixar o
rdio. Preparava comida para ambos. Afofava os travesseiros dos dois
lados da cama, apesar de s um deles ter sido usado durante a noite.
    Uma noite, Eddie a viu empilhando pratos no aparador.
    -- Deixe-me ajud-la -- ele disse.
    -- No precisa -- respondeu a me. -- O seu pai vai guard-los.
Eddie ps a mo no ombro dela.
    -- Me -- ele disse. -- Papai foi embora.
    -- Para onde?
    No dia seguinte, Eddie procurou o gerente da empresa de txis e
disse-lhe que estava saindo do emprego. Duas semanas depois, ele e
Marguerite se mudaram para o edifcio onde Eddie crescera --
avenida Beachwood, apartamento 6B -, onde os corredores eram
estreitos e a janela da cozinha dava para o carrossel e onde Eddie
aceitara um emprego que lhe permitiria ficar de olho na me, o posto
para o qual fora treinado vero aps vero: funcionrio da manuteno
do Ruby Pier. Eddie nunca disse isso -- nem para sua mulher, nem
para sua me, nem para ningum -, mas amaldioou o pai por morrer
deixando-o prisioneiro da vida de que estava tentando escapar; uma
vida que agora, como se ouvisse o pai rindo no tmulo, parecia ser
boa o suficiente para ele.

                    Hoje  aniversrio de Eddie
    Eddie faz 37 anos. Seu caf da manh est esfriando.
    -- Voc est vendo o sal por a? -- Eddie pergunta a Noel. Com a boca
cheia de salsicha, Noel sai do cubculo, inclina-se sobre uma outra mesa e
pega um saleiro.
    -- Toma aqui -- ele murmura. -- Feliz aniversrio. Eddie sacode o
saleiro com fora.
    -- Por que ser que  to difcil deixarem o sal em cima da mesa?
    -- Voc  o gerente, por acaso? -- diz Noel.
    Eddie d de ombros. A manh j est quente e carregada de umidade.
Esta  a rotina deles: tomar caf da manh uma vez por semana, no sbado
de manh, antes do parque lotar. Noel tem um negcio de lavagem a seco.
Eddie o ajudou a conseguir o contrato da limpeza dos uniformes de
manuteno do Ruby Pier.
    -- O que voc acha desse boa-pinta aqui? -- quer saber Noel. E mostra
um exemplar da revista Life aberta na pgina em que aparece a foto de um
jovem candidato.
    -- Como  possvel esse cara se candidatar a presidente? Ele  um
garoto!.
    Eddie d de ombros.
    -- Tem mais ou menos a nossa idade.
    -- T brincando? -- diz Noel. Ergue uma sobrancelha.
    -- Eu pensava que precisava ser mais velho para ser presidente.
    -- Ns somos mais velhos -- Eddie murmura. Noel fecha a revista.
Baixa a voz.
    -- Ei. Voc viu o que aconteceu em Brighton?
    Eddie sinaliza que sim. Beberica o seu caf. Ouvira falar. Um parque de
diverses. Uma gndola. Alguma coisa quebrou. Uma mulher e seu filho
caram de uma altura de 20 metros e morreram.
    -- Voc conhece algum l? -- pergunta Noel.
    Eddie morde a lngua. Volta e meia ele escuta histrias de acidentes
num parque de diverses, e cada vez tem um estremecimento, como se um
marimbondo tivesse passado no seu ouvido. No h um nico dia em que ele
no se inquiete com o risco de acontecer uma coisa assim no Ruby Pier, sob
sua responsabilidade.
    -- Hum-hum -- ele diz. -- No conheo ningum em Brighton.
    Fica olhando pela janela e v surgir um grupo de banhistas na estao
de trem. Trazem toalhas, barracas e cestas de vime com sanduches
embrulhados em papel. Alguns carregam uma novidade: cadeiras dobrveis,
de alumnio leve.
    Passa um velho com um chapu-panam, fumando um charuto.
    -- Olha s esse sujeito -- diz Eddie. -- Aposto com voc que ele vai
jogar o charuto no deque.
    -- Vai? -- diz Noel. -- E da?
    -- E da o charuto cai na fresta e comea a queimar. D para sentir o
cheiro.  o cheiro da substncia qumica que colocam na madeira. Comea
a sair fumaa imediatamente. Ontem eu peguei um menino, que no podia
ter mais do que quatro anos, aponto de colocar uma guimba de charuto na
boca.
    Noel faz uma careta.
    --E da?
    Eddie d de ombros.
    -- E da nada. As pessoas deviam ter mais cuidado, s isso.
    Noel pe uma garfada de salsicha na boca.
    -- Voc  sempre engraado assim no seu aniversrio, Eddie?
    Eddie no responde. A antiga escurido tomou assento ao seu lado. J
acostumado com ela, ele lhe abre espao da mesma forma como a gente
abre espao para um trabalhador a mais num nibus lotado.
    Pensa nas tarefas de manuteno que tem para hoje. Um espelho
quebrado na Casa Maluca. Pra-lamas novos nos carrinhos de bate-bate.
Cola, ele precisa se lembrar de encomendar mais cola. Pensa naquelas
pobres vtimas em Brighton. E se pergunta quem era o responsvel l.
    -- A que horas voc larga hoje? --pergunta Noel. Eddie suspira.
    -- Hoje vai ser fogo. Vero. Sbado. Sabe como . Noel ergue uma
sobrancelha.
    -- A gente pode ir s corridas l pelas seis.
    Eddie pensa em Marguerite. Sempre pensa em Marguerite quando Noel
menciona as corridas de cavalos.
    -- Vamos l. Hoje  seu aniversrio -- diz Noel. Eddie espeta o garfo
nos ovos fritos em seu prato, to
    frios a esta altura que j nem merecem ser comidos.
    -- Est bem -- diz ele.
                     A terceira lio

     -- O PER ERA TO RUIM ASSIM? -- perguntou a velha
senhora.
     -- No foi escolha minha -- disse Eddie, suspirando. -- Minha
me precisava de ajuda. Uma coisa levou  outra. Os anos se
passaram. E eu fui ficando. Nunca morei em outro lugar. No cheguei
a ganhar dinheiro de verdade. Sabe como  -- voc se acostuma com
uma coisa, as pessoas confiam em voc, e um dia voc acorda e no
sabe mais se  quarta ou quinta-feira. Continua fazendo o mesmo
trabalho chato, voc  o "cara da voltinha", exatamente como...
     -- Seu pai?
     Eddie no disse nada.
     -- Ele foi duro com voc -- disse a mulher. Eddie baixou os
olhos.
     -- Foi, sim. Por qu?
     -- Talvez voc tenha sido duro com ele, tambm.
     -- Tenho minhas dvidas. Voc sabe quando foi a ltima vez que
ele falou comigo?
     -- A ltima vez que ele tentou bater em voc. Eddie olhou para
ela.
     -- E sabe qual foi a ltima coisa que ele me disse? "Vai arranjar
emprego." Que pai, hein?
     A velha mulher comprimiu os lbios.
     -- Depois voc comeou a trabalhar. Voc se levantou.
     Eddie sentiu uma onda de raiva.
     -- Olha aqui -- ele disparou. --Voc no conheceu o sujeito.
     --  verdade. -- Ela se levantou. -- Mas sei de uma coisa que
voc no sabe. E est na hora de lhe mostrar.
     COM A PONTA DA SOMBRINHA, Ruby traou um crculo na
neve. Ao olhar dentro do crculo, Eddie teve a sensao de que seus
olhos saam de suas rbitas e viajavam por conta prpria, para dentro
de um tnel, em um outro tempo. Aos poucos, as imagens foram
ficando mais ntidas. Acontecera muitos anos antes, no antigo
apartamento. Ele via ao mesmo tempo frente e fundos, em cima e
embaixo.
    E o que ele viu foi o seguinte:
    Viu sua me sentada  mesa da cozinha, com um ar preocupado.
Viu Mickey Shea sentado em frente a ela. Mickey tinha um pssimo
aspecto. Todo encharcado, esfregava as mos na testa e no nariz. E
comeou a soluar. A me de Eddie lhe trouxe um copo d'gua. Fez
um gesto para ele esperar, foi at 0 quarto e fechou a porta. Tirou os
sapatos e seu vestido caseiro. E foi buscar uma blusa e uma saia.
    Eddie conseguia ver todos os quartos, mas no escutava o que os
dois diziam, apenas um som indistinto. Viu Mickey na cozinha,
desinteressado do copo d'gua, tirar um frasco do bolso do palet e
beber um trago.Viu-o se levantar lentamente e entrar cambaleando no
quarto.
    Eddie viu sua me, semivestida, virar-se espantada. Mickey
cambaleava  sua frente. Ela se cobriu com um robe. Mickey chegou
mais perto. Ela estendeu a mo instintivamente para det-lo. Depois
de um instante de hesitao, Mickey segurou a mo dela, agarrou-a e
encostou-a na parede, inclinando-se sobre ela com as mos em sua
cintura. Ainda agarrada ao robe, a me de Eddie se contorcia, gritava e
empurrava o peito de Mickey. Muito maior e mais forte, ele enterrou
sua cara barbada no pescoo dela, lambuzando-o com suas lgrimas.
    De repente, a porta da frente se abriu e apareceu o pai de Eddie,
molhado de chuva, com um martelo-bola pendurado no cinto. Entrou
correndo no quarto e viu Mickey Shea agarrando sua esposa. O pai de
Eddie gritou. Ergueu o martelo. Mickey ps as mos na cabea e
arremeteu para a porta, esbarrando no pai de Eddie. Com o peito
arfando e o rosto banhado em lgrimas, a me de Eddie chorava. O
marido agarrou-a pelos ombros. Sacudiu-a violentamente. Seu robe
caiu no cho. Ambos gritavam. Ento o pai de Eddie saiu do aparta-
mento, estraalhando uma luminria com o martelo. Desceu a escada
aos trancos e saiu para a noite chuvosa.
    -- O QUE FOI AQUILO? -- Eddie gritou, sem acreditar no que
via. -- Que diabo foi AQUILO?
    A velha senhora no disse nada. Deu um passo para o lado e
desenhou outro crculo na neve. Eddie tentou no olhar. Mas no pde
evitar. Estava caindo de novo, tornando-se espectador de outra cena.
    E foi isso o que ele viu:
    Viu um temporal no ponto mais extremo do Ruby Pier -- a "ponta
norte", eles o chamavam --, um estreito cais que avanava longe
dentro do oceano. O cu estava preto-azulado. Caam rajadas de
chuva. Mickey Shea vinha cambaleando em direo  ponta do cais.
Caiu no cho, arquejante. Ficou ali deitado algum tempo, com a cara
voltada para o cu escuro, depois virou de lado, embaixo da
balaustrada de madeira. E se deixou cair no mar.
    O pai de Eddie apareceu momentos depois, movendo-se de um
lado para o outro, com o martelo na mo. Agarrou-se  balaustrada
para examinar a gua. Empurrada pelo vento, a chuva batia de lado,
encharcando-lhe as roupas e o couro j enegrecido do seu cinto de
ferramentas. Ao ver alguma coisa nas ondas, parou, tirou o cinto, tirou
um sapato, tentou tirar o outro, desistiu, agachou-se sob a balaustrada
e saltou, estatelando-se desajeitadamente na gua.
    Mickey subia e descia no mar encrespado, semiconsciente. De sua
boca saa uma espuma amarela. O pai de Eddie nadou at ele, gritando
ao vento. Agarrou Mickey. Mickey se esquivou. O pai de Eddie o
agarrou outra vez. A gua da chuva os aoitava, enquanto o cu era
sacudido pelo barulho dos troves. Eles se agarravam e agitavam os
braos no mar revolto.
    Mickey tossia muito enquanto o pai de Eddie tentava peg-lo pelo
brao e faz-lo agarrar-se ao seu ombro. Ento o pai de Eddie
submergiu e voltou  tona com o corpo de Mickey apoiado no
seu.Tentou nadar em direo  praia. Bateu os ps. Os dois homens se
moveram para a frente. Uma onda os arrastou para trs. Depois para a
frente outra vez. Sob os golpes das ondas que se quebravam, o pai de
Eddie continuava segurando Mickey pelas axilas, movendo as pernas,
abrindo e fechando os olhos furiosamente para tentar enxergar alguma
coisa.
    Pegaram a crista de uma onda e fizeram um sbito progresso em
direo  praia. Mickey gemia e arfava. O pai de Eddie cuspia gua do
mar. Aquilo parecia no ter fim, a chuva caindo, a espuma branca
batendo em seus rostos, os dois grunhindo e se debatendo. Finalmente,
uma onda grande e encrespada os levantou e os atirou na areia. O pai
de Eddie saiu debaixo de Mickey e conseguiu pux-lo pelos braos
para impedir que fosse levado pela arrebentao. Quando a onda
recuou, ele arrastou Mickey com um ltimo esforo e caiu na praia,
com a boca aberta, cheia de areia molhada.
     A VISO DE EDDIE RETORNOU ao seu prprio corpo. Sentiu-
se exausto e sem foras, como se ele prprio tivesse estado se
debatendo no mar. Sua cabea pesava. Tudo o que ele achava que
sabia sobre o pai parecia no saber mais.
     -- O que  que ele estava fazendo? -- sussurrou Eddie.
     -- Salvando um amigo -- disse Ruby. Eddie olhou irritado para
ela.
     -- Amigo? Se eu soubesse o que ele tinha feito, teria deixado
afundar aquela carcaa bbada.
     -- O seu pai pensou a mesma coisa -- disse a velha senhora. --
Ele foi atrs de Mickey para dar-lhe uma surra, talvez at mat-lo.
Mas na hora no foi capaz. Ele sabia quem era Mickey. Conhecia seus
defeitos. Sabia que ele bebia. Sabia que ele no era muito bom do
juzo. Mas muitos anos antes, quando seu pai procurava trabalho, foi
Mickey quem intercedeu por ele junto ao proprietrio do per. E,
quando voc nasceu, foi Mickey quem emprestou aos seus pais o
pouco dinheiro que tinha para ajudar a sustentar essa boca a mais. O
seu pai levava a srio as velhas amizades...
     -- Um momento, minha senhora -- disparou Eddie. -- A senhora
viu o que esse desgraado estava fazendo com minha me?
     --Vi -- disse a mulher, com tristeza. -- Foi muito errado. Mas as
coisas nem sempre so o que parecem. Mickey fora despedido naquela
tarde. Tinha dormido novamente durante o seu turno, por causa da
bebida, e os patres lhe disseram que no dava mais para continuar.
Ele lidou com aquela notcia como lidava com todas as ms notcias,
bebendo mais ainda, e estava encharcado de usque quando foi
procurar a sua me. Ele foi implorar ajuda. Queria o emprego de volta.
Seu pai ainda estava no trabalho. Sua me pretendia sair com Mickey
para procurar seu pai. Mickey era bruto, mas no era mau. Naquele
momento ele estava perdido, totalmente  deriva, e o que fez foi um
ato de solido e desespero. Agiu por impulso. Um impulso ruim. O
seu pai agiu por impulso, tambm, primeiro o de querer matar, depois
o de salvar a vida de um homem.
    Ela cruzou as mos sobre o cabo da sombrinha.
    -- E foi assim que ele adoeceu,  claro. Ficou horas deitado na
praia, encharcado e exausto, antes juntar foras para se arrastar at sua
casa. O seu pai j no era jovem. Estava na casa dos 50.
    -- Cinqenta e seis -- disse Eddie, indiferente.
    -- Cinqenta e seis -- repetiu a mulher. -- Seu corpo estava
enfraquecido, o mar o deixara vulnervel. Ento a pneumonia tomou
conta dele e pouco depois ele morreu.
    -- Por causa de Mickey -- Eddie disse.
    -- Por causa da lealdade -- ela disse.
    -- Ningum morre por lealdade.
    -- No? -- ela sorriu. -- Religio? Governo? Acaso ns no
somos leais a essas coisas, s vezes a ponto de morrer por elas?
    Eddie deu de ombros.
    -- E melhor -- disse ela -- sermos leais uns com os outros.
    OS DOIS PERMANECERAM ainda um longo tempo no vale
nevado da montanha. Pelo menos a Eddie pareceu um longo tempo.
Ele no estava seguro de quanto tempo as coisas duravam agora.
    -- O que aconteceu com Mickey Shea? -- perguntou Eddie.
    -- Morreu solitrio alguns anos depois -- disse a velha senhora.
-- Bebeu at o dia do prprio enterro. Ele nunca se perdoou pelo que
aconteceu.
    -- Mas o meu pai -- disse Eddie, esfregando a testa --, ele nunca
disse nada.
    -- Ele nunca falou sobre o que aconteceu naquela noite, nem com
sua me nem com mais ningum. Sentia-se envergonhado por ela, por
Mickey e por si mesmo. No hospital, ele parou de falar totalmente. O
silncio foi a sua sada, mas o silncio raramente serve de refgio.
Seus pensamentos ainda o perseguiam. Uma noite, sua respirao
ficou mais lenta, seus olhos se fecharam e ele no acordou mais. Os
mdicos disseram que tinha entrado em coma.
    Eddie se lembrava daquela noite. Outro telefonema para o senhor
Nathanson. Outra batida na porta.
    -- Depois disso, sua me no saiu mais do lado da cama. Dias e
noites. Ficou ali sozinha, se lamentando baixinho, como se estivesse
rezando: "Eu devia ter feito alguma coisa. Eu devia ter feito alguma
coisa..." At que uma noite, por sugesto dos mdicos, ela foi para
casa dormir. De manh bem cedo, uma enfermeira encontrou seu pai
com metade do corpo cado para fora da janela.
    -- Espere a -- disse Eddie, comprimindo os olhos. -- Na janela?
    Ruby confirmou com um gesto. -- Numa certa hora, durante a
noite, seu pai despertou.
    Levantou-se da cama aos trancos e barrancos, atravessou o quarto
e arranjou foras para levantar a vidraa da janela. Chamou por sua
me com o pouco de voz que lhe restava, chamou por voc e pelo seu
irmo Joe tambm. E chamou Mickey. Nesse momento, ao que
parece, o seu corao estava botando para fora toda a culpa e o
arrependimento. Talvez estivesse vendo a luz da morte se aproximar.
Talvez apenas achasse que vocs estavam todos l fora, em algum
lugar, quem sabe na rua, embaixo da janela. Ele se debruou na borda.
A noite estava fria. No estado em que seu pai estava, o vento e a
umidade foram fatais. Antes de amanhecer, ele estava morto. As
enfermeiras o encontraram e o arrastaram de volta para a cama. Por
medo de perder o emprego, elas no disseram nem uma palavra sobre
o que tinha acontecido. A verso que ficou foi a de que ele morreu
durante o sono.
    Eddie caiu para trs, atnito, pensando nesta ltima cena. Seu pai,
o velho de guerra duro, tentando fugir escalando uma janela. Aonde
ele queria ir? O que estava pensando? O que seria pior para ele: no
ter explicao para sua vida ou para sua morte?
     -- COMO  QUE VOC sabe de tudo isso? -- Eddie perguntou
a Ruby. Ela suspirou.
    -- O seu pai no tinha dinheiro para pagar um quarto s para ele
no hospital. O homem que estava do outro lado da cortina tambm
no.
    Ela fez uma pausa.
    -- Emile. Meu marido.
    Eddie ergueu os olhos. Moveu a cabea para trs como se tivesse
acabado de resolver um intrincado quebra-cabea.
    -- Ento a senhora viu o meu pai.
    -- Sim.
    -- E minha me.
    -- Eu ouvi os lamentos dela naquelas noites solitrias. Mas nunca
nos falamos. Depois da morte do seu pai, procurei saber a respeito da
sua famlia. Quando descobri onde seu pai trabalhava, senti uma dor
lancinante, como se eu mesma tivesse perdido um ente querido. O per
que levava o meu nome. Pude sentir a sua sombra maldita e uma vez
mais desejei que ele no tivesse sido jamais construdo. Este desejo
veio comigo at o cu e ficou comigo enquanto eu esperava por voc.
    Eddie pareceu confuso.
    -- O restaurante? -- ela disse. E apontou para o ponto de luz nas
montanhas. -- Ele est l porque foi meu desejo retornar aos anos da
minha juventude,  minha vida simples e segura. E eu quis que todos
os que um dia sofreram no Ruby Pier -- nos acidentes, nos incndios,
nas brigas, escorreges e quedas -- estivessem sos e salvos. Desejei
para eles o mesmo que desejei para o meu Emile, que estivessem
aquecidos, bem alimentados, no conforto de um lugar agradvel, bem
longe do mar.
    Ruby se levantou, e Eddie tambm. Ele no conseguia parar de
pensar na morte do pai.
    -- Eu o odiava -- murmurou.
    A velha senhora assentiu com a cabea.
    -- Ele foi um demnio para mim quando eu era criana. E pior
ainda quando fiquei mais velho.
    Ruby deu um passo na direo dele.
    -- Edward -- ela disse, com uma voz suave. Era a primeira vez
que o chamava pelo primeiro nome. -- Deixe eu lhe ensinar uma
coisa. Guardar a raiva  envenenar-se. Ela nos consome por dentro. A
gente costuma pensar que o dio  uma arma contra a pessoa que nos
fez mal. Mas a lmina do dio  curva.
    E o mal que fazemos com ele, ns fazemos a ns mesmos. --
Perdoe seu pai, Edward. Perdoe. Voc se lembra da leveza que sentiu
ao chegar no cu?
    Eddie se lembrava. "Onde est a minha dor?"
    -- Isso acontece porque ningum nasce com raiva. E, quando
morremos, a alma fica livre dela. Mas agora, para seguir adiante neste
lugar, voc precisa entender por que sentiu o que sentiu e por que no
precisa continuar sentindo.
    Ela tocou na mo de Eddie.
    --Voc precisa perdoar seu pai.
     EDDIE PENSOU NOS anos que se seguiram  morte do pai. No
fato de no ter realizado nada, de no ter ido a lugar nenhum. Passou
todo aquele tempo imaginando a vida -- uma vida que poderia-ter-
sido -- que teria sido a sua se no fosse a morte do pai e o colapso de
sua me. Durante anos ele idealizou essa vida imaginria, acusando
seu pai de ter sido responsvel por todas as suas perdas: a perda da
liberdade, a perda da carreira, a perda da esperana. Eddie nunca
ultrapassou o trabalho sujo e maante que seu pai deixou para trs.
    -- Meu pai morreu -- disse Eddie -- levando consigo uma parte
de mim. Depois disso, eu empaquei.
    Ruby balanou a cabea.
    -- No foi por causa do seu pai que voc nunca saiu do per. Eddie
ergueu os olhos.
    -- Ento foi por qu?
    Ruby alisou a saia. Ajustou os culos. Comeou a se afastar. -
Voc ainda tem duas pessoas para encontrar -- ela disse. Eddie tentou
dizer "Espere", mas um vento frio quase arrancou a voz da sua
garganta. A ficou tudo negro.
     RUBY FORA EMBORA. Eddie estava de volta ao alto da
montanha, em p na neve, do lado de fora do restaurante.
    Ficou l um longo tempo, sozinho no silncio, at perceber que a
velha senhora no iria voltar. Virou-se ento para a porta e a abriu
lentamente. Ouviu rudos de talheres e de pratos sendo empilhados.
Sentiu um cheiro de comida recm-sada do fogo -- po, carnes,
molhos. Os espritos das pessoas que pereceram no per estavam todos
por perto, entretidos uns com os outros, comendo, bebendo e falando.
    Eddie entrou coxeando, consciente do que viera fazer ali. Virou 
direita, para o cubculo do canto, onde o fantasma do seu pai fumava
um charuto. Sentiu um calafrio. Pensou no pai pendurado na janela do
hospital, morrendo sozinho no meio da noite.
    -- Pai? -- Eddie sussurrou.
    O seu pai no podia ouvi-lo. Eddie chegou mais perto.
    -- Pai. Eu j sei de tudo o que aconteceu.
    Sentiu o peito sufocar. Caiu de joelhos ao lado do cubculo. Seu
pai estava to prximo que Eddie pde ver os fios da "barba e a ponta
rasgada do charuto. Observou as papadas embaixo dos seus olhos
cansados, o nariz curvado, as juntas dos dedos salientes e seus ombros
robustos de trabalhador. Olhou para os prprios braos e percebeu, em
seu corpo terreno, que era agora mais velho do que seu pai.
Sobrevivera a ele de todas as formas.
    -- Eu estava com raiva de voc, pai. Eu odiava voc.
    Eddie sentiu as lgrimas brotarem. E um tremor no peito. Alguma
coisa nele estava sendo descarregada.
    --Voc me batia. Voc me enxotava para fora. Eu no com-
preendia. Ainda no compreendo. Por que voc fazia isso? Por qu?
-- Eddie tomava longos e dolorosos flegos. -- Eu no sabia, est
certo? Eu no sabia nada da sua vida, de tudo o que aconteceu. Eu no
conhecia voc. Mas voc  o meu pai. Eu vou deixar isso tudo pra l,
est bem? Est bem? Vamos deixar isso tudo pra l?
    A voz trmula de Eddie foi adquirindo um tom agudo e lastimoso,
no era mais a sua voz.
    -- EST BEM? VOC EST ME OUVINDO? -- ele berrava.
Depois, mais suavemente: --Voc est me ouvindo?
    Inclinou-se para chegar mais perto.Viu as mos sujas do pai. Num
sussurro, disse as suas familiares palavras finais.
    -- Est consertado.
    Eddie deu um soco na mesa e desabou no cho. Quando ergueu os
olhos, viu Ruby em p na sua frente, jovem e bela. Com um breve
aceno de cabea, ela abriu a porta e ascendeu ao cu verde-jade.
                 QUINTA-FEIRA, 11 DA MANH
    Quem iria pagar o enterro de Eddie? Ele no tinha parentes. No
deixara instrues. Seu corpo ficou no necrotrio da cidade, assim
como suas roupas e objetos pessoais, seu uniforme de trabalho, suas
meias e sapatos, seu bon de pano, seu anel de casamento, seus
cigarros e limpadores de cachimbo, todos  espera de que algum os
reclamasse.
    At que o senhor Bullock, o proprietrio do parque, pagou a
despesa com o dinheiro do salrio que Eddie no podia mais receber.
O caixo era de madeira barata. A igreja foi escolhida pela localizao
-- a mais prxima do per --, j que a maioria dos presentes tinha de
voltar para o trabalho.
    Minutos antes de encomendar o corpo, o pastor pediu a
Dominguez, que vestia um casaco esporte azul-marinho e sua melhor
cala jeans, para entrar um momento em seu escritrio.
    -- O senhor poderia me dizer alguma coisa sobre as qualidades do
falecido? -- pediu o pastor. -- Me disseram que o senhor trabalhava
com ele.
    Dominguez engoliu em seco. No se sentia nem um pouco
confortvel na presena de ministros da igreja. Curvou os dedos,
compenetrado, como que refletindo a respeito da pergunta, e falou to
suavemente quanto achava que devia falar em tal situao.
    -- O Eddie -- disse finalmente -- amava muito sua esposa. Abriu
as mos e acrescentou rapidamente:
    -- Eu no a conheci,  claro.


         A quarta pessoa que Eddie
             encontra no cu


    EDDIE PESTANEJOU E SE VIU numa pequena sala redonda. As
montanhas tinham desaparecido e o cu verde-jade, tambm. O teto de
estuque era to baixo que sua cabea quase batia nele. A sala era
marrom -- um marrom ordinrio como o de papel de po -- e vazia,
exceto por um banquinho de madeira e um espelho oval na parede.
    Eddie foi at a frente do espelho. No viu nenhum reflexo, s o
reverso da sala, que se expandiu de repente para incluir uma fileira de
portas. Eddie se virou.
    E tossiu.
    O som lhe causou um sobressalto, corno se viesse de outra pessoa.
Tossiu de novo, uma tosse forte e ruidosa, como se coisas precisassem
ser rearrumadas dentro do seu peito.
    "Quando foi que isso comeou?", pensou Eddie. Tocou a prpria
pele que envelhecera desde o momento em que estivera com Ruby.
Parecia mais fina agora, e mais seca. Seu abdome, que durante o
tempo com o capito parecia firme como borracha esticada, estava
frouxo e mole, a flacidez da velhice.
    Voc ainda tem duas pessoas para encontrar, Ruby tinha dito. E
depois? As costas lhe doam. Sua perna defeituosa estava ficando mais
rgida. Ele percebia o que se passava em cada novo estgio do cu.
Seu corpo degenerava.
     APROXIMOU-SE DE UMA das portas e a abriu. E encontrou-se
de repente ao ar livre, no jardim de uma casa que nunca vira, num pas
que no reconhecia, no meio do que parecia ser uma recepo de
casamento. Convidados se serviam em baixelas de prata em toda a
extenso do gramado. Numa das extremidades havia um arco coberto
de flores vermelhas e ramos de btula, e na outra, ao seu lado, a porta
pela qual havia entrado. No meio do grupo, a noiva, jovem e bela,
tirava um prendedor de seu cabelo louro. O noivo, muito magro, vestia
um fraque negro, trazia uma espada, e no punho da espada, uma
aliana. Abaixou-a na frente da noiva, e os convidados aplaudiram
quando ela a pegou. Eddie podia ouvir suas vozes, mas era uma lngua
estrangeira. Alemo? Sueco?
    Tossiu novamente. As pessoas olharam para ele. Todas pareciam
sorrir, e os sorrisos assustaram Eddie. Saiu rapidamente atravs da
porta pela qual entrara, imaginando retornar  sala redonda. Em vez
disso, encontrou-se no meio de outro casamento, desta vez a portas
fechadas, um grande salo onde os convidados pareciam espanhis e a
noiva usava flores alaranjadas no cabelo. Ela ia passando de um
parceiro de dana para o seguinte, e cada um dos convidados lhe
entregava um pequeno saco de moedas.
    Eddie tossiu de novo -- no podia evit-lo -- e, quando os
convidados olharam, saiu pela porta e se viu em meio a uma outra
cerimnia em que as famlias derramavam vinho no cho e os noivos
se davam as mos e saltavam sobre uma vassoura. Eddie achou que se
tratava de um casamento africano. Passou pela porta outra vez e caiu
numa recepo chinesa em que se soltavam bombinhas no meio dos
alegres convivas. Depois foi parar numa recepo -- francesa, quem
sabe? -- em que os noivos bebiam juntos em uma taa de duas alas.
    "Quanto tempo ser que isto vai durar?", pensou Eddie. Em
nenhuma recepo havia qualquer sinal de como as pessoas tinham
chegado ali -- carros, carroas, cavalos, nada. Ir embora no parecia
constituir problema. Os convidados circulavam, e Eddie era
considerado apenas um a mais, para quem todos sorriam mas nunca
dirigiam a palavra, tudo muito parecido com o punhado de casamentos
a que comparecera na Terra. Ele preferia assim. Em sua mente havia
nos casamentos demasiados momentos constrangedores, como quando
os casais eram convidados a participar da dana ou a ajudar a levantar
a noiva na cadeira. Sua perna defeituosa parecia queimar nesses mo-
mentos e ele tinha a sensao de que as pessoas o observavam do
outro lado do salo.
    Por causa disso, Eddie evitava a maioria das recepes e, quando
ia, preferia ficar no estacionamento fumando um cigarro, esperando o
tempo passar. De toda forma, ele passara um longo perodo sem ter
nenhum casamento para ir. S nos ltimos anos da sua vida, quando
os garotos que trabalhavam no per cresceram e se casaram, foi que ele
se viu tirando do armrio seu terno desbotado e vestindo a camisa de
colarinho beliscava seu pescoo reforado. A esta altura, os ossos da
sua perna fraturada na guerra j estavam deformados e cheios de
espores. A artrite tomara conta do seu joelho. Sua deficincia o
dispensava, portanto, de todos os momentos de participao, como
danas e parabns. Era considerado "um velho", solitrio, desgarrado,
de quem s se esperava que sorrisse quando o fotgrafo vinha at a
mesa.
    Aqui, agora, vestido com sua roupa de trabalho, ele ia passando de
um casamento para outro, de uma recepo para a seguinte, de uma
lngua, um bolo e um tipo de msica para outra lngua, outro bolo e
outro tipo de msica. A uniformidade no o surpreendia. Ele sempre
achara que um casamento no era muito diferente de outro. O que no
entendia era o que isso tinha a ver com ele.
    Cruzou uma vez mais a soleira da porta e se viu no que parecia ser
um povoado italiano. Havia vinhedos nas encostas e casas de fazenda
feitas de pedra. Os homens tinham cabelos negros, espessos e
brilhantes, penteados para trs, e as mulheres, olhos escuros e feies
marcantes. Depois de achar seu lugar junto a uma parede, Eddie ficou
observando os noivos cortarem ao meio um cepo de madeira com um
serrote de duas alas. A msica comeou -- flautas, violinos, violes
-- e os convidados comearam as danar a tarantela, rodopiando num
ritmo frentico. Eddie deu alguns passos para trs. Seus olhos
vaguearam pela orla do grupo.
    Uma dama de honra com um vestido longo cor de alfazema e um
chapu de palha bordado circulava entre os convidados com uma cesta
de amndoas carameladas. A distncia, parecia ter pouco mais de 20
anos.
    -- Per 1'amaro e il dolce? -- ela dizia, oferecendo os doces. -- Per
l'amaro e il dolce?... Per l'amaro e il dolce?...
    Ao ouvir aquela voz, o corpo de Eddie estremeceu. Comeou a
suar. Alguma coisa lhe disse para correr, outra
    manteve seus ps agarrados ao cho. Ela veio em sua direo. Seus
olhos o encontraram por debaixo da aba do chapu, arrematada com
flores artificiais.
    -- Per l'amaro e il dolce? -- ela disse, sorrindo, oferecendo-lhe as
amndoas. -- Para o amargo e o doce?
    O cabelo negro da jovem caiu-lhe sobre um dos olhos fazendo o
corao de Eddie quase explodir. Seus lbios levaram um momento
para se abrir, e o som no fundo de sua garganta levou um momento
para subir, mas chegaram juntos na primeira letra do nico nome que
jamais o fizera se sentir daquele jeito. Caiu de joelhos.
    -- Marguerite... -- ele sussurrou.
    -- Para o amargo e o doce -- ela disse.

                    Hoje  aniversrio de Eddie
    Eddie e seu irmo esto na oficina.
    -- Este -- diz joe, com orgulho, segurando uma furadeira --  o modelo
mais novo.
    Joe veste um palet esporte xadrez e sapatos preto e branco
pespontados. Eddie acha o irmo demasiado extravagante -- e extravagante
significa falso -- , mas Joe agora trabalha como vendedor de uma empresa
de mquinas e equipamentos. Como  que Eddie, que veste a mesma roupa
h anos, entende do assunto?
    -- Sim, senhor -- diz Joe. -- E veja esta aqui. Ela funciona com esta
pilha.
    Eddie segura a pilha entre os dedos, uma coisinha de nada chamada
nquel-cdmio. Difcil de acreditar.
    -- Ponha para funcionar -- diz Joe, entregando-lhe a furadeira.
    Eddie aperta o boto. Ouve-se um rudo tremendo.
    -- Fantstico, hein? -- grita Joe.
    Naquela manh, Joe contara a Eddie qual era seu novo salrio. Trs
vezes maior que o dele. Depois Joe tinha dado parabns a Eddie por sua
promoo: chefe de manuteno do Ruby Pier, o antigo posto de seu pai.
Eddie teve vontade de dizer: "Se voc acha to bom, por que no troca
comigo?" Mas no disse. Eddie nunca dizia nada que sentia l no fundo.
    -- Ol? Tem algum a?
    Marguerite est  porta, segurando um rolo de tquetes alaranjados. Os
olhos de Eddie se dirigem, como sempre, para o rosto dela, para sua pele
morena e seus olhos cor de caf. Ela conseguira um emprego de bilheteira
naquele vero, por isso veste o uniforme oficial do Ruby Pier: blusa branca,
colete vermelho, cala preta, boina vermelha e seu nome numa plaquinha
presa abaixo da clavcula. Esta viso deixa Eddie aborrecido --
especialmente na frente do seu irmo importante.
    -- Mostre a furadeira para ela -- diz joe. Ele se vira para Marguerite.
-- Funciona a pilha.
    Eddie aperta o boto. Marguerite pe as mos nos ouvidos.
    -- Ronca mais alto do que voc -- diz ela.
    --Ah! Ah! Ah!-grita Joe, s gargalhadas. -Ah! Ah! Ah! Ela te pegou!
    Eddie baixa os olhos, envergonhado, e v sua mulher sorrindo.
    -- Voc pode vir aqui fora um minuto? -- ela diz. Eddie balana a
furadeira.
    -- Estou trabalhando agora.
    -- S um minutinho!
    Eddie se levanta devagar e a acompanha para fora da oficina. O sol
bate no seu rosto.
    --FE-LIZ A-NI-VER-S-RI-O, SENHOR EDDIE! -- berra em unssono
um grupo de crianas.
    -- Ora, vejam s! -- diz Eddie. Marguerite grita:
    -- Muito bem, crianas, agora ponham as velas no bolo! As crianas
correm at um bolo de baunilha colocado em cima de uma mesa dobrvel.
Marguerite chega perto de Eddie e sussurra:
    -- Prometi a elas que voc vai apagar todas de uma s vez.
    Eddie resfolega. Observa sua mulher organizar o grupo. Como sempre
acontece com Marguerite e as crianas, ele fica feliz com a facilidade que
ela tem de agrad-las, e triste com a dificuldade de gest-las. Um mdico
diagnosticou problema de nervos. Outro disse que ela esperara demais,
devia ter tido filhos na faixa dos 25 anos. Depois, eles ficaram sem dinheiro
para mdicos. As coisas eram como eram.
    J faz quase um ano que ela vem falando em adotar uma criana. Esteve
na biblioteca. Trouxe jornais para casa. Eddie disse que eles eram velhos
demais. Ela questionou:
    -- O que  ser velho demais para ter um filho? Eddie disse que ia pensar
no assunto.
    -- Est bem -- ela agora grita da mesa do bolo. -- Venha, senhor
Eddie! Apague as velinhas. Ah, espere, espere... -- Ela vasculha uma bolsa
e tira uma mquina fotogrfica, uma engenhoca complicada com varetas,
lingetas e uma lmpada de flash redonda. -- Charlene me emprestou. 
uma Polaroid.
    Marguerite prepara-se para a fotografia, Eddie na frente do bolo e as
crianas se apertando em volta dele, admirando as 38 velinhas. Um menino
cutuca Eddie e diz:
    -- Tem de apagar todas elas, certo?
    Eddie olha para baixo. O glac est todo mexido, cheio de impresses
digitais.
    -- Eu vou apagar -- diz Eddie, mas est olhando para a sua mulher.
    FICOU OLHANDO para a jovem Marguerite.
    -- No  voc -- disse ele.
    Ela baixou a cesta de amndoas carameladas. Os convidados
danavam a tarantela enquanto o sol se escondia atrs, de uma faixa de
nuvens brancas.
    -- No  voc -- disse Eddie outra vez.
    Os danarinos gritavam "Huuheyy!"e tocavam os tamborins.
    Ela lhe estendeu a mo. Eddie a pegou depressa, instintivamente,
como quem agarra um objeto que cai. Seus dedos se encontraram,
uma sensao que ele nunca tivera, como se uma carne nova, macia e
quente estivesse se formando sobre sua prpria carne. Ela se ajoelhou
ao seu lado.
    -- No  voc -- disse ele.
    -- Sim, sou eu -- ela sussurrou. "Huuheyy!"
    -- No  voc, no  voc, no  voc -- Eddie murmurava.
Deixou cair a cabea nos ombros dela e, pela primeira vez desde a sua
morte, comeou a chorar.
     O CASAMENTO DELES aconteceu numa noite de Natal, no
segundo andar de um restaurante chins fracamente iluminado
chamado Sammy Hong's. Sammy, o proprietrio, concordara em
alug-lo para aquela noite, na certeza de que teria poucos fregueses.
Eddie pegou todo o dinheiro que lhe sobrara do servio militar e o
gastou na recepo -- frango assado com vegetais chineses, vinho do
    Porto e um tocador de acordeo. As cadeiras da cerimnia eram
necessrias para o jantar, de modo que, enquanto se faziam os votos,
os garons pediram aos convidados para se levantarem e levaram as
cadeiras para junto das mesas, no andar de baixo. O tocador de
acordeo se sentou num banquinho. Anos mais tarde, Marguerite
costumava brincar dizendo que a nica coisa que faltou no casamento
deles "foram os cartes de bingo".
    Depois de terminado o jantar e entregues os poucos presentes, fez-
se um ltimo brinde, e o homem do acordeo foi embora com sua
maleta. Eddie e Marguerite saram pela porta da frente. Caa uma
chuva fina e gelada, mas os noivos foram juntos, a p, para a casa que
ficava a algumas poucas quadras de distncia. Marguerite usava um
grosso suter cor-de-rosa por cima do vestido de noiva, e Eddie, seu
palet branco com a camisa que lhe beliscava o pescoo. Saram de
mos dadas, sob a luz dos lampies. Tudo  volta deles parecia per-
feitamente ajustado.
    AS PESSOAS DIZEM QUE "encontram" o amor, como se o amor
fosse um objeto escondido atrs de uma pedra. Mas o amor assume
muitas formas, e nunca  o mesmo para cada homem e cada mulher. O
que as pessoas encontram, ento,  um certo tipo amor. E Eddie achou
um certo tipo de amor com Marguerite, um amor agradecido, um amor
profundo apesar de silencioso, o amor que ele conhecia, acima de
tudo, insubstituvel. Depois que ela se foi, seus dias perderam o vio.
Ele fez seu corao adormecer.
    Agora, aqui estava ela outra vez, to jovem como no dia em que se
casaram.
    --Venha comigo -- ela disse.
    Eddie tentou se levantar, mas seu joelho doente vergou. Ela o
levantou sem esforo.
    -- Sua perna -- ela disse, olhando para a antiga cicatriz com uma
terna familiaridade. Depois voltou os olhos para cima e tocou os tufos
de cabelo sobre as orelhas do marido.
    -- Esto brancos -- disse sorrindo.
    Eddie no conseguia mover a lngua. No conseguia fazer nada a
no ser ficar olhando. Ela era exatamente igual  sua lembrana --
mais bonita, na verdade, pois suas ltimas lembranas eram de uma
mulher mais velha e sofrida. Ficou ao lado dela, calado, at que
Marguerite apertou seus olhos escuros e moveu os lbios
maliciosamente.
    -- Eddie -- ela disse, com uma risadinha --, voc se esqueceu
assim to rpido de como eu era?
    Eddie engoliu em seco.
    -- Eu nunca me esqueci de como voc era.
    Ela tocou de leve no rosto de Eddie, que sentiu uma onda de calor
se espalhar pelo corpo. Fez um sinal indicando a casa e os convidados
que danavam.
    -- Todos os casamentos -- disse ela alegremente. -- Foi o que eu
escolhi. Um mundo de casamentos, atrs de cada porta. Oh, Eddie,
esta  uma coisa que nunca muda! A expectativa que a gente v nos
olhos dos dois quando o noivo levanta o vu, ou quando a noiva
recebe a aliana,  sempre a mesma no mundo todo. Eles realmente
acreditam que seu amor e seu casamento sero os melhores que j
existiram.
    Ela sorriu.
    --Voc acha que o nosso foi assim?
    Eddie no sabia responder.
    -- Ns tivemos um tocador de acordeo -- disse ele.
    SARAM DA RECEPO e subiram uma trilha de cascalhos. A
msica foi diminuindo at se transformar num suave rudo de fundo.
Eddie queria contar a ela tudo o que acontecera. Queria lhe perguntar
sobre cada pequena coisa e cada grande coisa, tambm. Sentia-se
remexido por dentro, uma ansiedade intermitente. No fazia a menor
idia de por onde comear.
    --Voc passou por isso tambm? -- ele perguntou finalmente.
    -- Encontrou as cinco pessoas?
    Ela confirmou, movendo a cabea.
    -- Cinco pessoas diferentes -- ele disse. Ela repetiu o gesto.
    -- Elas explicaram tudo? E foi importante? Marguerite sorriu.
    -- Muito importante. -- Ela tocou-lhe o queixo. -- E depois eu
fiquei esperando por voc.
    Eddie observou atentamente os olhos dela. O sorriso. Ficou
imaginando se ela se sentira como ele durante a espera.
    -- O que voc sabe sobre mim? O que voc aprendeu desde... Ele
ainda tinha problemas em dizer a palavra.
    -- Desde que voc morreu.
    Ela tirou o chapu de palha e afastou da testa a mecha de cabelos
jovens e saudveis.
    -- Bem, eu sei de tudo o que aconteceu enquanto estvamos
juntos...
    Comprimiu os lbios.
    -- E agora sei por que aconteceram... Ps as mos sobre o peito.
    -- E sei tambm... que voc me amava muito.
    Ela ento pegou a outra mo de Eddie. Ele voltou a ser inundado
por aquela onda de calor.
    -- Eu no sei como voc morreu -- ela disse. Eddie pensou um
momento.
    -- Eu tambm no tenho certeza -- disse. -- Havia uma menina,
uma menininha perdida embaixo de um brinquedo e que corria perigo.
    Marguerite arregalou os olhos. Parecia to jovem. Eddie se dava
conta do quanto era difcil falar  sua esposa sobre o dia em que ele
morrera.
    -- Tem uns brinquedos, sabe, uns brinquedos novos, no se
parecem com aqueles do nosso tempo -- agora  tudo a mil por hora.
Bem, o fato  que esse brinquedo novo deixa cair l do alto uns carros
que tm de ser parados pelo freio hidrulico para poderem chegar ao
cho devagarinho. Mas alguma coisa puiu o cabo, o carro se soltou, eu
ainda no sei muito bem como, mas o carro caiu porque eu disse a eles
para solt-lo -- quer dizer, eu disse ao Dom, aquele rapaz que trabalha
comigo agora -- no foi culpa dele --, mas eu disse para ele soltar e
depois tentei voltar atrs, mas ele no conseguia me ouvir, e a
garotinha estava sentada ali, e eu tentei alcana-la. Tentei salv-la.
Cheguei a sentir suas mozinhas, mas a eu...
    Ele parou. Ela inclinou a cabea, pedindo que ele fosse adiante.
Eddie deu um suspiro profundo.
    -- Eu no falava tanto desde que cheguei aqui -- ele disse.
    Ela moveu a cabea e sorriu, um sorriso delicado, e ao v-lo os
olhos de Eddie marejaram de lgrimas e uma onda de tristeza o
inundou. De repente, simplesmente nada disso importava, nada a
respeito da sua morte, do parque, da multido a quem ele gritara "Para
trs!". Por que estava falando sobre isso? O que estava fazendo? Ele
estava com ela, realmente? Como uma mgoa escondida que sobe e
agarra o corao, a sua alma foi surpreendida pelas velhas emoes.
Seus lbios comearam a tremer e ele foi arrastado pela correnteza de
tudo o que havia perdido. Olhava para sua esposa, sua esposa morta,
sua jovem esposa, a esposa que se fora antes dele, sua nica esposa, e
no queria olhar mais.
    -- Meu Deus, Marguerite -- ele sussurrou. -- Eu sinto tanto,
tanto. Eu no sei dizer. No sei o que dizer.
    Deixou cair a cabea entre as mos e disse assim mesmo, disse o
que todo mundo diz:
    -- Eu senti tanto a sua falta.

                    Hoje  aniversrio de Eddie
    O hipdromo est cheio dos freqentadores de vero. As mulheres com
chapus de palha e os homens fumando charutos. Eddie e Noel saem cedo
do trabalho para jogar no 39, a idade que Eddie est fazendo, na Dupla
Exata. Esto sentados nas cadeiras de madeira da tribuna, com copos de
cerveja de papel aos seus ps, em meio a um tapete de tquetes descartados.
    H pouco, Eddie acertou no primeiro preo do dia. Apostou metade do
que ganhou no segundo preo e ganhou tambm, a primeira vez que uma
coisa assim lhe acontece. Isto lhe rendeu 209 dlares. Depois de perder
duas vezes em apostas menores, ele jogou tudo na vitria de um cavalo no
sexto preo, porque, como ele e Noel concordaram em sua lgica
exuberante, se tinha chegado ali com quase nada, que mal faria voltar para
casa com quase nada?
    -- Pense s, se voc ganhar -- diz Noel --, vai ter uma grana-preta para
o menino.
    Toca a sineta.  dada a largada. Com os cavalos embolados na reta
oposta, as roupas coloridas dos jqueis se confundem. Eddie torce pelo 8,
um cavalo chamado Jersey Finch que, cotado a quatro por um, no chega a
ser um mau palpite. Mas o que Noel acabara de dizer sobre "o menino" --
aquele que Eddie e Marguerite esto planejando adotar -- o faz ruborizar
de vergonha. Aquele dinheiro viria bem a calhar. Por que  que ele faz uma
coisa dessas?
    A multido se levanta. Os cavalos apontam na reta final. Jersey Finch
vem por fora, alargando a passada. Os aplausos se misturam ao tropel dos
cascos. Noel berra. Eddie aperta o seu tquete. Est mais nervoso do que
gostaria. Sua pele fica arrepiada. Um cavalo salta  frente do grupo.
    Jersey Finch!
    Eddie tem agora quase 800 dlares.
    -- Preciso ligar para casa -- ele diz.
    -- No faa isso, vai estragar tudo -- diz Noel.
    -- Do que  que voc est falando?
    -- Contar a outra pessoa estraga a sua sorte.
    -- Voc est louco.
    -- No faa isso.
    -- Eu vou ligar para ela. Ela vai ficar feliz.
    -- Isto no vai deix-la feliz.
    Eddie coxeia at um telefone pblico e coloca uma moeda. Marguerite
responde. Ele lhe d a notcia. Noel tem razo. Ela lhe diz para vir para
casa. Ele manda ela parar de dizer o que ele tem de fazer.
    -- Nosso beb est para chegar -- ela ralha com ele. -- Voc no pode
continuar agindo dessa maneira.
    Eddie desliga o telefone com a orelha quente. Volta para junto de Noel,
que est comendo amendoim junto ao gradil.
    -- Deixe ver se eu adivinho -- diz Noel.
    Eles vo  bilheteria apostar em outro cavalo. Eddie pega o dinheiro no
bolso. Uma metade dele no quer fazer isso, mas a outra quer ganhar o
dobro, para quando chegar em casa jogar em cima da cama e dizer  sua
mulher:
    "Toma aqui, compre o que voc quiser!"
    Noel o v colocar as notas pela abertura do guich. Ergue as
sobrancelhas.
    -- Eu sei, eu sei -- diz Eddie.
    O que ele no sabe  que Marguerite, sem conseguir ligar para ele de
volta, resolveu ir ao hipdromo para encontr-lo. Sente-se mal por ter se
zangado com ele, ainda mais no dia do seu aniversrio, e quer lhe pedir des-
culpas; quer tambm pedir para ele parar. Ela sabe que Noel vai insistir
para eles ficarem at fechar -- Noel sempre age assim. E como o hipdromo
est a apenas dez minutos de casa, Marguerite pega a bolsa e sai pela
Ocean Parkway com seu Nash Rambler de segunda mo. Vira  direita em
Lester Street. O sol j se ps, o cu est mudando. A maioria dos carros vem
na direo contrria. Ela se aproxima da passarela da Lester Street, por
onde os freqentadores costumavam chegar ao hipdromo subindo as
escadas, passando sobre a rua e descendo as escadas do outro lado, at o
dia em que os proprietrios do hipdromo doaram um semforo  cidade, o
que tornou a passarela deserta a maior parte do tempo.
    Nesta noite, porm, ela no est deserta. Abriga dois adolescentes que
no querem ser encontrados, dois garotes de 17 anos que, horas antes,
haviam sido enxotados de uma loja de bebidas depois de roubar cinco
maos de cigarros e trs garrafinhas de usque. Agora, depois de beber todo
o usque e fumar todos os cigarros, entediados, eles balanam as garrafas
vazias sobre a borda do gradil enferrujado.
    -- Voc duvida? -- diz um deles.
    -- Duvido -- diz o outro.
    O primeiro deixa cair a garrafa, e eles se escondem atrs da grade de
ferro para observar. A garrafa passa pertinho de um carro e se espatifa na
pista de rolamento.
    -- Uhuuu -- grita o segundo. -- Viu s?
    -- Agora quero ver voc, seu cago.
    O segundo se levanta, segura a sua garrafa e escolhe o trfego esparso
da faixa da direita. Balana a garrafa de um lado para o outro, tentando
calcular para ela cair entre dois carros, como se aquilo fosse uma espcie
de arte, e ele, uma espcie de artista.
    Seus dedos se abrem. Ele quase sorri.
    Doze metros, abaixo, Marguerite no pensa em olhar para cima, no
imagina que alguma coisa pode estar acontecendo na passarela, no pensa
em outra coisa a no ser tirar Eddie do hipdromo enquanto ele ainda tem
algum dinheiro. Ela se pergunta em que setor das tribunas deve procurar no
exato instante em que a garrafa de Old Harpers bate no seu pra-brisa
fazendo voar estilhaos de vidro para todo lado. O carro d uma guinada e
vai de encontro  mureta de concreto. Expelida do carro como uma boneca,
ela se choca contra a porta, o painel e o volante, rompendo o fgado,
quebrando um brao e batendo a cabea com tanta fora que perde contato
com os sons da noite. No ouve as freadas dos carros. No ouve as buzinas.
No ouve o som abafado dos tnis que descem correndo a passarela da
Lester Street e se perdem na escurido.
     O AMOR, COMO A CHUVA, pode se nutrir do alto, deixando os
casais encharcados de alegria. As vezes, porm, na dura batalha da
vida, o amor seca na superfcie e  obrigado a se nutrir do cho,
sugando com suas razes para se manter vivo.
     O acidente em Lester Street mandou Marguerite para o hospital.
Ela teve de ficar seis meses de cama. Seu fgado rompido acabou se
recuperando, mas as despesas e a demora lhes custou a adoo. A
criana que eles pretendiam foi para outro casal. A culpa no
declarada pelo que tinha acontecido jamais encontrou um lugar de
descanso -- simplesmente passava como uma sombra do marido para
a mulher. Marguerite ficou calada durante um longo tempo. Eddie se
deixou absorver no trabalho. A sombra tomava assento  mesa do
casal, e eles comiam em sua presena em meio ao tilintar dos pratos e
talheres. Quando falavam, era sobre coisas pequenas. A gua do seu
amor estava oculta embaixo das razes. Eddie nunca mais apostou em
cavalos. Seus encontros com Noel foram escasseando pouco a pouco,
ambos incapazes de conversar durante o caf da manh, qualquer
assunto exigindo um grande esforo.
     Um parque de diverses da Califrnia introduziu os primeiros
trilhos de ao tubular que serpenteavam fazendo curvas fortes,
impossveis para a madeira, e de repente as montanhas-russas que
tinham quase cado no esquecimento voltaram  moda. O senhor
Bullock, o proprietrio do parque, encomendou ao Ruby Pier um
modelo com trilhos tubulares, cabendo a Eddie supervisionar a
construo. Ele dava ordens aos instaladores e lhes controlava todos
os movimentos. No confiava em nada to veloz. ngulos de 60
graus? Ele tinha certeza de que algum ia se machucar. De toda forma,
aquilo lhe proporcionou uma distrao.
     A Concha Acstica Cho de Estrelas foi demolida. O Zper
tambm, assim como o Tnel do Amor que os garotos agora achavam
cafona demais. Alguns anos mais tarde, construiu-se um novo
brinquedo chamado Splash que, para surpresa de Eddie, se tornou
imensamente popular. Os barcos desciam por calhas de gua e caam
numa grande piscina, espalhando gua para todos os lados. Eddie no
conseguia entender por que as pessoas gostavam tanto de se molhar no
parque, quando o oceano estava a apenas 200 metros de distncia.
Mas de qualquer forma cuidava do brinquedo, trabalhando descalo
dentro d'gua para que os barcos nunca escapassem de suas calhas.
    Com o tempo, marido e mulher voltaram a se falar, e uma noite
Eddie voltou a mencionar a adoo. Marguerite passou a mo na testa
e reagiu:
    -- Ns j estamos velhos demais para isso. E Eddie disse:
    -- O que  ser velho demais para ter um filho? Passaram-se os
anos. A criana nunca veio, mas as feridas se curaram lentamente e o
companheirismo dos dois cresceu at ocupar o espao que estavam
guardando para um outro ser. De manh, ela lhe fazia caf com
torradas e ele a levava de carro ao emprego na lavanderia, antes de
comear seu trabalho no parque. s vezes, ela largava cedo e vinha
caminhar com ele no deque, seguia-o em suas rondas, andava nos
cavalinhos do carrossel e nos carrinhos amarelos, enquanto Eddie
falava sobre roldanas e cabos e prestava ateno no zumbido dos
motores.
    Numa noite de julho, eles caminhavam  beira-mar afundando os
ps descalos na areia molhada e tomando picols de uva, quando se
deram conta de que eram as pessoas mais velhas da praia.
    Marguerite fez um comentrio sobre os biqunis, dizendo que
nunca teria coragem de usar uma coisa daquelas. Eddie disse que as
garotas estavam com sorte, porque, se ela resolvesse usar, os homens
no iriam olhar para mais ningum. E embora estivesse j na casa dos
40, com os quadris um pouco mais largos e uma teia de ruguinhas se
formando ao redor dos olhos, Marguerite sentiu-se imensamente
agradecida e ps-se a admirar o nariz recurvo e a queixada larga de
Eddie. As guas do amor voltaram ento a cair sobre eles, to
inebriantes quanto a gua que lhes banhava os ps.
     TRS ANOS DEPOIS, ela preparava bifes de frango empanado
na cozinha do apartamento, o mesmo onde ficaram morando todo esse
tempo, bem depois da morte da me de Eddie, porque Marguerite
dizia que a fazia lembrar do tempo em que eles eram pequenos e ela
gostava de ver o velho carrossel pela janela. De repente, sem qualquer
aviso, os dedos de sua mo direita comearam a se esticar
incontrolavelmente. Viraram para trs. E no fechavam. O bife
escorregou da sua mo e caiu na pia. Seu brao latejou.A respirao se
acelerou. Ela olhava espantada para a prpria mo, com aqueles dedos
travados que pareciam pertencer a outra pessoa, como se segurassem
uma enorme jarra invisvel. E tudo comeou a rodar.
    -- Eddie? -- ela chamou, mas quando ele chegou ela j estava
cada no cho, inconsciente.
     ERA UM TUMOR no crebro, disseram os mdicos, e o declnio
de Marguerite seria como muitos outros, tratamentos que faziam a
doena parecer menos grave, cabelo caindo em chumaos, manhs em
meio a mquinas barulhentas de radiao e noites vomitando no
banheiro do hospital.
    Nos ltimos dias, quando o cncer j fora declarado vencedor, os
mdicos apenas diziam: "Descanse. Relaxe." Quando ela fazia
perguntas, eles assentiam afetuosamente com a cabea, como se seus
gestos fossem remdio ministrado a conta-gotas. Ela sabia que era
mera formalidade, a maneira de usar simpatia para disfarar a
impotncia. E quando um deles sugeriu que ela "pusesse seus assuntos
em ordem", pediu para deixar o hospital. A rigor, no pediu. Afirmou
sua vontade.
    Eddie a ajudou a subir as escadas e pendurou seu casaco, enquanto
ela inspecionava o apartamento. Quis cozinhar, mas ele a fez sentar-se
e colocou gua no fogo para um ch. Com os bifes de cordeiro que
comprara no dia anterior, naquela noite ele preparou como pde um
jantar com amigos e colegas de trabalho, a maioria dos quais saudava
Marguerite e sua aparncia abatida com frases como "Ei, olha s quem
est de volta!", como se fosse uma volta ao lar, e no uma festa de
despedida.
    Comeram bolo de batata assado no forno e bolinhos de chocolate
com calda de caramelo na sobremesa. Quando Marguerite terminou
seu segundo copo de vinho, Eddie pegou a garrafa e lhe serviu um
terceiro.
    Dois dias depois, ela acordou gritando. Ele a levou para o hospital
no silncio da madrugada. Falavam com frases curtas, perguntando
qual mdico estaria l, para quem Eddie devia telefonar. E embora ela
estivesse sentada no banco ao seu lado, Eddie a sentia em tudo, no
volante, no pedal do acelerador, no piscar de seus olhos, no pigarro da
sua garganta. Cada gesto seu estava impregnado do desejo de
conserv-la.
    Ela estava com 47 anos.
    --Voc trouxe o carto? -- ela perguntou.
    -- O carto... -- ele repetiu, absorto.
    Ela respirou fundo, fechou os olhos, e quando voltou a falar sua
voz estava ainda mais fraca, como se aquele flego tivesse lhe custado
muito.
    -- Do seguro -- ela murmurou ofegante.
    -- Trouxe, trouxe sim -- ele disse. -- Eu estou com o carto.
Pararam no estacionamento e Eddie desligou o motor. De repente,
ficou tudo totalmente parado e quieto. Ele ouvia cada pequeno rudo,
o rangido de seu prprio corpo no banco de couro, o barulho da
maaneta da porta, o sopro do ar exterior, o seu p pisando no
pavimento, o chacoalhar de suas chaves.
    Abriu a porta e a ajudou a sair. Os ombros dela estavam
encolhidos embaixo de seu queixo, como uma criana enregelada. O
cabelo lhe caa sobre o rosto. Ela fungou e fitou o horizonte. Fez um
sinal para Eddie, indicando com a cabea a direo da roda-gigante do
parque de diverses, visvel  distncia, toda branca, com seus carros
vermelhos pendurados como bolas de rvore de Natal.
    -- D para ver daqui -- ela disse.
    -- A roda-gigante? -- ele perguntou. Ela desviou o olhar.
    -- A nossa casa.
    COMO NO TINHA DORMIDO desde que chegara ao cu, a
impresso de Eddie era de no ter passado mais do que algumas horas
com cada uma das pessoas com quem se encontrara. Alm do mais,
sem noite nem dia, sem dormir nem acordar, sem crepsculos, mars,
refeies nem horrios, como  que ele ia saber?
    Com Marguerite, ele s queria tempo -- mais e mais tempo -- e
tempo lhe foi concedido, noites e dias inteiros. Eles entraram e saram
dos mais variados tipos de casamento e conversaram sobre tudo o que
tinham vontade de conversar. Durante uma cerimnia sueca, Eddie
falou a Marguerite sobre seu irmo, Joe, que 10 anos antes morrera de
um ataque cardaco, um ms depois de comprar uma casa num
condomnio da Flrida. Num casamento russo, Marguerite perguntou
se ele tinha permanecido no antigo apartamento, e ele respondeu que
sim, e ela disse que isso a deixava contente. Numa cerimnia ao ar
livre num povoado libans, ele falou sobre o que lhe acontecera no
cu, e ela ouviu dando a impresso de que j sabia. Falou do que o
Homem Azul lhe dissera, explicando por que algumas pessoas
morrem e outras vivem, e falou do capito e de sua concepo de
sacrifcio. Quando falou de seu pai, Marguerite lembrou as muitas
noites que Eddie passara furioso com ele, perplexo com o seu silncio.
Quando Eddie lhe contou que j tinha acertado os ponteiros com o pai,
ela ergueu as sobrancelhas e descerrou os lbios, fazendo Eddie
reviver uma antiga e clida sensao que lhe fizera falta durante anos
e que vinha do simples fato de fazer sua esposa feliz.
    UMA NOITE, EDDIE falou sobre as mudanas no Ruby Pier, dos
brinquedos antigos que tinham sido desmontados, do fliperama que
no tocava mais msica de circo, s a batida pesada do rock' n' roll,
das montanhas-russas modernas que davam voltas como parafusos
com os carros pendurados nos trilhos, das "salas escuras" em que, em
vez de silhuetas mal-acabadas pintadas com tinta fosforescente, agora
havia telas de vdeo, como se as pessoas ficassem assistindo  tele-
viso o tempo todo.
    Falou dos nomes dos brinquedos novos. No existia mais o
Mergulho nem o Cambalhota. Agora as atraes se chamavam
Viking, Kamikaze, Cabum, Cataclismo e Boomerang.
    -- Parecem estranhos, no? -- disse Eddie.
    -- Parecem -- ela reagiu pensativa. -- Como se estivesse acon-
tecendo em outra poca, com outras pessoas.
    Eddie percebeu que era precisamente isto o que ele sentia havia
anos.
    -- Eu devia ter ido trabalhar em outro lugar -- ele disse. -- Eu me
arrependo de nunca ter sado de l. O meu pai. A minha perna. Eu
sempre me senti um completo intil depois da guerra.
    Ele viu passar uma sombra de tristeza no rosto dela.
    -- O que foi que aconteceu durante a guerra? -- ela perguntou.
Ele tinha lhe contado muito pouco sobre a guerra. Ficara tudo
subentendido. Os soldados, na poca, faziam o que tinham de fazer e
no falavam mais no assunto depois que voltavam para casa. Ele
pensava nos homens que tinha matado. Pensava nos guardas. Pensava
no sangue em suas mos. E se perguntava se um dia seria perdoado.
    -- Eu me perdi -- ele disse.
    -- No -- falou sua mulher.
    -- Sim -- ele sussurrou, e ela no disse mais nada.
    S VEZES, no cu, os dois ficavam deitados juntos. Mas no
dormiam.
    -- Na Terra -- disse Marguerite --, quando dormimos, s vezes
sonhamos com a nossa idia de cu e esses sonhos nos ajudam a
constru-lo.
    Mas agora no havia mais razo para sonhar com o cu.
    Em vez de dormir, Eddie a abraava e enfiava o rosto em seus
cabelos, respirando longa e profundamente. A certa altura, perguntou
 sua mulher se Deus sabia que ele estava ali. Ela sorriu e disse "
claro", mesmo quando Eddie admitiu que passara uma parte de sua
vida se escondendo de Deus e o restante achando que ele tinha
passado despercebido.


                       A quarta lio


   FINALMENTE, DEPOIS DE MUITAS CONVERSAS,
    Marguerite e Eddie passaram por outra porta e voltaram  pequena
sala redonda. Ela se sentou no banquinho e entrelaou os dedos.
Depois, se virou para o espelho. Eddie viu o reflexo dela, mas no viu
o seu.
    -- A noiva fica aqui, esperando -- ela disse passando as mos no
cabelo e observando a prpria imagem, mas parecendo estar longe. --
Este  o momento em que a gente pensa no que est fazendo. Quem
est escolhendo. Quem vai amar. Se est tudo bem, Eddie, este pode
ser ento um momento maravilhoso.
    Virou-se para ele.
    --Voc teve de viver sem amor durante muitos anos, no teve?
    Eddie no disse nada.
    -- Voc teve a sensao de que o amor lhe foi arrancado, que eu o
deixei cedo demais.
    Ele se abaixou lentamente. O vestido cor de alfazema de
Marguerite estava espalhado  sua frente.
    --Voc foi embora realmente cedo demais -- ele disse.
    -- E voc ficou zangado comigo?
    -- No.
    Os olhos dela brilharam.
    -- Est bem. Fiquei.
    -- Houve uma razo para tudo isso -- ela disse.
    -- Que razo? -- ele perguntou. -- Como pode ter havido uma
razo? Voc morreu e s tinha 47 anos.Voc era a melhor pessoa que
qualquer um de ns conhecia, mas voc morreu e perdeu tudo. E eu
perdi tudo. Eu perdi a nica mulher que amei na vida.
    Ela pegou as mos dele.
    -- No, no perdeu. Eu estava aqui. E voc me amava de qualquer
forma.
    -- Amor perdido ainda  amor, Eddie. Ele assume uma outra
forma, s isso. Voc no pode v-lo sorrir, no pode lhe trazer o
jantar, no lhe faz cafun nem rodopia com ele pelo salo. Mas
quando esses prazeres enfraquecem, um outro toma o seu lugar. A
lembrana. A lembrana se torna sua parceira.Voc a alimenta.Voc a
segura.Voc dana com ela. A vida tem de acabar -- disse ela. -- O
amor, no.
    Eddie pensou nos anos que se seguiram  morte de sua esposa. Era
como olhar por cima de uma cerca. Ele tinha conscincia de que havia
vida do outro lado, mas sabia que nunca faria parte dela.
    -- Eu nunca quis nenhuma outra pessoa -- ele falou calmamente.
    -- Eu sei -- disse ela.
    -- Eu ainda era apaixonado por voc.
    -- Eu sei. -- Ela reconheceu com um gesto. -- Eu senti isso.
    -- Aqui? -- ele perguntou.
    -- Mesmo aqui -- ela respondeu sorrindo. -- Para voc ver como
pode ser forte o amor perdido.
    Ela se levantou e abriu uma porta. Eddie pestanejou e foi atrs
dela. Era uma sala pouco iluminada, com cadeiras dobrveis e um
tocador de acordeo sentado num canto.
    Marguerite estendeu os braos. E, pela primeira vez no cu, ele
tomou a iniciativa e veio at ela, ignorando a perna, ignorando todas
as associaes desagradveis que fizera entre dana, msica e
casamentos, percebendo agora que na verdade tudo aquilo estava
ligado  solido.
    -- A nica coisa que falta so os cartes de bingo -- sussurrou
Marguerite, segurando o ombro dele.
    Com um sorriso largo, Eddie a enlaou pela cintura.
    -- Posso lhe perguntar uma coisa? -- ele disse.
    -- Pode.
    -- Por que voc est como no dia em que eu me casei com voc?
    -- Eu achei que voc fosse gostar assim. Ele pensou um momento.
    --Voc pode mudar?
    -- Mudar? -- Ela o olhou de um jeito divertido. -- E ficar como?
    -- Como voc era no fim. Ela abaixou os braos.
    -- Eu no estava to bonita no fim.
    Eddie balanou a cabea, como se dissesse que no era verdade.
    -- Pode?
    Depois de alguns instantes, ela voltou para os braos dele. O
homem do acordeo tocou as notas que eles j conheciam. Ela
cantarolava no ouvido de Eddie enquanto os dois danavam juntinhos,
bem devagar, rememorando um ritmo que marido e mulher s
dividem entre si.

   Voc me fez amar voc
   eu no queria fazer isso
   eu no queria fazer isso...
   Voc me fez amar
   voc sabia o tempo todo
   voc sabia o tempo todo...

   Quando ele moveu a cabea para trs, Marguerite voltara aos 47
anos, com as rugas nos cantos dos olhos, o cabelo mais fino e a pele
um pouco flcida embaixo do queixo. Ela sorriu. Ele sorriu tambm, e
para Eddie sua mulher era to bonita como sempre. Depois, ele fechou
os olhos e disse pela primeira vez o que vinha sentindo desde o
momento em que voltara a v-la:
   -- Eu no quero ir adiante. Quero ficar aqui.
   Quando ele abriu os olhos, seus braos ainda guardavam a forma
do corpo de sua mulher, mas ela tinha ido embora, assim como tudo o
mais.
   SEXTA-FEIRA, 3:15 DA TARDE
    Dominguez apertou o boto e a porta se fechou com um estrondo.
A janelinha de dentro se alinhou com a janelinha de fora. O elevador
deu um solavanco e comeou a subir. Pelo vidro, ele viu o saguo
desaparecer.
    -- No consigo acreditar que este elevador ainda funcione -disse
Dominguez. -- Deve ser do sculo passado.
    O homem ao seu lado, um procurador do Estado, fez um ligeiro
gesto de assentimento, fingindo interesse. Tirou o chapu forrado e
ficou observando os nmeros se acenderem no painel de bronze. Era
seu terceiro compromisso do dia. Mais um, e ele poderia ir para casa
jantar.
    -- Eddie no tinha muitas posses -- disse Dominguez.
    -- Ento no vamos demorar -- disse o homem, enxugando a testa
com um leno.
    Depois de oscilar um momento, o elevador parou, a porta se abriu
e eles saram em direo ao 6B. Pelo corredor, que ainda conservava
os azulejos em xadrez preto-e-branco da dcada de 1960, espalhava-se
um cheiro de comida no fogo -- alho e batatas fritas. O
administrador lhes dera a chave e um prazo. A quarta-feira seguinte. O
apartamento tinha de estar vazio para o novo morador.
    -- Uau... -- disse Dominguez, assim que abriu a porta e entrou na
cozinha. -- Muito em ordem para um velho. -- A pia estava limpa.
As bancadas, vazias. "Deus sabe", pensou ele, "que a sua casa nunca
estava arrumada desse jeito."
    -- Aplices? -- perguntou o procurador. -- Extratos bancrios?
Jias?
    Ao pensar em Eddie usando jias, Dominguez quase riu. E se deu
conta do quanto sentia a falta do velho, de como era estranho no t-lo
no per dando ordens e cuidando de tudo, como uma me
superprotetora. Eles nem sequer tinham esvaziado o seu armrio.
Ningum teve coragem. Deixaram as coisas dele na oficina, no mesmo
lugar onde estavam, como se Eddie fosse voltar no dia seguinte.
    -- No sei. Por que o senhor no d uma olhada naquele mvel do
quarto de dormir?
    -- A cmoda?
    -- Isso. O senhor sabe, eu s estive l uma vez. Eu realmente s
convivia com Eddie no trabalho.
    Dominguez se inclinou sobre a mesa e olhou pela janela da
cozinha. Viu o velho carrossel. A olhou o seu relgio. "Por falar em
trabalho", pensou consigo mesmo.
    O procurador abriu a gaveta de cima da cmoda do quarto.
Empurrou para o lado os pares de meias perfeitamente enroladas umas
dentro das outras e as cuecas brancas cuidadosamente alinhadas pelo
cs. Escondida debaixo delas havia uma velha caixa forrada de couro,
com jeito de coisa importante. Abriu-a na esperana de uma rpida
descoberta. Franziu o cenho. Nada de importante. Nenhum extrato
bancrio. Nenhuma aplice de seguro. S uma gravata-borboleta
preta, um cardpio de restaurante chins, um baralho velho, uma carta
com uma medalha do exrcito e uma foto desbotada de um homem ao
lado de um bolo de aniversrio, cercado de crianas.
    -- Ei -- chamou Dominguez da outra porta --,  isso o que o
senhor est procurando?
    Apareceu com um mao de cartas que tinha encontrado no armrio
da cozinha, algumas de uma agncia bancria local, outras do
Departamento dos Veteranos de Guerra. O procurador manuseou o
mao e disse, sem levantar os olhos:
    --  o bastante. -- Puxou um extrato bancrio e registrou
mentalmente o valor. Depois, como costumava acontecer nessas
visitas, congratulou-se consigo mesmo, em silncio, por seu prprio
extrato bancrio, sua carteira de aes e seu plano de aposentadoria.
Muito melhor do que acabar como esse pobre-diabo, que no tinha
nada para apresentar alm de uma cozinha limpa.


           A quinta pessoa que Eddie
                    encontra no cu


   BRANCO,       AGORA S HAVIA BRANCO. No havia terra,
no havia cu, no havia horizonte. S um branco puro e quieto,
silencioso como a neve caindo num tranqilo amanhecer.
    Branco era tudo o que Eddie via. E tudo o que ouvia era a sua
prpria respirao lenta e penosa, seguida de seu prprio eco. Ele
inspirava e ouvia uma inspirao mais alta. Expirava e o eco expirava
tambm.
    Eddie apertou os olhos fechados. O silncio  pior quando se sabe
que no ser quebrado, e Eddie o sabia. Sua mulher fora embora. Ele a
queria desesperadamente, um minuto mais, meio minuto mais, cinco
segundos, mas no havia como chegar at ela, cham-la, acenar-lhe,
sequer ver a sua imagem. Sentia-se como se tivesse rolado uma escada
e se arrebentado no cho. Sua alma estava vazia. No tinha nenhum
impulso. Pendia do nada, inerte e sem vida, como se estivesse
pendurado num gancho, como se todos os fluidos tivessem sido
drenados de seu corpo. Deve ter ficado assim um dia inteiro, um ms,
quem sabe. Talvez um sculo.
    Somente com a chegada de um rudo baixo, mas persistente, foi
que despertou, levantando as plpebras com esforo. J estivera em
quatro lugares do cu, encontrado quatro pessoas e, se era verdade que
a chegada de cada uma delas fora um acontecimento perturbador, algo
lhe dizia que esta agora seria completamente diferente.
    A vibrao sonora voltou, agora mais alta. Obedecendo ao seu
inseparvel instinto de defesa, Eddie cerrou os punhos e descobriu que
sua mo direita apertava o cabo de uma bengala. Tinha os braos
salpicados de manchas escuras, e as unhas, pequenas e amareladas.
Suas pernas nuas exibiam as erupes vermelhas -- herpes-zster --
que lhe apareceram nas ltimas semanas de vida na Terra. Desviou o
olhar para no constatar as evidncias do seu acelerado declnio. Na
contagem humana, seu corpo estava perto do fim.
    Ouviu aquele som novamente, um trinado agudo feito de guinchos
e pausas irregulares. Era o mesmo som que Eddie ouvia em seus
pesadelos quando era vivo, e esta lembrana o fez estremecer: o
povoado, o fogo, Smitty e este rudo, este chiado estridente que, no
final, saiu de sua prpria garganta quando tentou falar.
    Cerrou os dentes, como se isso pudesse faz-lo parar, mas o som
continuou, como um alarme que permanece ignorado, at Eddie gritar
em meio ao branco asfixiante:
    -- O que  isto? O que  que voc quer?
    Com seu grito, o rudo agudo passou para o segundo plano e a ele
se suporps um segundo rudo, um rumor vago e implacvel -- o som
das guas de um rio --, e a brancura se converteu em uma mancha
solar refletida em guas tremeluzentes. O cho surgiu embaixo dos
ps de Eddie. Sua bengala tocou em alguma coisa slida. Estava no
alto de uma barragem, onde uma brisa lhe batia no rosto e a nvoa
cobria sua pele com um verniz mido. Ao olhar para baixo, viu no rio
a fonte daqueles guinchos assustadores, e foi ento invadido pela
sensao de alvio do sujeito que descobre, com um taco de beisebol
na mo, que no h nenhum intruso na casa. O som, aquele guincho
agudo, penetrante e sibilante era simplesmente uma caco-fonia de
vozes de crianas, milhares delas, brincando nas guas do rio, gritando
no meio de risos inocentes.
    "Ento foi com isso que eu estive sonhando?", ele pensou. "Todo
esse tempo? Por qu?" Observou aqueles corpos pequenos, pulando e
chapinhando na gua, alguns carregando baldes enquanto outros
rolavam na relva. Notou uma certa calma, no havia sinal das disputas
comuns entre crianas. Notou tambm uma outra coisa. No havia
adultos. Nem adolescentes. Eram todas crianas pequenas, de pele
bem morena, aparentemente tomando conta de si mesmas.
    E ento os olhos de Eddie foram atrados para um penedo branco.
Em p sobre ele, separada das outras crianas, uma garotinha magra
olhava em sua direo. Ela acenou com as duas mos para que ele se
aproximasse. Eddie hesitou. Ela sorriu. Acenou outra vez e moveu a
cabea como dizendo: "Sim, voc mesmo."
    Eddie abaixou sua bengala para descer o barranco. Deslizou, seu
joelho ruim envergou e suas pernas cederam. Mas, antes de cair, uma
repentina rajada de vento bateu em suas costas, empurrando-o para a
frente e endireitando-lhe o corpo. E l estava ele, de p na frente da
garotinha, como se tivesse estado ali o tempo todo.

                     Hoje  aniversrio de Eddie
     Hoje, sbado, Eddie faz 51 anos. O seu primeiro aniversrio sem
Marguerite. Ele prepara caf solvel num copo de papel e come duas
torradas com margarina. Nos anos que se seguiram ao acidente de sua
esposa, Eddie baniu as comemoraes de aniversrio, dizendo: "Que motivo
eu tenho para que me lembrem que dia  hoje?"Era Marguerite quem insis-
tia. Fazia o bolo. Convidava os amigos. Sempre comprava um saco de bala
puxa-puxa e o amarrava com uma fita. "Voc no pode desistir do seu
aniversrio", ela dizia.
     Agora que ela partiu, Eddie tenta. No trabalho, alto e solitrio como um
alpinista, ele inspeciona cada curva da montanha-russa.  noite, assiste 
televiso em seu apartamento. Vai para a cama cedo. Nenhum bolo.
Nenhum convidado. No  difcil agir automaticamente quando voc se
sente uma espcie de autmato e quando todos os dias tm a cor desbotada
da derrota.
     Hoje, quarta-feira, Eddie faz 60 anos. Chega cedo  oficina. Abre um
saco de comida e tira um pedao de salsicha de dentro de um po. Coloca-o
num anzol e desce a linha pelo buraco de pescar. Observa-o flutuar.
Finalmente, ele desaparece, engolido pelo mar.
     Hoje, sbado, Eddie faz 68 anos. Espalha seus remdios sobre a
bancada da cozinha. O telefone toca.  o seu irmo, Joe, ligando da
Flrida. Joe lhe deseja um feliz aniversrio.
     Joe fala sobre seu neto e sobre uma casa num condomnio. Eddie diz
"h-h"pelo menos 50 vezes.
     Hoje, segunda-feira, Eddie faz 75 anos. Pe os culos e verifica os
relatrios de manuteno. Percebe que algum faltou ao servio na noite
anterior e que o freio da Lagarta Serelepe no foi testado. Suspira, tira uma
tabuleta da parede -- BRINQUEDO FECHADO TEMPORARIAMENTE
PARA MANUTENO  e a leva pelo deque at a entrada da Lagarta
Serelepe, onde ele prprio verifica o painel do freio.
     Hoje, tera-feira, Eddie faz 82 anos. Um txi chega  entrada do
parque. Ele se acomoda no banco da frente, trazendo consigo a bengala.
     -- A maioria prefere ir atrs -- diz o motorista.
     -- O senhor se importa? -- pergunta Eddie.
    O motorista d de ombros.
    -- No, no me importo.
    Eddie vai olhando para a frente. Evita dizer que desse modo tem um
pouco a sensao de estar dirigindo e que no dirige desde que lhe
recusaram a licena dois anos antes.
    O txi o leva ao cemitrio. Ele visita os tmulos da me e do irmo, e
fica diante do tmulo do pai somente por alguns instantes. Como de
costume, deixa o da esposa para o final. Inclina-se sobre a bengala, olha
para a lpide e pensa em muitas coisas. Puxa-puxa. Pensa em bala puxa-
puxa. Pensa que elas agora lhe arrancariam os dentes, mas que comeria
assim mesmo se isto significasse comer junto com ela.


                       A ltima lio


   PARECIA UMA GAROTINHA ASITICA, de cinco ou seis anos
de idade, com uma bonita tez cor de canela, cabelos cor de ameixa,
nariz pequeno e achatado, lbios cheios alegremente derramados sobre
a banguela e olhos absolutamente cativantes, negros como azeviche,
com uma cabecinha de alfinete branca no lugar da pupila. Ela sorria e
agitava as mos, excitada, at Eddie se aproximar um passo mais,
quando ento se apresentou. -Tala -- disse ela, colocando as palmas
das mos sobre o peito.
    -- Tala -- Eddie repetiu.
    Ela sorria como se um jogo tivesse se iniciado. Apontou para a
prpria blusa bordada, despreocupadamente jogada sobre os ombros e
molhada da gua do rio.
    -- Baro -- disse ela.
    -- Baro.
    Tocou no tecido vermelho que lhe envolvia o torso e as pernas.
    -- Saya.
    -- Saya.
    A vieram os sapatos, uma espcie de tamanco -- bakya --, depois
as conchas iridescentes junto aos seus ps -- capiz --, depois a esteira
de bambu tranado -- banig -- que se estendia  sua frente. Fez um
gesto para Eddie se sentar na esteira e sentou-se, ela tambm, com as
pernas enroscadas debaixo do corpo.
     Nenhuma das outras crianas parecia notar a presena de Eddie.
Elas brincavam na gua e juntavam pedras do fundo do rio. Eddie
observou um menino esfregando uma pedra no corpo de outro,
descendo pelas costas e embaixo dos braos.
     -- Lavando -- disse a menina. -- Como as nossas inas lavavam.
     -- Inas? -- disse Eddie.
     Ela examinou o rosto de Eddie.
     -- Mames -- disse ela.
     Eddie escutara muitas crianas em sua vida, mas na voz desta ele
no detectou nenhum trao da hesitao que as crianas costumam ter
ao falar com os adultos. Ficou imaginando se ela e as outras crianas
tinham escolhido este paraso  beira do rio ou se, dadas as poucas
lembranas que traziam, esta paisagem serena fora escolhida para elas.
     A menina apontou para o bolso da camisa de Eddie. Ele olhou para
baixo. Os limpadores de cachimbo.
     -- Isto aqui? -- ele perguntou. Pegou os limpadores e comeou a
torc-los, como fazia em sua poca no per. Ela se ajoelhou para
observar melhor o que ele fazia. As mos dele tremiam.
     -- Est vendo?  um... -- ele deu uma ltima torcida --
...cachorro.
     Ela pegou o bichinho e sorriu -- um sorriso que Eddie j vira mil
vezes.
     -- Gostou? -- ele disse.
     --Voc queimou eu -- disse ela.
     EDDIE SENTIU os dentes se cerrarem.
     -- O que foi que voc disse?
     --Voc queimou eu. Voc ps fogo em mim. A voz dela era
montona, como uma criana recitando uma lio.
     -- Minha ina disse para esperar dentro da nipa. Minha ina disse
para eu esconder.
     Eddie baixou a voz e escolheu vagarosamente as palavras.
     -- Do que... voc estava se escondendo, menininha?
     Ela brincou com o cachorrinho entre os dedos, depois o mergulhou
na gua.
    -- Sundalong -- ela disse.
    -- Sundalong?
    Ela ergueu os olhos.
    -- Soldado.
    Eddie sentiu a palavra como uma faca cortando sua lngua.
Imagens faiscaram em sua cabea. Soldados. Exploses. Morton.
Smitty. O capito. Os lana-chamas.
    -- Tala -- ele sussurrou.
    -- Tala -- ela disse sorrindo ao ouvir seu prprio nome.
    -- Por que voc est aqui, no cu? Ela abaixou o bichinho.
    -- Voc queimou eu. Voc ps fogo em mim.
    Eddie sentiu uma ferroada atrs dos olhos. Sua mente disparou.
Sua respirao se acelerou.
    -- Voc estava nas Filipinas... a sombra... naquela cabana.
    -- A nipa. Minha ina disse que l seguro. Eu esperei ela. Seguro.
Depois grande barulho. Grande fogo. Voc queimou eu. -- Ela ergueu
os ombros estreitos. -- No seguro. Eddie engoliu em seco. Suas
mos tremiam. Olhou dentro dos olhos grandes e negros da menina e
tentou sorrir, como se fosse um remdio de que a menininha
precisasse. Ela sorriu tambm, o que s serviu para despeda-lo. Sua
cabea pendeu e ele escondeu o rosto nas mos. Seus ombros caram e
seus pulmes se esvaziaram. A escurido que o envolvera durante
todos aqueles anos afinal se revelava, e era real, de carne e osso, esta
criana, esta linda criana, ele a matara, a queimara viva, ele merecera
todos aqueles pesadelos. Ento ele tinha visto algo! Aquela sombra
entre as chamas! A morte pelas suas mos! Pelas suas prprias mos
furiosas! Uma torrente de lgrimas desceu-lhe pelos dedos e sua alma
pareceu afundar.
    Eddie gemia de dor, e de dentro de si saiu um uivo como ele nunca
ouvira antes, um uivo que vinha das entranhas do seu ser, um uivo que
revolveu as guas do rio e agitou o ar enevoado do cu. Seu corpo se
convulsionou e sua cabea sacudiu furiosamente at aquele uivo dar
lugar a uma torrente de frases ditas como que em orao, cada palavra
sendo expelida num mpeto ofegante de confisso: "Eu matei voc,
EU MATEI VOC", depois num sussurro "Perdoe-me", depois
"PERDOE-ME, MEU DEUS..." e, finalmente, "O que foi que eu fiz...
O QUE FOI QUE EU FIZ?...".
    Chorou e chorou, at restar apenas um tremor. Ajoelhado na
esteira, ele tremia em silncio, balanando-se de um lado para o outro
diante da garotinha de cabelo escuro que brincava com seu bichinho
de limpador de cachimbo na margem do rio.
    QUANDO SUA ANGSTIA amainou, Eddie sentiu uns tapinhas
no ombro. Ergueu os olhos e viu Tala estendendo-lhe uma pedra.
    -- Voc me lava -- disse ela. Entrou na gua e ficou de costas
para Eddie. Puxou o baro bordado sobre a cabea.
    Eddie recuou. A pele dela tinha queimaduras horrveis, o torso e os
ombros totalmente carbonizados e empolados. Quando ela se virou,
seu rosto bonito e inocente apareceu coberto de cicatrizes horrendas.
Os cantos de seus lbios caram. Tinha somente um olho aberto. Havia
perdido tufos de cabelo junto com o couro cabeludo queimado, agora
coberto de crostas endurecidas.
    --Voc me lava -- disse ela outra vez, estendendo-lhe a pedra.
    Eddie se arrastou para dentro do rio. Pegou a pedra. Seus dedos
tremiam.
    -- Eu no sei... -- ele disse, num murmrio quase inaudvel. --
Eu nunca tive filhos.
    Ela ergueu a mo carbonizada. Eddie a pegou delicadamente e
comeou a esfregar a pedra em seu brao, bem devagar, at as
cicatrizes comearem a se soltar. Esfregou com mais fora e elas
descamaram. Com um pouco mais de esforo a carne queimada caiu,
deixando ver a carne saudvel. Ele virou a pedra e comeou a esfregar
as costas da menina, seus ombros pequenos, sua nuca e finalmente o
rosto, a testa e a pele atrs das orelhas.
    Ela se recostou nele, pousou a cabea em seu peito e fechou os
olhos, como que adormecendo. Ele lhe massageou delicadamente as
plpebras. Fez o mesmo com os lbios e as crostas da cabea, at o
cabelo cor de ameixa comear a brotar das razes e o rosto que ele vira
no incio surgir outra vez  sua frente.
    Quando ela despertou, seus olhos luziram como dois faris.
    -- Eu... cinco -- ela sussurrou.
    Eddie abaixou a pedra e estremeceu. Sua respirao era curta e
ofegante.
    -- Cinco... h... cinco anos?...
    Ela balanou a cabea, dizendo que no. E levantou cinco dedos e
os empurrou contra o peito de Eddie, como dizendo seu cinco. A sua
quinta pessoa.
    Soprava uma brisa morna. Uma lgrima rolou na face de Eddie.
Tala a observou como uma criana examina um inseto na relva.
Depois falou, no espao que havia entre eles.
    -- Por que triste? -- quis saber.
    -- Por que estou triste? -- ele sussurrou. -- Aqui? Ela apontou
para baixo.
    --L.
    Eddie soluou, um ltimo soluo disponvel, como se o seu peito
estivesse vazio. Renunciara a todas as barreiras; no se tratava mais de
uma conversa entre adulto e criana. E ele disse o que j tinha dito, a
Marguerite, a Ruby, ao capito, ao Homem Azul e, mais do que a
qualquer outro, a si mesmo.
    -- Eu era triste por no ter feito nada na vida. No fui nada. No
realizei nada. Eu me perdi. Era como se eu no devesse estar ali.
    Tala tirou da gua o cachorro feito de limpador de cachimbo.
    -- Devia estar ali -- disse.
    -- Onde? No Ruby Pier?
    Ela fez que sim com a cabea.
    -- Consertando brinquedos? Foi essa a minha existncia? -- Deu
um profundo suspiro. -- Por qu?
    Ela inclinou a cabea, como se fosse bvio.
    -- Crianas -- ela disse. -- Voc protegeu crianas. Voc fez bem
para mim.
    Ela esfregou o cachorrinho na camisa dele.
    --  onde voc devia estar -- disse ela, tocando-lhe no aplique da
camisa com um risinho e acrescentando as palavras: "Eddie Ma-nu-
ten-o".
     EDDIE SE ATIROU na gua corrente.Todas as pedras de suas
histrias estavam ao seu redor, embaixo da superfcie, tocando-se
umas s outras. Sentiu que sua forma se fundia, se dissolvia, e que no
tinha muito tempo, que o que quer que viesse depois das cinco pessoas
que se encontra no cu estava alm dele agora.
    -- Tala? -- ele sussurrou. Ela ergueu os olhos.
    -- E a garotinha no per? Voc sabe dela?
    Tala olhou para as pontas dos prprios dedos e fez que sim com a
cabea.
    -- Eu a salvei? Eu consegui pux-la? Tala balanou a cabea.
    -- Puxar no.
    Eddie estremeceu. Abaixou a cabea. Ento era isso. O final da
histria.
    -- Empurrar -- disse Tala. -- Voc empurrou pernas dela. No
puxou. Coisa grande caiu. Voc salvou ela.
    Eddie fechou os olhos, sem acreditar no que ouvira.
    -- Mas eu senti as mos dela -- disse. --  a nica coisa de que
eu me lembro. Eu no posso t-la empurrado. Eu senti as mos dela.
    Tala sorriu, pegou um pouco da gua do rio, depois colocou os
dedinhos molhados nas mos adultas de Eddie. Ele percebeu
imediatamente que eles j tinham estado ali.
    -- No eram as mos dela -- disse. -- Eram as minhas. Eu trouxe
voc para o cu. Eu protegi voc.
     COM ISSO, O RIO subiu rapidamente, envolvendo a cintura, o
peito e os ombros de Eddie. Antes que ele pudesse tomar outro flego,
o barulho das crianas desapareceu, submerso numa correnteza forte,
mas silenciosa. Com os dedos ainda entrelaados aos de Tala, ele
sentiu seu corpo ser separado da alma, a carne dos ossos, e assim se
foi toda a dor e todo o cansao que sempre tivera dentro de si, todas as
cicatrizes, todas as feridas, todas as lembranas sofridas.
    No era mais nada agora, apenas uma folha na gua que o
empurrava delicadamente por entre a sombra e a luz, por entre tons de
azul e marfim e verde-limo e preto, e Eddie percebeu que todas essas
cores, desde o comeo, eram as emoes da sua vida. Foi levado por
entre as ondas de um grande oceano escuro at emergir como uma luz
brilhante sobre uma cena quase inimaginvel.
    Era um per com milhares de pessoas, homens e mulheres, pais,
mes e crianas -- muitas crianas --, crianas do passado, do
presente e outras que ainda no tinham nascido, lado a lado, de mos
dadas, de bon e cala curta, lotando o deque, os brinquedos e as
plataformas de madeira, sentadas nos ombros e no colo umas das
outras. Elas estavam l por causa das coisas simples e comuns que
Eddie fizera na vida, dos acidentes que prevenira, dos brinquedos que
mantivera seguros, das providncias que tomara todos os dias sem
ningum perceber. E embora os lbios delas no se movessem, Eddie
ouvia suas vozes, mais vozes do que jamais poderia imaginar, e sobre
ele desceu uma paz que nunca conhecera. Agora estava livre das mos
de Tala e flutuava sobre a areia e o deque, sobre os telhados dos
estandes e as agulhas do passeio central, rumo ao topo da grande roda-
gigante branca onde um carro, balanando suavemente, trazia uma
mulher com um vestido amarelo -- sua mulher, Marguerite,
esperando-o de braos abertos. Ele lhe abriu os braos, viu o seu
sorriso e suas vozes se fundiram numa expresso vinda de Deus:
    A nossa casa.

                            Eplogo


    O PARQUE DO RUBY PER reabriu trs dias depois do acidente.
O episdio da morte de Eddie esteve nos jornais durante uma semana,
at ser substitudo por outras notcias, outras mortes.
    O brinquedo chamado Cabum do Freddy esteve fechado durante a
temporada, mas reabriu no ano seguinte com outro nome: Calafrio.
Visto pelos adolescentes como um smbolo de coragem, ele atraa
muitos freqentadores, fazendo a satisfao dos proprietrios.
    O apartamento de Eddie, o mesmo onde ele crescera, foi alugado
para outra pessoa que colocou um vitral na janela da cozinha,
obscurecendo a vista do velho carrossel. Dominguez, que concordou
em assumir o posto de Eddie, guardou todos os pertences dele num
ba nos fundos da oficina, junto com o acervo do Ruby Pier, incluindo
fotos da entrada original.
    Nicky, o rapaz cuja chave cortara o cabo, mandou fazer uma nova
chave e vendeu o carro quatro meses depois. Ele voltou muitas vezes
ao Ruby Pier, gabando-se com os amigos de que o parque fora
batizado em homenagem  sua av.
    As estaes se sucederam. E sempre que as aulas terminavam e os
dias iam ficando mais longos, as pessoas voltavam ao parque de
diverses junto ao oceano escuro -- no era to grande quanto os
parques temticos, mas era bastante grande assim mesmo. Chega o
vero, a alegria retorna, o litoral acena com a msica das ondas, e as
pessoas acorrem aos carrossis e rodas-gigantes, refrigerantes e
algodo-doce.
    Formavam-se filas no Ruby Pier -- iguais a uma fila que se
formava em outro lugar: cinco pessoas, cinco lembranas escolhidas,
esperando que uma garotinha chamada Amy, ou Annie, crescesse,
amasse, envelhecesse, morresse e tivesse finalmente suas perguntas
respondidas -- por que e para que tinha vivido. E nesta fila um velho
de suas, com um bon de pano e um nariz adunco, esperava, num
lugar chamado Concha Acstica Cho de Estrelas, para partilhar a sua
parte do segredo do cu: que cada vida afeta a outra, e a outra afeta a
seguinte, e que o mundo est cheio de histrias, mas todas as histrias
so uma s.

                     Agradecimentos


    O autor quer agradecer a Vinnie Curci, da Amusements of
America, e a Dana Wyatt, diretora de operaes da Pacific Park, no
Santa Monica Pier. Sua assistncia no trabalho de pesquisa para este
livro foi imprescindvel, e seu orgulho em proteger os freqentadores
dos parques de diverso  digno de louvor. Obrigado tambm ao Dr.
David Collon, do Henry Ford Hospital, pelas informaes sobre
ferimentos de guerra. E a Kerri Alexander, que lida, e muito bem, com
todas as coisas. Quero deixar registrado meu profundo reconhecimen-
to a Bob Mler, Allen Archer, Will Schwalbe, Leslie Wells, Jane
Comins, Katie Long, Michael Burkin e Phil Rose, por acreditarem em
mim; a Janine, que ouviu muitas vezes, pacientemente, a leitura em
voz alta deste livro; a Rhoda, Ira Cara e Peter, com quem compartilhei
minha primeira roda-gigante, e ao meu tio, o verdadeiro Eddie, que
me contou suas histrias muito antes de eu contar a minha.




   




   SOBRE O AUTOR

    Mitch Albom  autor de A ltima grande lio, alm de seis outros
livros. Um dos mais premiados jornalistas esportivos dos Estados
Unidos, trabalha como colunista de jornal e apresentador de rdio e de
televiso, alm de colaborar para vrias instituies de caridade. Ele
mora em Michigan com sua esposa Janine.

                                                                 Fim.
